segunda-feira, 16 de julho de 2012

76 - Consciência, Novelos Mentais e Mundo Verdadeiro


1 – Olá! No semanário Expresso de 19-5-12, há três casos paradigmáticos não só de como os novelos (pelo menos alguns) que dobamos com os nossos pensamentos nos podem causar muitos problemas, mas também de como, não os havendo, tudo se torna mais fácil e simples para nós.
O primeiro caso é o de Fernando Pessoa e de Eduardo Lourenço, aquele com toda a sua obra poética e este com o teórico discurso de aceitação do prémio que leva o nome do poeta. Discurso até duplamente teórico, pois que é feito de teoria do professor sobre a teoria do poeta.
Segundo a citação de “O Marinheiro” com que o professor Lourenço abre o seu discurso, o poeta sabe que é o que não devia ser, ou seja, falar, falar, falar mesmo “sem querer falar”, com todas as mitologias que o poético falar lhe produz. Por outro lado, por outras passagens da sua obra, ele também sabe que não é o que devia ser, isto é, ser simples consciência do mundo: “Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas: / Só me obriga a ser consciente” (Alberto Caeiro, 271).
Ora, este conflito leva a que o poeta diga que falhou. Álvaro de Campos o confessa em “Pecado Original”: “Sou quem falhei ser”. Falhou porquê? Falhou porque “O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo; / O que não há somos nós, e a verdade está aí”. E mais adiante: “Que é da minha realidade, que só tenho a vida? / Que é de mim, que sou só quem existo”?
Mas em vez de ser só este existir ou ser só consciência sem nenhuma (outra) realidade - só consciência das realidades do mundo, e depois também de si, sim, mas só como consciência dessas realidades começando pelo seu corpo – ele amontoou “teorias sobre as cousas”, ele carrega um saco mental cheio de novelos de pensamento e de ideologias e de mitos, que o impede de ver a nu, como realmente são, as realidades do “mundo verdadeiro”. Por isto tudo é que o poeta falhou. Falhou e tem pena: para ele, o pecado original será isso.

2 - Também no segundo caso, os novelos de pensamento e de ideologias nos podem atravancar a mente, a ponto de se não verem as realidades do mundo como de facto elas são, mas tão-somente como tais ideias as deixam ver. È o caso que ficou com o nome de “O Vídeo de Bourdain”, e que os textos de opinião de Rui Ramos e de Henrique Raposo apresentam.
Um tal Bourdain cozinheiro americano andou por aí – o “aí” é Lisboa – a recolher imagens e testemunhos de nativos lusitanos sobre Portugal, ou melhor, sobre aquilo que é mais típico no país. Lá veio então a saudade, o fado, o bacalhau e outras comidas, lá veio também Salazar pela mão de Lobo Antunes, lá vieram mais lamúrias ainda como aquela de que, com tantos problemas económicos e sociais, isto era uma terra em crise, um país pobre e sem futuro, e tudo isto, repitamos, segundo as ideias e as convicções dos entrevistados nativos.
Idêntica opinião sobre o mesmo vídeo tem também Henrique Raposo, que classifica de “confrangedor” o espectáculo, no qual todas as intervenientes figuras portuguesas nativas “fizeram todos os possíveis para encaixar Portugal no cliché do país lamuriento, que passa a vida na autoflagelação”.
Mas o curioso é que, neste segundo texto, se fala de um outro vídeo que, em tudo, é o oposto do primeiro, assim se introduzindo o terceiro caso de que intentamos falar. Porque agora, neste segundo vídeo, quem dá a sua opinião sobre o nosso país são imigrantes, vindos portanto de outros países para trabalharem e viverem cá. E o que eles dizem sobre este país de acolhimento é exactamente o contrário da opinião dos nativos: esses jovens empresários estrangeiros entendem que Lisboa - e cremos que também o nosso país pois não é menos que a capital -, é o melhor lugar para montarem a sua empresa, trabalharem e viverem.
Em resumo, “no vídeo dos portugueses a falarem de Portugal, somos soterrados pelos mitos da portugalidade faduncha”, enquanto que “no vídeo dos estrangeiros a falar de Portugal, saímos da mitologia e ficamos com a certeza de que esta cidade (…) é a cidade ideal para um empresário que procura qualidade de vida”.

3 - Nós vemos habitualmente o mundo através da nossa subjectividade: ao mesmo tempo que enche a nossa mente, a subjectividade também cobre e faz o nosso mundo. Podemos mesmo dizer que, por isso, cada um de nós tem o seu mundo. Mas há alturas e casos em que temos mesmo de despir esse nosso mundo que vemos e nascermos de novo para então vermos o mundo verdadeiro. Porque este é que é o verdadeiro. Daí que, sendo a nossa subjectividade uma interpretação do mundo, nós tenhamos sempre de a relativizar e rever, face ao mundo.
Ora, isto conduz-nos a várias posições em relação a toda esta subjectividade, nossa e da humanidade: podemos duvidar dela, aceitá-la sem reservas, reformulá-la, negá-la e substituí-la por outra. Mas como, no limite, somos só consciência – o poeta já o disse e talvez tenha razão -, a melhor saída será, pelo menos a espaços e em determinadas circunstâncias, esvaziar a nossa mente da subjectividade a respeito de qualquer das determinadas realidades do mundo, e assim poder olhá-la só com os olhos nus e sábios da inteligência, sem preconceitos, assim nos aparecendo a realidade mesma no seu fulgor, tal como realmente ela é.
Na nossa congénita incompletude – e de acordo e a par com os dois mitos recolhidos por Platão já aqui lembrados nos textos 49 e 50 e que nos falam da nossa congénita fome de amor – nós somos só consciência, isto é, nascemos também com fome de saber. De tanta fome a consciência se constitui que ela não pode subsistir senão como consciência de algo ou alguém, sendo que o primeiro objecto a ser consciencializado é a acção de pensar, que o corpo lhe concede. Congenitamente somos só consciência, mas de facto e habitualmente nós somos também a nossa subjectividade. Assim, em vez de sermos sempre e só a habitual consciência de “teorias sobre as cousas”, ou seja, consciência de conceitos e conhecimentos sempre parcelares sobre as coisas, não poderemos voltar a ser, em algumas ocasiões, só amorosa consciência directa e global das coisas?
Se assim acontecer, no vertente caso da nossa relação com este país, nós poderemos esvaziar a mente dos mitos que a povoam a esse respeito para o ver como ele é, e, em pouco tempo, com essa inteligência que também já é amor, podemos até passar a ter opinião semelhante à dos jovens imigrantes estrangeiros. E isto, sobremaneira nestes tempos difíceis - não para a abstracta portugalidade mas para nós -, seria muito bom.

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