terça-feira, 31 de julho de 2012

78.3 a 6 - O Deus dos Místicos

3 - É deveras surpreendente, assombroso mesmo, o que parece passar-se com o místico autor, na sua relação com Deus.
Preterindo os préstimos da razão, ele caminha para Deus só pelo amor, um amor intenso, exclusivo, até ao anelo ou à ânsia. O místico não só não se inquieta em conhecer como nem quer saber de conhecer o seu objecto amado. Mais: ele só acha possível caminhar e amar ou amar e caminhar para o seu Deus … se não O conhecer! É só do meio da nuvem do seu “não conhecimento” de Deus, que o monge pode clamar por Ele, que ele chama por Deus. Que é feito então do espaço e do tempo e do alimento para alimentar a terrena vida deste monge em transe místico, de tudo esquecido e esvaziado, mesmo da razão, só se valendo e ocupando deste nu clamor de amor?
Mas será que o monge prescinde mesmo da razão e do conhecimento? Claro que não prescinde! Nem na sua vida prática do dia-a-dia, nem na sua vida teórica de escrita. Neste último caso, o monge não só escreve esta obrinha de mística, como ainda a escreve – como assinala Mattoso – com uma manifesta intenção didáctica: ele quer ensinar a outros – já iniciados em Deus – o caminho do profundo amor a Deus, nesse ensino descendo mesmo a métodos ou técnicas.
Mas naquele amor mesmo a Deus, que o monge está a ensinar a praticar e já pratica na sua vida, ele prescindirá de facto da razão e do conhecimento? Por outras palavras: é possível amar a Deus, sem antes e ao mesmo tempo o conhecer? Amar a Deus, só através ou metido na “nuvem do não saber”? À primeira vista parece que sim, pois é para isso que aos seus iniciados leitores o monge ensina técnicas repetitivas para habituarem o seu corpo à presença desse Deus. A intensa e demorada repetição dos monossílabos e quase mantras “god-sin-love” levam a isso mesmo! De facto, quando queremos impor hábitos ao nosso corpo, é isso que fazemos: a razão está presente a habituar o corpo, e depois, criado o hábito que de algum modo é sempre uma presença, já a mente se pode ausentar.
Mas será que, com o intelecto da razão – e para além do hábito imposto ao corpo que por si só poderá criar uma presença imaginada – o monge e seus discípulos não terão de se interrogar sobre a nua e real existência de Deus? E mesmo que a dêem agora por adquirida, por essa certeza da real existência de Deus ter sido anteriormente conquistada, não tem ela ainda agora de estar presente nessa conjunta unidade de conhecer/amar ou amar/conhecer? Como pode o monge pedir aos seus discípulos leitores que desejem ardente e vitalmente Deus, sem que previamente tenham dEle notícia e, de algum modo, O conheçam?

4 – Sabido é que muitos pensadores, entre os quais Kant, entendem que, com o intelecto, não se pode chegar à realidade Deus. Também o nosso monge pensa o mesmo, pelo menos em parte: como a sua razão não pode chegar a Deus, ele entende e agora ensina que só pelo amor do coração a Ele podemos chegar. Mas Kant, que, ao contrário do monge, continua a pensar que a razão é fundamental neste assunto de Deus, insiste em dizer que, pela razão, a razão pura, nunca alguém poderá conhecer a Deus, para o amar, por Ele ser um objecto extra-mundano, e por isso não experienciável, de conhecimento. Quando muito, a razão prática, que é sempre mais ou menos domesticável pelo coração e por isso pode com ele assumir compromissos, pode ajudar o mesmo coração no caminho que o leva a Deus. E aqui se abre e começa o caminho da fé em Deus, na qual o coração assume sempre a dianteira, restando para a razão um papel secundário.
É certo que, nem sequer no amor entre dois seres humanos, que implica sempre o recíproco conhecimento, esse também recíproco amor se torna evidente às suas partes, pelo menos para sempre, assim incluindo também uma dimensão de fé. Mas, se aqui a razão prática também colabora, a razão pura porém está alerta, pois que o amor humano, sendo intra-mundano e por isso experienciável, pode sempre reformular-se de acordo com evidências que no caminho possam surgir, não sendo este o caso do amor a Deus.

