5 - Adiantemos agora algumas palavras
tímidas sobre as leis da natureza, sobre
a necessidade e sobre o acaso, que tudo isto parece estar presente no
universo para seu governo ou desgoverno. Tímidas palavras, com efeito, pois que
nada ou muito pouco sabemos sobre estas matérias.
Em vários
passos da sua obra, Hans Kung releva a existência de ordem no universo, a
constância de leis nele existente, sem as quais ele não poderia subsistir nem
acontecer a evolução. Falemos então, por exemplo, da inflexível lei da
gravidade, uma das grandes leis que parecem reger o nosso(?) macro universo,
falemos e façamos perguntas. Será que, a respeito desta pedrinha que seguro no
ar entre os meus dedos, eu posso garantir em termos absolutos que, se a
abandonar, ela cairá em terra? Será que a garantia da lei é anterior e mais
soberana que os factos a essa lei respeitantes? A lei não foi concebida pelo
homem para interpretar os factos? Quer dizer, ao desprender dos meus dedos a
pedrinha, eu só posso garantir que, com toda a probabilidade, atendendo a casos
anteriores e em circunstâncias habituais, ela cairá! Os factos é que são sempre
soberanos, e não a sua interpretação. O ser humano bem os quer interpretar, mas
eles também bem lhe poderão fugir!
Mas as coisas
tornam-se ainda mais giras quando, com a física quântica e com a biologia
molecular, entramos no reino das coisinhas pequeninas do nosso(?) micro
universo! Porque aí impera mesmo o acaso, ou, se quisermos, a necessidade do
acaso. Aí, as leis da natureza – leis que nós continuamos a fazer, mas não para
imperar mas tão só interpretar – são as leis da necessidade do acaso!
Postas então
estas e muitas outras coisas sobre a constância das leis que regem o nosso(?)
macro e micro universo, Kung entende que, em vez de cairmos no “sem sentido”,
na solidão e no desespero, é bom cairmos na razoabilidade confiante da
existência de um Deus. Também acho que sim, meu caro Hans, acho que é mesmo
muito bom! Mas vivermos esta nossa vida terrena – embora mortal mas ainda assim
podendo ser uma delícia -, vivermos solidários com tudo o que nasce e morre
para de novo nascer neste universo sem fim, pode não ser assim tão mau, tão
desesperante e solitário. E será que, para viver e morrer bem, é necessário “dominarmos”
o imenso universo, cingirmo-lo com o cincho dos nossos insignificantes saberes,
dos nossos minúsculos sentidos? Por que buscamos tão afanosamente esses
inexperienciáveis sentidos: por necessidade intelectual, ou por carência de
conforto e por apelo do coração? São esses sentidos implicando realidades não
experienciáveis, mais pedidos pela razão, ou mais pela necessidade de afectos?
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