sábado, 26 de julho de 2014

227 - A Grande Mãe


         1 - Olá, amigas e amigos! Lembram-se daquilo que, depois de um longo e persistente treino para atingir a iluminação budista, um candidato não foi capaz de calar, possuído de tanto júbilo, quando atingiu essa mesma iluminação? Ele disse: “A Mãe está presente em todas as casas. Preciso de dar a notícia como quando um vaso de barro cai ao chão e se parte” (texto 213).
         Na generalidade dos povos, sobretudo nos mais antigos, existiu a ideia arquetípica da Grande Mãe. Objectivada simplesmente na Natureza, ou, mais elaboradamente, encarnada numa deusa, a Grande Mãe era a origem do mundo e da vida, incluindo a dos seres humanos, para os quais, durante a sua atribulada existência, era também a sua permanente protectora.
         Entre as sociedades antigas que prestavam culto à Grande Mãe, figura a do reino da Babilónia, na Mesopotâmia. Segundo Erich Fromm (O Dogma de Cristo), “o mito babilónico da criação começa com a existência de uma deusa-mãe que governa o Universo. Seu domínio, porém, é ameaçado pelos seus filhos, que planeiam rebelar-se e derrubá-la”. Para chefiar essa revolta, eles escolhem um de entre eles, “que possa igualá-la em força (…), mas, antes da escolha definitiva, exigem que se submeta a uma prova”. E a prova consistia em que, tendo-lhe eles apresentado um pano, ele o devia, «só com o poder da sua boca», fazer desaparecer com uma palavra, e com outra fazê-lo reaparecer. E como tal prova fosse superada com êxito, ele, assumindo a liderança, derrota a deusa-mãe e cria com palavras o céu e a terra.
         Isto quer dizer que o deus masculino tem a superior qualidade de poder criar, mas fá-lo, não com o ventre mas com a palavra. Assim, “a produtividade natural é substituída pela mágica do pensamento e dos processos verbais”.

         2 - Ao longo da sua história, os judeus tiveram vários contactos com o reino e a cultura referidos, sobretudo a partir de 586ac, quando o rei Nabucodonosor tomou Jerusalém e depois os forçou ao longo cativeiro da Babilónia.
         Não se pense porém que, mesmo assim, os judeus tenham perfilhado o culto à Grande Mãe à semelhança do povo babilónico, muito embora, em época tardia da sua história, eles tenham atribuído também características femininas ao seu Deus.
         Ainda segundo Erich Fromm, o que acontece é que “o mito da criação bíblico começa onde o mito babilónico termina. Quase todos os traços da supremacia da deusa já estão eliminados. A criação começa com a mágica de Deus, a mágica da criação pela palavra. Repete-se o tema da criação masculina, e, contrariamente à realidade, o homem não nasce da mulher, mas a mulher é que é feita do homem. O mito bíblico é uma ode ao triunfo do homem, negando que as mulheres façam nascer os homens, assim invertendo as relações naturais”.

         3 - Em duas das principais expressões do cristianismo (a católica e a ortodoxa), unem-se, em Maria e Jesus, os primordiais elementos feminino e masculino. Embora não sendo propriamente divina, Maria, pela extremosa devoção que o povo lhe tem, é por ele considerada a Grande Mãe. Por seu lado, Jesus é o novo e divino Adão, no qual se operou uma nova e espiritual criação. Ela, pelo poder divino, gerou Jesus no seu ventre, mas ele é que a gerou espiritualmente, começando por isentá-la da mancha original. Ela é a mãe sempre solícita a acolher e a proteger os crentes, mas nele é que se radica a salvação. Ela é, com certeza, a Grande Mãe dos crentes, mas, entre ela e o seu filho, o poder é bem desigual, pelo menos no que toca a aspectos doutrinários. Mas isso não admira, pois, não foi só masculino o poder no judaísmo, e não continua a sê-lo nas referidas confissões cristãs?

