quarta-feira, 15 de maio de 2013

153.3 e 4 - Duas Tradições Culturais


3 - Menino judeu nascido de uma família judaica alentejana emigrada para Amesterdão, Bento Espinosa criou um sistema de pensamento muito singular.
Para ele, em sentido estrito, por ser causa de si própria, só há no Universo uma verdadeira substância, que é a substância divina. Mas, como esta se constitui de pensamento mas também de extensão, conclui-se que, afinal … também a Natureza é Deus! Ela, a Natureza - da qual todos os outros seres fazem parte, como nós, todos seres essencialmente extensos e corpóreos -, ela é o lado extenso e material de Deus. Tudo o que existe … existe em Deus.
Assim, já está a ver-se como, dentro deste sistema de pensamento, era difícil para o autor explicar a individualidade dos seres criados do mundo, extensos e materiais. Mas, ainda assim, explicava! Dizia que todos eles (sobretudo os animais) se esforçam por afirmar e manter a sua individualidade, fugindo dos perigos e sempre defendo a sua vida até poderem. E que, no nosso caso humano, não só se tenta a individualidade física, mas também a mental, pela afirmação individual do eu de cada um.
Explicava, mas insistia no cerne da sua doutrina. Vistas as coisas de uma forma profunda e como que fora do tempo, tudo o que existe no mundo, no Universo, existe em Deus, e assim deverá permanecer. O que terá implícito, acrescentamos agora, o apagamento final do eu mental individual na substância divina. Parece assim que, com estas explicações, Espinosa estará mais perto do budismo do que da mundividência cristã institucionalizada.

4 - O próprio Jesus, que foi posto por Paulo no centro do cristianismo (ver texto 40), quando ensina por exemplo que “quem perder a vida, ganhá-la-á”, para que lado está a pender? Para a tradição cultural ocidental, que o segue como exemplo, ou para a tradição oriental?
Nos seus inolvidáveis Caracteres ou retratos, em que, com fina observação e aprofundada reflexão, fixa o que em assuntos de moralidade há de pior e de melhor na Humanidade, Jean de La Bruyère (1645-96) desenha o retrato do homem bom: “É bom quem faz bem aos outros. Mas, se sofre em virtude do bem que faz, é muito bom. E se sofre daqueles a quem faz bem, ele tem uma tão grande bondade que não poderá ser aumentada a não ser no caso em que tais sofrimentos aumentarem. Finalmente, se morrer de tudo isso, sua virtude não poderia ir mais longe: ela é heróica, ela é perfeita”.
Será este o caso de Jesus? Quando La Bruyère lançou os traços deste retrato, teria, além de outros (muito poucos) exemplos, o caso especial do Nazareno? Embora laico, ou pelo menos leigo, sabemos que La Bruyère participou em encontros culturais sobre a Bíblia, promovidos por Bossuet. E então, àquela última pergunta, nós podemos responder admitindo como provável que, ao desenhar o tipo de “homem bom”, o retrato terá tido em fundo, na mente do observador, a figura de Jesus.
Amor e compaixão são semelhantes. E já vimos como, na cultura oriental, a compaixão é o melhor caminho para apagar o eu mental e a individualidade, assim se entrando na unidade do Uno e do Real (texto 138). Quem ama ou tem compaixão em relação a alguém … perde-se nesse alguém. Perde-se, isto é, uma nova vida, vida conjunta, nascerá e será ganha.

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