1 – Olá! No semanário Expresso de 19-5-12, há três casos paradigmáticos não só de como os novelos (pelo menos alguns)
que dobamos com os nossos pensamentos nos podem causar muitos problemas, mas
também de como, não os havendo, tudo se torna mais fácil e simples para nós.
O primeiro caso é o de
Fernando Pessoa e de Eduardo Lourenço, aquele com toda a sua obra poética e
este com o teórico discurso de aceitação do prémio que leva o nome do poeta.
Discurso até duplamente teórico, pois que é feito de teoria do professor sobre
a teoria do poeta.
Segundo a citação de “O Marinheiro”
com que o professor Lourenço abre o seu discurso, o poeta sabe que é o que não
devia ser, ou seja, falar, falar, falar mesmo “sem querer falar”, com todas as
mitologias que o poético falar lhe produz. Por outro lado, por outras passagens
da sua obra, ele também sabe que não é o que devia ser, isto é, ser simples
consciência do mundo: “Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias
sobre as cousas: / Só me obriga a ser consciente” (Alberto Caeiro, 271).
Ora, este conflito leva a que o
poeta diga que falhou. Álvaro de Campos o confessa em “Pecado Original”: “Sou
quem falhei ser”. Falhou porquê? Falhou porque “O que há é só o mundo
verdadeiro, não é nós, só o mundo; / O que não há somos nós, e a verdade está
aí”. E mais adiante: “Que é da minha realidade, que só tenho a vida? / Que é de
mim, que sou só quem existo”?
Mas em vez de ser só este existir ou
ser só consciência sem nenhuma (outra) realidade - só consciência das
realidades do mundo, e depois também de si, sim, mas só como consciência dessas
realidades começando pelo seu corpo – ele amontoou “teorias sobre as cousas”,
ele carrega um saco mental cheio de novelos de pensamento e de ideologias e de
mitos, que o impede de ver a nu, como realmente são, as realidades do “mundo
verdadeiro”. Por isto tudo é que o poeta falhou. Falhou e tem pena: para ele, o
pecado original será isso.
2 - Também no segundo caso, os novelos
de pensamento e de ideologias nos podem atravancar a mente, a ponto de se não
verem as realidades do mundo como de facto elas são, mas tão-somente como tais
ideias as deixam ver. È o caso que ficou com o nome de “O Vídeo de Bourdain”, e
que os textos de opinião de Rui Ramos e de Henrique Raposo apresentam.
Um tal Bourdain cozinheiro americano
andou por aí – o “aí” é Lisboa – a recolher imagens e testemunhos de nativos
lusitanos sobre Portugal, ou melhor, sobre aquilo que é mais típico no país. Lá
veio então a saudade, o fado, o bacalhau e outras comidas, lá veio também
Salazar pela mão de Lobo Antunes, lá vieram mais lamúrias ainda como aquela de
que, com tantos problemas económicos e sociais, isto era uma terra em crise, um
país pobre e sem futuro, e tudo isto, repitamos, segundo as ideias e as
convicções dos entrevistados nativos.
Idêntica opinião sobre o mesmo vídeo
tem também Henrique Raposo, que classifica de “confrangedor” o espectáculo, no
qual todas as intervenientes figuras portuguesas nativas “fizeram todos os
possíveis para encaixar Portugal no cliché do país lamuriento, que passa a vida
na autoflagelação”.
Mas o curioso é que, neste segundo
texto, se fala de um outro vídeo que, em tudo, é o oposto do primeiro, assim se
introduzindo o terceiro caso de que
intentamos falar. Porque agora, neste segundo vídeo, quem dá a sua opinião
sobre o nosso país são imigrantes, vindos portanto de outros países para
trabalharem e viverem cá. E o que eles dizem sobre este país de acolhimento é
exactamente o contrário da opinião dos nativos: esses jovens empresários
estrangeiros entendem que Lisboa - e cremos que também o nosso país pois não é
menos que a capital -, é o melhor lugar para montarem a sua empresa,
trabalharem e viverem.
Em resumo, “no vídeo dos portugueses
a falarem de Portugal, somos soterrados pelos mitos da portugalidade faduncha”,
enquanto que “no vídeo dos estrangeiros a falar de Portugal, saímos da
mitologia e ficamos com a certeza de que esta cidade (…) é a cidade ideal para
um empresário que procura qualidade de vida”.
3 - Nós vemos habitualmente o mundo
através da nossa subjectividade: ao mesmo tempo que enche a nossa mente, a
subjectividade também cobre e faz o nosso mundo. Podemos mesmo dizer que, por
isso, cada um de nós tem o seu mundo. Mas há alturas e casos em que temos mesmo
de despir esse nosso mundo que vemos e nascermos de novo para então vermos o
mundo verdadeiro. Porque este é que é o verdadeiro. Daí que, sendo a nossa
subjectividade uma interpretação do mundo, nós tenhamos sempre de a relativizar
e rever, face ao mundo.
Ora, isto conduz-nos a várias
posições em relação a toda esta subjectividade, nossa e da humanidade: podemos
duvidar dela, aceitá-la sem reservas, reformulá-la, negá-la e substituí-la por
outra. Mas como, no limite, somos só consciência – o poeta já o disse e talvez
tenha razão -, a melhor saída será, pelo menos a espaços e em determinadas
circunstâncias, esvaziar a nossa mente da subjectividade a respeito de qualquer
das determinadas realidades do mundo, e assim poder olhá-la só com os olhos nus
e sábios da inteligência, sem preconceitos, assim nos aparecendo a realidade
mesma no seu fulgor, tal como realmente ela é.
Na nossa congénita incompletude – e
de acordo e a par com os dois mitos recolhidos por Platão já aqui lembrados nos
textos 49 e 50 e que nos falam da nossa congénita fome de amor – nós somos só
consciência, isto é, nascemos também com fome de saber. De tanta fome a
consciência se constitui que ela não pode subsistir senão como consciência de
algo ou alguém, sendo que o primeiro objecto a ser consciencializado é a acção
de pensar, que o corpo lhe concede. Congenitamente somos só consciência, mas de
facto e habitualmente nós somos também a nossa subjectividade. Assim, em vez de
sermos sempre e só a habitual consciência de “teorias sobre as cousas”, ou
seja, consciência de conceitos e conhecimentos sempre parcelares sobre as
coisas, não poderemos voltar a ser, em algumas ocasiões, só amorosa consciência
directa e global das coisas?
Se assim acontecer, no vertente caso
da nossa relação com este país, nós poderemos esvaziar a mente dos mitos que a
povoam a esse respeito para o ver como ele é, e, em pouco tempo, com essa
inteligência que também já é amor, podemos até passar a ter opinião semelhante
à dos jovens imigrantes estrangeiros. E isto, sobremaneira nestes tempos
difíceis - não para a abstracta portugalidade mas para nós -, seria muito bom.
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