3 - Menino judeu nascido de uma família
judaica alentejana emigrada para Amesterdão, Bento Espinosa criou um sistema de
pensamento muito singular.
Para ele, em sentido estrito, por
ser causa de si própria, só há no Universo uma verdadeira substância, que é a
substância divina. Mas, como esta se constitui de pensamento mas também de
extensão, conclui-se que, afinal … também a Natureza é Deus! Ela, a Natureza - da
qual todos os outros seres fazem parte, como nós, todos seres essencialmente
extensos e corpóreos -, ela é o lado extenso e material de Deus. Tudo o que
existe … existe em Deus.
Assim, já está a ver-se como, dentro
deste sistema de pensamento, era difícil para o autor explicar a
individualidade dos seres criados do mundo, extensos e materiais. Mas, ainda
assim, explicava! Dizia que todos eles (sobretudo os animais) se esforçam por
afirmar e manter a sua individualidade, fugindo dos perigos e sempre defendo a
sua vida até poderem. E que, no nosso caso humano, não só se tenta a individualidade
física, mas também a mental, pela afirmação individual do eu de cada um.
Explicava, mas insistia no cerne da
sua doutrina. Vistas as coisas de uma forma profunda e como que fora do tempo,
tudo o que existe no mundo, no Universo, existe em Deus, e assim deverá
permanecer. O que terá implícito, acrescentamos agora, o apagamento final do eu
mental individual na substância divina. Parece assim que, com estas
explicações, Espinosa estará mais perto do budismo do que da mundividência
cristã institucionalizada.
4 - O próprio Jesus, que foi posto
por Paulo no centro do cristianismo (ver texto 40), quando ensina por exemplo
que “quem perder a vida, ganhá-la-á”, para que lado está a pender? Para a
tradição cultural ocidental, que o segue como exemplo, ou para a tradição
oriental?
Nos seus inolvidáveis Caracteres ou retratos, em que, com fina
observação e aprofundada reflexão, fixa o que em assuntos de moralidade há de
pior e de melhor na Humanidade, Jean de La Bruyère (1645-96) desenha o retrato do homem bom:
“É bom quem faz bem aos outros. Mas, se sofre em virtude do bem que faz, é
muito bom. E se sofre daqueles a quem faz bem, ele tem uma tão grande bondade
que não poderá ser aumentada a não ser no caso em que tais sofrimentos
aumentarem. Finalmente, se morrer de tudo isso, sua virtude não poderia ir mais
longe: ela é heróica, ela é perfeita”.
Será este o caso de Jesus? Quando La Bruyère lançou os traços
deste retrato, teria, além de outros (muito poucos) exemplos, o caso especial
do Nazareno? Embora laico, ou pelo menos leigo, sabemos que La Bruyère participou em
encontros culturais sobre a Bíblia, promovidos por Bossuet. E então, àquela
última pergunta, nós podemos responder admitindo como provável que, ao desenhar
o tipo de “homem bom”, o retrato terá tido em fundo, na mente do observador, a
figura de Jesus.
Amor e compaixão são semelhantes. E
já vimos como, na cultura oriental, a compaixão é o melhor caminho para apagar
o eu mental e a individualidade, assim se entrando na unidade do Uno e do Real
(texto 138). Quem ama ou tem compaixão em relação a alguém … perde-se nesse
alguém. Perde-se, isto é, uma nova vida, vida conjunta, nascerá e será ganha.
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