terça-feira, 22 de março de 2011

NOTAS SOLTAS

1 - Não é triste e lamentável o nosso Estado ter de financiar-se em condições insuportáveis nos mercados estrangeiros, quando, pelo menos em parte, ele podia financiar-se aqui dentro? E porque é que ele compra lá fora o dinheiro a sete e oito por cento – que depois todos nós temos de pagar – e aqui dentro só nos dá um ou dois por cento, pelos seus títulos de dívida pública?
2 - Sabemos que o ainda recente terramoto financeiro se deveu a imprudências e falcatruas do mundo financeiro americano, daí alastrando a crise por todo o mundo. E como é que, então, o resto do mundo continua a dobrar a cerviz e a ajoelhar-se perante as agências financeiras americanas, as quais, precisamente horas antes de os bancos e Estados europeus terem de ir aos mercados financiar-se, baixam a nota da dívida pública desses Estados? Não haverá aqui deficiente e tendenciosa informação e oportunismo especulativo? Não será isto o capital andar completamente à solta, sem controlo de nada nem de ninguém, a não ser da descontrolada e criminosa cobiça?
3 – Porque é que a sociedade civil de um e mais Estados não institui “Bancos do Povo” para financiar famílias e pequenas empresas, indo assim fazendo frente e tirando a freguesia aos habituais bancos da finança, e mesmo pondo em causa a omnipotência do mercado de capitais? Não é esta a necessária e urgente revolução?
4 – Pode o capital andar à solta, em vez de ele ser o sangue da economia? Enquanto a política não controlar a finança, poderá haver ordem social no mundo?

sexta-feira, 18 de março de 2011

TEXTO 13.2

II
Subo agora, com energia, a estrada íngreme que dá acesso ao centro da povoação. É uma povoação risonha e relativamente pequena, com acentuados desníveis no terreno onde se implantam as casas, mas tudo num sítio de razoável altitude, o que faz com que de muitos pontos nós possamos ter belos horizontes.
É portanto uma povoação pequena, sem valências para acudir a todas as necessidades da vida. Mas para satisfazer as duas principais necessidades, ela tem! Há dois lugarzinhos onde as pessoas se podem abastecer para alimentar a vida, e há também um outro lugarzinho, aqui no meio da povoação, onde as pessoas podem repousar depois da vida!
Batidas pelo sol da tarde, duas das quatro paredes brancas bastam para iluminar o ambiente. Não é uma luz crua, a ferir os olhos, mas também não é uma mortiça luz. Ela é, sim, a exacta e necessária luz para podermos ver, com a possível objectividade, as coisas. Chamam-lhe cemitério, que quer dizer “lugar onde se repousa”, e ainda bem que assim se chama, pois que, que outro abençoado nome se poderia encontrar para dizer esta realidade?
“Olá, bonequinha, também andas por aqui? Vieste com a mamã, foi”? Fizeste muito bem, mamã, muito bem mesmo em trazer a tua menina que não tem mais de dois anitos e se passeia e brinca pelas alas entre as sepulturas. Ela salta agora ao pé de ti, mamã, agarra mesmo a ponta da tua saia, e as duas se preparam para depositar um vaso de frescas flores, na cabeceira da sepultura onde está o corpo daquela que foi a tua mãe e a sua avó. Quem dera que todas as crianças pudessem frequentar estes benditos lugares, porque, com isso, a vida delas ganharia mais densidade e sabor!
Este abençoado espaçozinho, todo recamado de areia dourada e fina e só relevando um tanto o lugar das sepulturas, não é um necrotério, mas sim um cemiteriozinho. Aquele, é um lugar para corpos mortos; aqui é um lugar para corpos dormindo. Entre corpos que dormem, podemos estar bem; entre corpos mortos, com certeza que não!
É certo que há cemitérios cravados de uma multidão tremenda e impetrante e soluçante de lápides e de cruzes, mas aqui não! Aqui, quando muito, há duas ou três lápides, parcamente escritas só com À memória de... ou Saudades dos teus familiares e amigos.
É muito agradável estar por aqui com vagar... ou até trazer um banquinho e sentar-me por largos minutos para descansar e ver...ou mesmo deitar-me em sítio desocupado, puxando manta de areia por causa do frio ou do relento, fazendo companhia aos que dormem e até com eles dormindo, se bem que por enquanto o meu dormir seja diverso, mas um dia igual será, disso não tenho dúvidas!