         Mas, no caso do Cristianismo, Maria e Jesus também serão mitos? É claro que os dois são figuras reais, duas amorosas figuras históricas. Mas aquilo que pela fé os crentes lhes atribuem de salvífico, para os não crentes é mito.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

226 - Meditação

Meditar é estar presente
a mim próprio no meu corpo,
vivo espelho que me põe
frente a frente a sós comigo

Quando falo com um amigo
ou amiga, tanto faz,
se estou falando com eles,
também me vejo a falar-lhes

Quando tomo banho ou como,
ou passeio pelos campos
vejo-me em banho ou comendo
ou p’los campos passeando

Presente no respirar
a chorar ou também rindo,
só não posso estar presente
no tempo em que estou dormindo

Quando ouço o vento a passar
ou contemplo um pôr-do-sol
vejo-me bem a senti-los
como uma parte de mim

E se bem nós repararmos
se a viver estamos no tempo,
nós não estamos no presente
que ‘inda é tempo, mas no agora,
um presente que é eterno

Dedicatória: Para a Paula Duarte e mais um grupinho de senhoras.


sábado, 12 de julho de 2014

225.3-4 - O Povo Eleito de Deus

3 - Também Kant desvaloriza por completo o argumento ontológico para provar a existência de Deus, se bem que ele acredite profundamente em Deus, mas por outras razões e vias. Diz então ele em primeiro lugar que, para todos os seres existentes “a existência não é um predicado”. Por isso, quando no referido argumento dizemos que “Deus existe”, não adicionamos qualquer informação a Deus, ao contrário do que sucede quando dizemos que “Deus é sábio”. Para Kant, “a existência não é uma propriedade de Deus; é, isso sim, aquilo que é necessário para que Deus tenha todas as propriedades que pensamos que tem”. Devemos estas informações sobre Kant a Dan O`Brien, (1), que por sinal diverge um tanto delas, falando de casos que se podem encontrar por exemplo em filmes: “No final de Serpico, quando vemos a ficha técnica do filme, ficamos a saber mais acerca da personagem Frank: somos informados que a história se baseia em factos reais, e que este polícia (Frank) existe mesmo. Assim, é plausível que a existência seja um predicado atribuidor de propriedades” (p. 333).
Mas Kant diz ainda mais, e bem mais decisivo, para inutilizar o argumento em apreço. Diz que, nele, a expressão “Deus existe” não se refere ao Deus mesmo, ao Deus real, mas sim e só ao seu conceito. E então, se a expressão “Deus existe” se refere só ao conceito de Deus, poderá concluir-se que o sentido da expressão “Deus é ou existe” é idêntico ao de “O conceito de Deus é ou existe”.

4 - Subamos agora ao monte sagrado do Sinai, onde, como a Bíblia nos conta, Deus aparece a Moisés para o incumbir da condução do seu povo pelo deserto, desde o Egipto onde estava cativo até à Terra Prometida e, a par com isso, instado por Moisés, revelar o seu nome, até porque o povo lho iria exigir: “Eu sou Aquele que sou”, disse Deus a Moisés. E logo lhe explicita a forma concreta como ele o deverá apresentar ao povo: “Assim dirás aos filhos de Israel: Eu sou enviou-me a vós” (Ex. 3, 13-14). E de facto, depois, o povo adorará na montanha “Ele é”.
Quando a Bíblia diz “Eu sou Aquele que sou”, devemos pensar que se trata de um ser real, do Deus real, ou é o ser humano que está personificando o conceito de Deus, o põe a falar, mas tudo não passando de um produto de imaginação e arte? Ser quiséssemos tratar de forma naturalista e ainda personificada aquela revelação de Deus a Moisés, no deserto do Sinai, então, aquelas palavras “Eu sou Aquele que sou (ou existo) ” teriam sentido idêntico a “Eu sou o conceito de Deus que é ou existe, como conceito”. Mas tal revelação podia continuar assim: “Sou aquela conceptual figura a que os homens atribuem os melhores predicados (a omnipotência, a bondade, a omnisciência …) mas não a existência real porque eu sou só conceito. Quanto à existência real de mim como Deus, tereis de a provar, tereis de justificar essa crença com argumentos empíricos”.
Tem havido quem dissesse e ainda diga que Deus está presente mesmo na vida de cada ser que é uma pessoa descrente, em virtude de ela participar do Ser. Ora, não haverá aqui confusão entre realidades e conceitos? Tal participação não poderá dar-se só a nível conceptual?
Foi então Deus que escolheu o povo judaico como seu povo eleito, ou foi o povo judaico, por intermédio dos seus chefes e profetas, que escolheu para si aquele Deus, para por ele ser eleito e protegido?


