domingo, 19 de agosto de 2012

85 - As Últimas Tribulações em Marte


O pai da pátria está roído de saudades do seu país, mas ainda mais do seu planeta azul, onde está a sua nação. Ainda não passaram quatro dias inteiros – dos nossos, evidentemente -, e já está de rastos! Pois que, mesmo vivendo no deserto africano no meio de tuaregues guerrilheiros, ele se sentiria melhor do que neste inóspito planeta Marte. Mas a sua companheira e a criança ainda estão pior!
A ele, na verdade, e em primeiro lugar, já lhe está a fazer alguma falta o mando, já sente saudades da cadeira do poder. Por sua vez, à criança falta-lhe quase tudo, e até chora muitas vezes. Sente muitas saudades do seu gato, das bonecas e, mais que tudo, das suas queridas amiguinhas, por quem chama muito alto. Quanto à companheira, chorando mesmo às vezes sobre o ombro do companheiro, fazem-lhe muita falta as flores do seu jardim, ir ao cabeleireiro, variar de vestidos e adereços e estar com as amigas. Também se lembra de uma boa passeata pelas ruas da cidade a ver as montras e de ir a uma casa de perfumes para comprar e pôr aquele que mais fascina o companheiro.
Mas a ele, habituado a uma vida intensa e variada, falta-lhe, além do mando e do poder, ainda muita coisa. São os pratos favoritos comidos em casa com a família, uns saborosos petiscos comidos furtivamente numa tasca com os amigos, as tertúlias culturais, as reuniões com os seus colaboradores para tratarem de assuntos oficiais, as lustrosas e mundanas visitas de estado feitas a muitos países do mundo.
E com tanta falta, o pai da pátria dá em pensar que, lá na Terra, lá é que é bom viver! Por isso é que – pensa ainda – os países não se podem infernizar uns aos outros, mas sim colaborarem todos para defender e promover a vida, uma vida quanto possível boa para todos os cidadãos do planeta. Pois, que sentido tem procurarmos a vida noutros planetas se não a promovemos no nosso e, pelo contrário, até a matamos? Assim, ele vê com nitidez que é necessária uma economia global sustentável para o planeta e também uma economia que não dê lugar à especulação com o sangue das nações. Também vê ser necessário e urgente um entendimento intercultural tão vasto quantas as principais culturas do globo. Porque, com tantos desentendimentos e desigualdades existentes, se espatifarmos a vida do planeta onde ela tem tão boas condições para existir e se desenvolver, que autoridade temos nós para levar essa semente para outros planetas, se ela vai morrer na Terra?
Assim é, de facto, meu caro presidente! E quando todos os povos da Terra tiverem condições para viver e apreciar devidamente a vida e forem solidários, então, a nossa ida para os espaços será muito mais concertada e terá um bom significado e sentido: da superabundância de vida boa que a todos possuirá aqui na Terra, levá-la-emos a outros mundos onde possa desenvolver-se. Então, se assim acontecer, a vida toda de muitos mundos entoará um estrondoso e magnífico hino de louvor à própria vida – um estrondo tão magnífico como aquele que deu início ao Universo - a qual vida estará especialmente presente em cada um dos seres conscientes desses mundos todos, como já somos nós aqui na Terra.
Não se esqueça então de comunicar rapidamente com os seus cientistas de serviço, no sentido de vos mandar buscar quanto antes para o nosso querido planeta e, já agora, também para a Casa Branca. No resto deste mandato e no próximo (?), com a colaboração de altos responsáveis de outras nações, todos tendes aqui muito que fazer.

Sem comentários:

Enviar um comentário