1 - Olá, amigos e amigas, amigas e
amigos sobretudo gandareses, para quem especialmente se lavram estes regos de
palavras!
“Faça-se a luz” … Faça-se também a
Gândara e a Gândara foi começada, segundo podia constar do mito antigo do
grande Deus que criou o Universo, mas que deixou por acabar esta terra gandaresa.
Começada pelo Deus Criador mas não terminada, talvez por cansaço – um só dia
sétimo não deve ter chegado para se refazer dessa canseira; talvez por a
Gândara ser só areia e pedra e por isso ser insano terminá-la sozinho; talvez
porque quis um outro deus a colaborar consigo, se possível um deus Canteiro,
artista exímio a trabalhar a pedra das palavras.
Deste modo, e tal como de uma sopa
informe e escaldante se foram configurando nítidos os primeiríssimos elementos
atómicos do grande Universo, nos alvores do tempo, assim se marcam, também
claros, os objectivos princípios do conteúdo narrativo de Canteiro: o senhor
João III, os senhores Marialvas, os servos, os colonos, os Frades Crúzios, os
piolhos, a areia, a pedra … tudo o que enfim irá dar a compósita Gândara.
E depois, tal como há, no terreno,
azinhagas largas para carros de bois ou vacas com a indomável chiadeira do seu
eixo de pau, e há também caminhos já um tanto estreitos só para carros de mão,
e ainda carreiros fininhos cortando as terras a direito tenho pressa de chegar a
pé ao meu destino, assim há também, para entrar e avançar pela narrativa
adentro, três ordens de caminhos: o caminho dos números romanos, o mais largo e
capital, que indica por assim dizer os temas principais ou capítulos em que se
divide a “Tábua da Paróquia”; o caminho de A a Z, número de letras tão redondo
e completo que onde se inicia e onde finda quase também aí podia terminar e
abrir; finalmente o caminho estreito dos números árabes que, em seu
alinhamento, vai contando com os segmentos encimados por letras, como se árabes
elas também fossem. Tudo afinal para urdir uma manta primorosamente tecida,
onde se fixam quadros ou painéis de uma rara beleza.
2 - Revestida de alvinitente cal,
arrancada nas pedreiras e cozida nos fornos da região, a Capella é uma estrela
cintilante, mas muitas outras luzes vão aparecendo a brilhar no céu da
narrativa, do princípio ao fim, pequenas grandes criações a fazer parte de uma
criação maior. Que dizer, por exemplo, de todo aquele ritual da morte de
alguém, em que repentinamente todo o trabalho pára, no campo, até o corpo do
finado descer à sepultura? E que palavras acrescentar àquele quadro da mulher
jovem tomando banho numa bacia de esmalte? E aquela primeira missa do novo
padre com uma pistola negra sobre o altar, um olho nela e nos fregueses, o
outro no missal e na hóstia? E a recomendação que o padre fez às mulheres para,
quando andarem de bicicleta, assentarem um “saco de linhaça dobrado sobre o
guiador, para encobrir as misérias que Deus lhes deu”? E aquele outro padre,
espiado pelos garotos atrás das ervas e oprimido pela ardência do estio, a
tomar banho nu nas águas de um charco? E o “caso do Janota” e da sua
“conversada”? E aquele encontro de uma velhinha em sua casa com o padre, ela a
falar sem parar, ele nada dizendo e nada tendo dito? E o painel-retrato de duas
beatas? E o quadro em que sobressai o velho mas atrevido Amola-tesouras mais o
seu pregão de flauta? Que dizer de todos e de cada um destes painéis ou
quadros? Não será melhor deixá-los, sozinhos, a aparecerem e a mostrarem-se?
3 - Mas, tal como no grande
Universo, o grande Deus deixou limitações – é uma “Criação Imperfeita” segundo nos
diz na nossa língua com sotaque brasileiro o cosmólogo Marcelo Gleisel –, assim
também, nesta outra criação, o deus Canteiro terá deixado o seu pequeno senão,
se acaso ele não for de atribuir a outrem, no seu olhar para o real.
Quem está lavrando estes regos de
palavras tem a certeza: o pároco Mendes, décimo primeiro na “Tábua da Paróquia”,
não terá sido natural da Arrancada, mas sim de outra galáxia vizinha,
precisamente da Serredade. O lavrador destes regos, que é natural da Arrancada,
esteve várias vezes com o padre Mendes: ele era um homem baixo, atarracado, nesse
tempo já careca mas de espessas sobrancelhas, homem de poucas falas mas cheio
de bonomia. Esteve e falou várias vezes com ele, por altura das festas anuais
da Senhora das Febres, aonde habitualmente ele acorria, por ter nascido nesta
paróquia e onde tinha familiares. Mas quando ele vinha nestas alturas festivas,
nunca constou que fosse natural ou se acoitasse em alguma casa da Arrancada,
mas sim numa casa da Serredade, onde ainda tinha uma irmã ou irmãs. Fica aqui
lavrado o registo desta certeza, mas o lavrador sabe bem que certeza não é
verdade. Por isso, Mestre Canteiro não precisa de apensar esta nota no “Livro
da Paróquia”, livro tão “pesado como um adobo”. Leia só, e pronto.
4 - No grande céu natural que está
por cima da Gândara, a primeira estrela e todos os outros luzeiros vão-se sempre
distanciando uns dos outros, expandindo, assim se formando esta e outras
galáxias no Universo. No céu da narrativa, ao invés, partindo da primeira
estrela, a alvinitente Capella, outros muitos luzeiros vão sendo criados à
volta dela, nesse céu convergindo numa unidade perfeita.
O quadro final da narrativa, a letra
Z de Zimbro, é um passo ou quadro colectivo de intenso acento épico, como
colectivo e épico é também o primeiro passo da narrativa, embora aqui de forma
menos intensa. Aliás, colectiva é também a voz da narração. Narrador é o avô, o
neto, o padre, a menina, sempre anónimos narradores como é também a emprestada
voz do autor, que ajuda a levantar as outras vozes, do silêncio e do caos.
Sempre todos narrando uma acção que é comum, nunca singular, a acção épica de
um povo. Porque é o povo mesmo que narra a sua gesta heróica, ciclópico
trabalho de enriquecer e arrotear terras para matar a fome, para educar as
crianças, para todos viverem bem e para todos alcançarem, em pleno, a dignidade
de cidadãos de corpo e alma inteiros de uma comunidade maior.
Enfim, pela magia do criador
Canteiro, do caos se fez cosmos em “Largo da Capella”.
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