domingo, 28 de setembro de 2014

233.VIII - A Propósito de "O Zelota"

VIII - A Sabedoria de Jesus
1 – Olá! Há dois caminhos bem diversos, cada qual com resultados bem distintos, para se falar da sabedoria de Jesus. Primeiro - Se aceitarmos que Jesus é o Cristo, por um motivo de fé, então a sua sabedoria tem o toque da excelência de um génio porque, além de ser simplesmente humana, ela tem também uma fonte divina. Segundo - Mas, se entendermos que ele se fica só pela linear natureza humana de que todos somos feitos – uma simples figura histórica que até só podemos conhecer pelo contexto em que viveu, como pensa Aslan – então a sua sabedoria, em qualidade, é semelhante à de qualquer outro messias humano do seu tempo.
Começando nós pela segunda hipótese e incidindo a atenção em Aslan, pode dizer-se que o relato que produz sobre este assunto é quase arrasador. Provavelmente, diz ele, Jesus era um judeu sem instrução e até analfabeto (p.72): talvez não soubesse ler nem escrever e só falasse aramaico, embora tivesse alguns rudimentos de grego. Aqueles dois episódios de Jesus “sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas” (Lc 2,46) e ainda na (inexistente!) sinagoga de Nazaré, aí “entrando em dia de sábado e levantando-se para ler” (Lc 4,16), são simplesmente fábulas.
Na adolescência e primeira juventude, Jesus terá sido uma espécie de (ajudante de) pedreiro na construção da depois próspera cidade de Séforis, não muito distante de Nazaré. Vemo-lo depois na companhia de João Baptista, que terá sido seu amigo e mentor. Provindo de uma culta família sacerdotal, João trocou essa sua condição por uma vida ascética no deserto, e foi aqui e então que Jesus passou muito tempo, aprendendo com ele. Não sabemos exactamente qual era a cultura de João e o que terá ensinado a Jesus. Mas com certeza que, tendo sido oriundo de uma família sacerdotal, ele conheceria muito bem as Escrituras e, assim, nelas terá introduzido Jesus, não sem que para isso mesmo lhe ensinasse a ler e a escrever.
É claro que aquilo que os evangelhos da infância (e não só) de Jesus pretendem - por força da fé dos evangelistas e depois também da dos seus destinatários - é impor à figura de Jesus um toque de excepcionalidade, mesmo até ao divino: a sua infância não fora igual à das outras crianças, porque ele era, desde o seu nascimento e até antes dele, o Filho do Homem, o Filho de Deus.
Mas Aslan não cede: não fugindo de uma rigorosa visão só histórica e terrena, ele estuda os locais e o contexto histórico em que Jesus vivera, concluindo depois que Jesus fora um simples agitador social e religioso com repercussões políticas, como outros judeus do seu tempo.

2 - Quem tem páginas sublimes sobre a excelência do eu psicológico de Jesus, assim denunciando a rara cultura desse mestre, é Augusto Cury, quando, na sua obra A Fascinante Construção do Eu, escreve sobre o gesto singular do Lava-Pés (Jo 13 ; ver texto 189).   
Se perguntarmos em qual dos dois caminhos acima referidos se encontrará este psicólogo e psiquiatra brasileiro, teremos de dizer que não propriamente em nenhum, mas entre os dois, ou simultaneamente nos dois. Porque, embora diga que não quer entrar em assuntos de fé e de religião, ele acede ao episódio através do evangelho de João, que é uma fonte de fé e o menos histórico e mais tardio dos evangelhos.
Na véspera ou vésperas da sua morte, tendo notado que, tardos de entendimento como eram, os apóstolos ainda não tinham entendido a profundidade do mandamento que lhes queria deixar – as palavras ensinam sempre muito menos do que os gestos – pediu uma toalha e uma bacia com água, mandou-os sentar em fila num banco e, de joelhos no chão, lavou-lhes os pés.
Este gesto específico atribuído a Jesus não deve ter sido histórico, mas simplesmente inventado pelas primeiras comunidades judaico-cristãs, que até já tinham na tradição gestos semelhantes. Mas tal gesto insere-se naquilo que, de essencial, o Jesus histórico queria deixar aos discípulos, e que era eles ficarem e estarem sempre ao serviço dos outros. E agora, sim. Agora, a outorga deste mandamento por parte de Jesus deve ter sido mesmo histórica, porque, ao contrário do episódio do Lava-Pés, que só vem em João, ela consta também dos três evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas).
E tal historicidade pode ser ainda mais vincada se considerarmos que, para Tiago, irmão de Jesus e primeiro chefe da igreja de Jerusalém e das demais igrejas cristãs já existentes, o que de mais importante devia ser feito pelos cristãos era precisamente eles estarem ao serviço e servissem mesmo os outros, começando pelos mais pobres e doentes. Parece não haver dúvidas, portanto, de que Jesus tenha pregado e praticado o serviço aos outros.

3 – No seu largo e profundo trabalho de desmitificação do Jesus dos evangelhos – embora talvez nele ainda tendo deixado alguns dos seus próprios mitos como já vimos no texto anterior, mas mesmo assim seguindo o primeiro referido caminho que é o caminho da fé -, Bultmann, reflectindo sobre quais de entre as muitas palavras dos evangelhos atribuídas a Jesus possam ser autênticas, não tem dúvidas em seleccionar como tais as palavras de Mt5,38-48, com as quais Jesus propõe a rejeição da retaliação e o amor aos inimigos (ver texto 184).
Nunca ninguém até então, que se saiba, tinha proposto tal doutrina. Palavras espantosas e radicais, com certeza, e que, se algum dia e sobretudo hoje nesta barbárie vigorassem, seriam os fundamentos de uma fraternidade universal. Não é fácil entender que tais palavras possam ter nascido de uma indiferenciada comunidade, mas tão só de uma personalidade forte, e também de um “manso e humilde coração”, que nelas se arrisque a si própria e comprometa.
Aqui levanta-se, porém, de entre as páginas de O Zelota, a voz do seu autor a clamar que é um “fantasioso disparate” atribuirem-se a Jesus a rejeição da retaliação e o amor aos inimigos, já que esta doutrina e sobretudo a sua prática, nunca vigoraram nas relações entre o povo judaico e as outras nações, por natureza inimigas, pois não faziam parte do Reino de Deus.
Clama, mas com certeza sem razão! Porque, não sendo Jesus um universalista – ele veio só para a Casa de Israel – ele está a pensar, não num relacionamento entre nações ou povos, mas nas relações dos judeus entre si, dentro do seu reino. É evidente que cada um dos judeus, dentro da sua pátria, não seria anjo nenhum – anjo bom, evidentemente – para os outros. Bem sabemos como é a natureza humana, mesmo entre irmãos de sangue ou de raça.

Pregou e praticou Jesus o serviço aos outros, ou seja, o amor, e o mesmo fez Tiago por sua própria convicção e também por incumbência do irmão Jesus. Eles quereriam completar a lei judaica; eles não quereriam fundar uma nova religião. 

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