5 – Parece então poder dizer-se que só pela inteligência – que inclui razão e coração – podemos conhecer/amar e amar/conhecer outro ser humano. E aqui chegados, podemos assumir que a sabedoria é o fruto da inteligência. Porque na sabedoria, para além do saborear experiencial, que é próprio do ser humano-todo e sobretudo do coração, há também a certeza e bem assim a dúvida, que são os dois principais alimentos da nossa racionalidade.
Assim, inteligência e sabedoria são, para o ser humano, muito mais do que simples intelecto e ciência. Enquanto a ciência é promovida e interessa só à razão, mais definidamente ao intelecto, a inteligência e a sabedoria são promovidas pelo ser humano como um todo, ou seja, pela razão e pelo coração.
É de relevar aqui o que atrás já foi dito embora só de passagem (ponto 1), sobre inteligência e contemplação. Depois de se considerar que o nosso anónimo autor e outros autores místicos preferem o amor, em detrimento e até com exclusão da razão, na sua relação com Deus, depois disso, com as próprias palavras de Mattoso se afirma que, para estes místicos, a inteligência comparece e é fundamental na contemplação. Portanto não se diz genericamente que é a razão que está presente, mas sim a inteligência. Porquê? Precisamente porque a inteligência, que leva à sabedoria, é elemento racional que já inclui o amor! Com a inteligência, o amor é conhecimento e o conhecimento é amor. Sabedoria é conhecimento gostoso, bom para eu viver.
A sabedoria é um labirinto? De facto, é! Mas parece que tanto mais será labirinto quanto menos é sabedoria; e tanto mais será sabedoria, quanto menos é labirinto! A sabedoria será sempre labirinto, mas quanto menos labirinto melhor. Porque, se queremos ser sábios, é para nos encontrarmos e não para nos perdermos. Um homem sábio é aquele que se encontrou e continua encontrado, em relação a si e às suas circunstâncias.
 “Levantar o Céu”, ou levantar a Terra? Então o espírito e seus produtos não são do céu? Mas um genocídio, por exemplo, não é um produto congeminado no espírito? Por outro lado, o ser humano é humano por nascer do húmus da Terra, ou por nascer do Céu? Quando se fala por metáforas, não é para deixar tudo no vago?

6 – Em “A Nuvem do Não-Saber”, há o silêncio, há a escuridão e há a falta de sinais. Mas tendo em atenção a bipolaridade do mundo, e sobretudo a força da fé, talvez tudo possa ser mudado. Na falta de sinais, pode encontrar-se o sentido; na escuridão, pode encontrar-se a luz; no silêncio, poderá ouvir-se a palavra mansa e doce do Invisível.
Em comparação com o deus dos teólogos e das instituições religiosas, um deus esquartejado em seus divinos atributos, o Deus místico é um Deus inteiro e “nu”, isto é, um Deus despido de aderências racionais, um Deus enxuto, simples, humilde, um Deus doméstico e familiar, pressentido assim no meio da escuridão e do silêncio.
E no entanto, quem será que vemos? Deus ou nós mesmos, na nossa pobreza e plenitude humanas? Será que é no silêncio, na escuridão e na falta de sinais, que nós encontramos Deus, ou é aí que … nos encontramos melhor a nós mesmos? Não é muitas vezes no silêncio, que mais nos sentimos acompanhados? E na escuridão, que melhor sentimos a luz? E na falta de sinais, que mais sentimos o sentido da vida, se é que ela há-de ter um sentido? Não é na “Nuvem do Não-Saber”, que mais nos encontramos a nós mesmos? Não aconteceu já isso com o Sócrates ateniense? Não é com a mente vazia e limpa de todos os conhecimentos que, em Krishnamurti, se alcança a compreensão global, feita de inteligência que já inclui o amor? Sermos consciência de algo, ou mesmo do Universo, não é antes de mais sermos nada?
No entanto, embora muitos humanos não compreendam a vida que levam os monges, o caso é que, mesmo assim, eles devem se considerados sábios, sábios de uma autêntica sabedoria. Esse é um caminho, entre outros, pelos quais os humanos podem encontrar e praticar uma autêntica sabedoria de vida. 









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