Nota: No ponto 3 cita-se Dan O`Brien, Introdução à Teoria do Conhecimento, Gradiva, 2013.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

225.1-2 - O Povo Eleito de Deus

1 – Os judeus foram (e ainda são) um povo de excepção. Se o não fossem, já nem existiriam como povo, tantas e tais foram as vicissitudes que vieram sofrendo ao longo da sua longa história de quatro milénios. Para começar, um território em que viva costuma ser elemento primordial para a constituição e conservação de um povo, de uma nação. Mas não foi esse o caso do povo judaico, pelo menos em grande parte da sua história. Foram, sim, a errância e o deserto que lhe deram rija têmpera para resistir mesmo sem território, e foi a religião que uniu o povo com coesão e sentido. E a errância e o deserto, a par com a religião, deram-lhe a sabedoria.
De facto, foi sempre um povo inteligente, empreendedor, ambicioso, solidário entre si e coeso até ao ponto de não admitir facilmente a miscigenação. Por outro lado, temperado na árida dureza do deserto e aí outras vozes ouvindo, ele andou à procura de uma “terra prometida”, ou também dela fugindo sempre em errância, perseguido e vítima de horrores quase até à extinção. Todos os povos cometem malfeitorias uns contra os outros, e o povo judaico, a praticá-las, não é nenhuma excepção. Não obstante, nunca é possível justificar um genocídio, como aquele que sofreu. Podemos explicá-lo, mas nunca justificá-lo.
Quanto à sua religião, uma religião de Deus único – um só Deus para o seu povo e um só povo para o seu Deus –, ela constituiu de facto uma das grandes forças aglutinadoras do povo, se não a maior, povo único, povo de excepção e excelência, povo eleito de Deus.

2 – Na verdade, desde muito cedo, na sua história, os judeus se consideraram o povo eleito de Deus. Mas foi realmente Deus que o escolheu para ser o seu povo, ou foi o povo judaico, por intermédio dos seus chefes, que escolheu esse Deus para que, por sua vez, Ele o escolhesse como seu povo eleito, de entre todos os povos do mundo? É que são duas coisas bem diversas! Enquanto na primeira temos um Deus e uma eleição reais, na segunda estes dois elementos não serão reais e objectivos, mas simplesmente uma visualização criativa operada por esse povo.
Isto dá-nos ensejo de revisitarmos o argumento ontológico, tão antigo quanto frequentado, a favor da existência de Deus. É também um argumento denominado a priori, isto é, gerado e construído só na nossa cabecinha, sem nada fazer apelo à nossa experiência no (e do) mundo exterior em que vivemos. Pode resumir-se, tal argumento, assim: Eu penso em Deus como um ser necessariamente bom e sábio e poderoso, dotado enfim de todos os bons atributos, todos eles em máximo grau. E se tem assim todos os bons predicados, também tem de ter a existência.

É muito fácil notar a fragilidade deste argumento. Com a minha razão eu posso, eu até devo pensar que, a existir, Deus tem todos os bons predicados em grau sumo, mas, a todos eles, por enquanto, dentro do argumento, eu não posso adicionar-lhe a existência porque esta é objectiva, porque ela está fora e não depende da minha subjectividade, e por isso também fora do argumento. A existência de Deus tem de ser real – ela funda o Ser na realidade – para que reais também possam ser (e não só pensados) todos os (outros) predicados a si atribuídos. Pode pensar-se a existência de Deus, mas não é o pensamento que a torna real, e portanto, se quisermos provar a sua existência, teremos de utilizar outro(s) argumento(s).

sexta-feira, 4 de julho de 2014

224 - Benfazeja mornidão

Saí de lá fora
e entrei cá dentro
no aqui dentro onde vivo
no vestíbulo na sala no quarto
também na oficina onde lavro
estas linhas e mondo

Dizendo de uma forma melhor:
saí de lá fora
e entrei aqui dentro
 onde habito
porque também vivo lá fora

Hoje, como muitas idas tardes
deste desregulado tempo,
hoje, lá fora, há um frio
vento cortante furando
por entre raios de sol
 fustigando os corpos

Ao invés, porém, aqui dentro,
a mornidão é uma carícia
que afaga todo o corpo
desde o rosto aos pés

Porque é que este afago sentimos
só quando fugimos
ao fustigar do corpo
pelo frio elemento,
logo pressentindo a alma
nossa sala das paixões
a mornidão benfazeja
aquela que o corpo sente?