NOTAS SOLTAS SOBRE O TEMPO

Porque é que o ano judicial abre logo em meados de Março, e não só lá para meados de Agosto ou Setembro, já tombando o ano para o seu termo? Num país onde a justiça não funciona bem, já só por isso, tudo passa a funcionar mal.

Como é que um plano de estabilidade e crescimento pode ser simplesmente um apertar de cintos?







Precipitando-se numa fug

terça-feira, 15 de março de 2011

NOTAS SOLTAS SOBRE O TEMPO QUE FAZ

1- Precipitando-se numa fuga para a frente, um político pode dar como resolvidos, em instâncias alheias e superiores, assuntos que directamente nos dizem respeito, sem ter um mandato nosso para tanto? Isso não é uma afronta contra a ordem democrática?
2- Ouviu-se hoje na rádio uma notícia tão desinteressante como muitas outras a que já estamos habituados. O presidente da comissão para reavaliar a situação e o funcionamento das parcerias público-privadas – comissão instituída pelo governo e exigida pelo principal partido da oposição – demitiu-se. E, supostamente, demitiu-se por falta das informações por si solicitadas e que a administração pública, nessas mesmas empresas, não lhe concedeu. Assemelham-se assim, as cúpulas dessas empresas, a autênticos ninhos de vespas em que é perigoso tocar! E então, não haverá ninguém que consiga furar esses bloqueios, pesem embora umas boas picadelas na ponta do nariz e nas orelhas? Porque é que a transparência só se exige aos pequeninos? Porque é que o poder político não tem mão nos grandes?



segunda-feira, 14 de março de 2011

NOTAS SOLTAS SOBRE O TEMPO QUE FAZ

1- A Sociedade é a mais engenhosa e nobre e capital invenção do género humano. Sem ela, nem simplesmente poderíamos ser humanos. Cada ser humano e sociedade são duas entidades que devem equilibrar-se entre si. Elas são uma para a outra, mas sempre com mútuo respeito por cada uma.
2- A Democracia é o sistema sociopolítico menos imperfeito para o povo de um Estado se auto-governar. Como é que então, agora, um e outros Estados hão-de estar dependentes dos egoísmos do “gado alemão” e de outros “gados”? Como é que havemos de sentir e apreciar o valor do poder democraticamente decisivo do nosso voto?
3- O Dinheiro é o sangue das nações. Como tal, ele é sagrado, só devendo servir para produzir bens para os cidadãos consumirem, e nunca para empanturrar a voracidade dos agiotas. Não se deve negociar com o sangue, e muito menos descer à agiotagem.

