terça-feira, 24 de abril de 2012

62.3 - Sobre se Será Possível Conhecermos Deus


3 - Será que nós podemos conhecer Deus, ou ele é um objecto de conhecimento que ultrapassa as nossas capacidades de conhecer?
A este propósito, Hans Kung cita abundantemente o filósofo alemão Kant (séc. 18), seu compatriota, por cujo pensamento tem uma grande afeição. Cita-o, mas também o comenta. Por isso, o que segue são só citações e comentários: citações de Kant e comentários de Kung (p. 64).
Por trás da crítica de Immanuel Kant às provas da existência de Deus, não se esconde, como muitas vezes se julga, uma resignação quanto ao papel da razão. Ela baseia-se, pelo contrário, na convicção ético-religiosa extrema de que devem ser estabelecidos limites à razão (…). No prefácio à segunda edição da Crítica da Razão Pura (…) Kant escreve: “Tive por conseguinte de superar o saber, para obter um lugar para a ”. Porque a fé para o crítico Kant, assim como para Rousseau, que ele tinha em alta consideração, era uma verdade do coração, ou melhor, da consciência, para além de todas as reflexões e demonstrações filosóficas: “A fé num Deus e num outro mundo está tão entrelaçada com o meu carácter moral, que, se corro pouco perigo de perder este último, tão-pouco receio que a primeira me possa ser alguma vez arrancada”, assim testemunha o próprio Kant no final da sua Crítica da Razão Pura. Mas, na opinião de Kant, cientificamente as provas da existência de Deus não são possíveis. (…) Também a pergunta pelo começo do mundo no tempo não é possível de resolver, segundo Kant. Porque não? “Todas as nossas conclusões que pretendem levar-nos para além do campo da experiência possível” são “ilusórias e infundamentadas” (p. 65). Kant está convencido de que a razão estende em vão as suas asas para, através do poder do pensamento sobre o mundo dos fenómenos, alcançar as “coisas em si” (algo que é necessário ao pensamento, mas não é transparente!) ou até para encontrar a Deus. (…). Mas (…), tal como faz com as provas em favor da existência de Deus, também Kant recusa as provas contra Deus. Porquê? Porque também elas estão para além do horizonte da experiência. (…) Kant está convencido de que a ideia de Deus é um conceito-limite teoricamente necessário que, tal como uma estrela remota, não é alcançável por um processo cognitivo, mas que poderá ser, ainda assim, visada como objectivo ideal (p. 66).
Deixámo-los falar os dois, e agora é a nossa vez de lhes formularmos perguntas: Se Kant não quer avançar mais com o labor da razão para que a fé não perca nele o seu lugar, isso não é, pelo menos, constranger o funcionamento da razão? Mas de onde e como pode nascer em nós a referida ideia de Deus ou conceito-limite que aparece na consciência, se ela não pode nascer da razão, por Deus ser incognoscível? Só poderá nascer do desejo e do coração! Mas podem as ideias ou conceitos nascer no/do desejo e no/do coração, ou são estes que rejeitam ou agarram as ideias ou conceitos que a razão elabora e a seguir lhes serve? Elaborará a razão o conceito de Deus, a partir da experiência do desejo e do coração? Mas depois, o desejo e o coração vão contentar-se com as ideias ou conceitos, ou querem obter mesmo as correspondentes realidades? Sim, porque ter a ideia de Deus ou esse conceito-limite não é o mesmo que ter a realidade significada, não é verdade? E porque é que esse conceito-limite é de todo necessário para alcançarmos os nossos conhecimentos das realidades deste mundo? Não será só para salvar “as coisas em si” da metafísica? Não formulamos os conceitos só a partir da nossa experiência? E essas realidades experimentadas não são só aquilo que delas nos vai aparecendo, começando pelas suas qualidades primárias, ou são algo mais?
Quer dizer, só se chegará a Deus, pelo salto ou mergulho da fé; e a realidade “Deus” será sempre e só, para os crentes, uma realidade acreditada, embora tenha de haver fundamento racional para essa crença. Fundamento racional, isto é, tudo à maneira de a função racional não ser constrangida e não resultar diminuída nesse processo, mas antes nobilitada, como no texto (14.1) se descreve.

1 comentário:

  1. Srº João Reis, tive o prazer de o conhecer hoje 26-005-2012 e é com todo o prazer que vou passar a seguir o seu blog, pois pelo pouco que li não deixei de ficar deslunbrado e teno a certeza que tenho muito a aprender com as S publicação. Abraço Sérgio Grilo.

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