sexta-feira, 27 de junho de 2014

223 - O Último Sermão do Buda


         1 - Olá, amigas e amigos! O texto que ora se apresenta é uma lógica sequência do texto 213, e constitui, para além de algumas já aí apresentadas, a sua derradeira conclusão. 
Nas últimas palavras proferidas antes de morrer - como se se tratasse de um testamento espiritual deixado aos discípulos – o Buda parece ter dito: “ Não confies nas minhas palavras, conta apenas com a tua própria luz” (1).
Sabemos que o Buda não é um intermediário entre a humanidade e os deuses, até porque, segundo ele, estes também andam a braços com a impermanência dos seus mundos. Quando muito, ele será exemplo, será guia e mestre para os outros homens. Mas será mesmo?
Em outras religiões – o cristianismo católico, por exemplo – para que aos fiéis possa acontecer a salvação, são precisos intermediários: uma instituição que integre as pessoas e lhes faculte ensinamentos e a graça divina, esta ministrada através dos sacramentos, os quais operam por si próprios e não por mérito dos fiéis.
Mas no budismo não há nada disso! Primeiro, não há intermediários. E quanto a guias e mestres, começando pelo Buda original, haverá? Aquelas palavras do Buda, desde a primeira à última, podem admitir a existência desses guias e mestres?

2 - Naquelas palavras atribuídas ao Buda, esconde-se um problema mais fundo, o qual é um problema epistemológico ou de conhecimento: é que o discípulo, para conhecer o que há-de fazer não pode confiar nas palavras do mestre, mas tão só na sua própria luz mental. Não é por uma questão de o Buda não querer ser guia e mestre do discípulo! É porque simplesmente não pode, em razão de que ao discípulo só a sua própria luz poderá guiar. Temos assim que o discípulo só poderá ser discípulo de si próprio, e por isso também mestre de si mesmo.
Ora, como o Buda era um mestre espiritual, não é verosímil e por isso é de excluir, logo à partida, que ele intentasse com aquelas palavras – se forem de facto autênticas - dar um conselho ou mesmo um preceito aos seus seguidores, mas sobre assuntos do dia-a-dia e sem nada terem a ver com a espiritualidade deles. A menos que, se fosse esse o caso, ele estivesse a fazer o contrário daquilo que pedia ou exigia aos outros: porque pelo menos a língua e as palavras com que transmite este preceito não as aprendeu ele individualmente e só por sua própria luz mental, mas por testemunho no qual confiou.

3 - É que o ser humano não conhece só por sua própria luz, solitariamente, mas também por testemunho dado por outrem. E este - o conhecimento por testemunho – é tão fundamental e fundante para ele quanto o primeiro. O segundo pode ser conhecimento em segunda mão – por ser de testemunho – mas não é conhecimento de segunda ordem ou classe, por comparação com o que cada ser humano consegue individualmente e por si só. Congenitamente, nós não somos seres solitários nem individuais solidões, mas seres solidários e participantes de uma comunidade.
Já isto nos conduz a afirmar que tal conselho, dado pelo mestre, nem sequer terá cabimento ou será aplicável no domínio espiritual. Também aqui se cairia num absoluto solipsismo - solus ipse: cada um, sozinho - que não admitiria nenhum espólio doutrinário a transmitir e a receber, nem haveria razão de ser para qualquer assembleia ou comunidade espiritual e/ou religiosa: não havia nada a dizer uns aos outros, nem qualquer doutrina a seguir.
Assim, o Buda terá deixado um seu conselho e testemunho, cujo teor consiste em ninguém dever atender a qualquer testemunho. Nem eventualmente ao seu, como poderá ter acontecido.

(1) Palavras citadas por Matilal e Chakrabarti, por sua vez citados por Dan O`Brien, em Introdução à Teoria do Conhecimento, Gradiva, p.106.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

222 - Mais que Gostoso o Sublime

O que pode tornar gostoso
este momento em que estamos
é sabermos que mais adiante
- quando é que ‘inda não sabemos –
iremos todos morrer

Mas se em vez desse momento
houver o agora sem tempo,
não venceremos a morte
mas teremos a eternidade
do agora, que é sublime,
(todo o oceano em uma conchinha)
muito mais do que gostoso


Nota: Em muitos lugares deste blog se pressente e se fala do agora intemporal e eterno - em termos espirituais, evidentemente –, que contrasta com o simples momento temporal do presente. Vejam-se os textos em que se fala do vazio e do silêncio e da compreensão global, e em que se refere a superação do eu mental e do tempo: por exemplo os textos 76, 205, e finalmente o 221.3.