sexta-feira, 11 de março de 2011

13.1


I

Olá, meninas e meninos!
Pelos meandros destes caminhos antigos, subo decidido até à capela do Santo Cristo; daí, plano para Poente por ruas direitas até ao Largo de São Tomé; e a seguir, à direita, mergulho na maravilha que é a densa floresta verde.
Há uma brisa mansa no ar, que primeiro faz bulir as ramagens das árvores, e depois afaga suavemente o meu rosto. Está uma manhã muito doce! Mas a doçura da manhã, faz mesmo parte da manhã, ou sou eu que a vejo assim? As coisas são boas ou más em si mesmas, ou elas são simplesmente coisas, e eu é que as faço más ou boas? E aqueles altos ideais de Justiça e de Liberdade e de Paz e ainda outros são mesmo realidades objectivas, ou são eles a simples mas também vigorosa objectivação de subjectivas aspirações da generalidade dos humanos, a concretizar em terrestres realidades?
Por sobre a estrada e as vegetais ramagens laterais, sente-se agora um risco sonoro de aves – talvez de popas, talvez de gaios – a inundar o silêncio da manhã...E de súbito, à esquerda, o lavadouro.
“Bom dia, senhora, logo de manhã a lavar roupa, aqui no lavadouro”! Ela, esfregando bem a roupa na pedra do tanque, depois mergulhando-a na água limpa...”É verdade! Tenho de aproveitar bem o dia, que eles agora dão em ser pequenos”! E de novo ensaboando e esfregando e mergulhando, para a roupa ficar bem limpa...”Mas a senhora, hoje, está aqui sozinha! Não tem companheiras para conversar com elas”! E torcendo também a roupa, para a tornar mais leve e depois a poder arrumar no carrinho...”Às segundas-feiras é que costumamos vir todas. Mas como, esta semana, eu não pude vir com elas”...”Mas agora noto, minha senhora, noto que eu já a vi várias vezes por aí”! A roupa torcida ainda nas mãos, que no ar a surpresa suspende...”Mas onde é que me tem visto? Sim, diga-me lá”! Então, com brando sorriso, vou-lhe dizendo: “Olhe, minha senhora, tenho-a visto no brilho dos olhos e no rosto da sua filha”! E entre outras surpresas e sorrisos, começamos a explicar este gostoso imbróglio, enquanto a água escorre do tanque e aquelas peçazinhas já lavadas são arrumadas no carrinho. “Olhe, minha senhora, e agora quero aqui desvendar-lhe um segredo que ninguém mais vai saber! O seu marido e a senhora, quando decidiram pôr-se a fabricar na sua barriguinha aquela que viria a ser a sua filha, devem ter lavado os dois as mãos muito bem lavadinhas e ter-se benzido e persignado por várias vezes”!... Uma névoa de emoção lhe perpassa pelo rosto, uns olhos turvos de água se afundam na roupa, e outra água limpa corre para o tanque, outras palavras breves e sempre muito amáveis são trocadas...até que o encontro termina com uma amistosa despedida.

sexta-feira, 4 de março de 2011

TEXTO 12

Olá!
Aquela menina pequenina e recente, a qual na Quinta Verde desencalha as escalas de serviço do pessoal, anda aqui, neste final de pequeno-almoço, a ajudar as utentes a sair da sala. Pelas avenidas entre as mesas da sala, como também nas mais largas e longas avenidas dos corredores, várias utentes viajam no seu carrinho de marca Andarilho Adagio, mas viajam tão lentamente que até o próprio caracol as poderia ultrapassar. Se aqui dentro houvesse, como às vezes há na rua, autoridade a impor velocidades mais altas, todas estas viajantes ficariam em terra e deixariam de poder viajar.
Uma engenhosa velhinha destas conseguiu fazer suspender, da barra do seu carrinho, um porta-luvas de papelão onde transporta alguns dos seus mais urgentes pertences. Vai daí que, precisamente hoje, esta menina velhinha enfiou no seu porta-luvas a chávena do seu pequeno-almoço, contravenção que a tal menina recente pôde constatar. E constatando, logo mandou parar a viajante, e sobre o assunto a interpelou: “Ó Dona Assim e Assim, então para onde leva esta caneca”? Ó minha-menina-velhinha- que-vais-a-andar-tão-devagarinho, mas então, para que queres tu a “caneca”? Para a levares para o quarto? Mas para quê? Será para ires de lá bebendo e sempre a enchendo durante a noite de alguma espirituosa bebida, e toda a noite ires cantando “ora zumba na caneca,/ ora na caneca zumba, / o diabo da caneca / toda a noite catrapumba”?!...
Caminho agora por esta silenciosa rua da vila. Brilhante e fresca está a manhã, nestes tempos frios em que festejamos outro início do remontar do sol no firmamento. E de súbito, na berma da estrada, um pequeno montinho de pedrinhas muito brancas. Se me não fossem tão branquinhas as pedrinhas, ali na berma da estrada, eu passava à frente e elas eram-me indiferentes. Mas se uma pedrinha de qualquer cor que fosse me entrasse no sapato, então eu não lhe podia ser indiferente! Teria de parar, tirar e sacudir o sapato, e de novo calçá-lo.
Quando dizemos que algo é bom ou mau para nós, é porque a isso nós não somos indiferentes. Então, algo é bom ou mau em si mesmo, ou somos nós que o fazemos bom ou mau? E se não tivéssemos a liberdade de escolher, ou simplesmente a capacidade mental de ver e escolher e decidir, haveria coisas boas e más? Haveria o mal e o bem? Para aquela vaquinha que além pasta deliciada no prado, também haverá coisas boas e más? Que diferenças haverá entre o caso dela e o nosso, se acaso elas existem? E existindo, as diferenças medir-se-ão só em termos de quantidade ou também de qualidade?
E aqui paro agora, de fronte a um muro alto, voltado para o sol. Que bom para o muro – se o muro pudesse ser como eu – que bom estar assim, neste balbuciante Inverno, voltado para o sol e com tão belo panorama em frente! É claro que, se ele fosse como eu, com este sol de Inverno, teria de pôr também um chapéu na cabeça!
Ali, no meio do muro, à altura de um homem, está um pequeníssimo menino metido em sua redonda casinha e colado ao cimento. Que delicioso será para ele, assim dormindo um sono longo, receber o benfazejo calor através da sua concha! E não obstante, eu cometo o verdadeiro sacrilégio de o desencravar do muro, para o transportar na concha da minha mão.
Pelo caminho, eu vou vendo se ele põe cá para fora a cabeça e os cornitos, a fim de tactear o mundo e ver onde está. Mas, nada! Durante todo o caminho de regresso, nada saiu lá de dentro. E mais: tudo permanece dentro da casinha, sempre protegido por uma película que o continua a isolar totalmente do mundo! De onde deduzo que, para não acordar assim, com muita probabilidade se tratará de um menino já muito velho e doente...
“Menina enfermeira, trago ali um menino, que deixei na quinta, mas que precisa de ser aqui recolhido no lar. Deve ser muito velhinho e doente”! “Pois é”, diz ela, “mas nós agora só temos lugar para uma menina”! Oh, minha Nossa..., mas então como é que eu agora vou averiguar se ele é menina ou menino? Despontarão os cornitos, de entre um rosto rosado e macio e um cabelo em caracóis, ou de entre um carão de barba rija e umas melenas ao vento? Terá ele uma vozita de flauta ou de flautim emplumada em risadinhas, ou exibirá vozeirão de trombone ou trovão? Dono será ele de umas maminhas levantadas e redondinhas, e o resto do tronco em concha para acolher sementinhas e elas aí germinarem e crescerem, ou será antes, e ao contrário, quem lá pode depositar tais sementes? Haverá, lá dentro, sapato alto para valor acrescentar, ou só sapato raso para não andar descalço?
Mas a insistente enfermeirazinha não se fica só por aquela exigência! “Além disso”, acrescenta ela, “terá de ser apresentado relatório médico, onde constem a idade e as suas principais maleitas”. Oh, minha Nossa Senhora! Por esta é que eu não esperava!... Mas como para grandes males, muitas vezes remédio há, talvez também aqui isso aconteça... Há na quinta, de onde o lar tira o seu nome, restos de poda recente de dois belos aloendros. E assim, num raminho de algumas folhas e rematado por uma flor, eu encontro uma parte da solução, e a outra já vem a caminho! “Menina enfermeira, está aqui o relatório que exigiu, lavrado neste papel que é de sua usança. O menino tem um primo médico e foi este que o lavrou. Está cá tudo o que é preciso. Tem é de ser lido com óculos de muito aumento e até talvez à lupa, porque a letra é muito miudinha!... “
Agora, só resta ir outra vez à quinta, para ver se o menino continua no sítio onde foi posto, e se já está a comer ou ainda continua a dormir. Mas, simplesmente, ele não está! E sondo com cuidado o espaço, num raio cada vez maior, mas não o encontro! Afinal, o caracol não anda assim tão devagar! Como quem aqui viaja em Andarilho Adagio, também não anda assim tão lentamente!
E agora, meninas e meninos, só deixo duas perguntas no ar. Quem disse que não pode haver ternura, ao falarmos da vida? Não estará certo, portanto, aquilo do subtítulo dado a este blog, que nos aponta para o fascínio pela vida, pela vida breve que nos possui, neste planeta azul?