1 Olá! No muito belo livro “Levantar
o Céu – Os Labirintos da Sabedoria”, do professor José Mattoso, recolhe-se um
texto seu que constituiu o prefácio de um livrinho que, em versão portuguesa,
leva o título “A Nuvem do Não-Saber”, escrito em finais do século XIV. O autor
deste livrinho é anónimo: ele quis esconder-se, ou, pelo menos, não se conhece.
Quando muito, poderá pensar-se, com certa segurança e de acordo com a opinião
de Mattoso, que se trata de um Walter Hilton, um monge inglês da Regra de Santo
Agostinho.
Deveras surpreendente é o livrinho,
e por muitas razões: desde logo pelo seu título, também pelo tom familiar de
escrita, ainda pela autoridade e segurança com que é escrito e proposto a
outrem, também pelo conteúdo e pelas técnicas ou truques que propõe, e
finalmente pela intenção de o autor escrever só para iniciados, assim pondo o
texto a recato, longe de vistas profanas.
Considerada “um dos mais belos
textos místicos de todos os tempos”, ou “um dos mais belos tratados espirituais
de todo o século XIV”, esta obrinha, começando por ostentar um título
misterioso e porventura um tanto esotérico, flui lá dentro, como observa
Mattoso, num texto “simples, directo, coloquial”, falando “de Deus e da
oração”. Texto simples, mas sempre tecido numa linguagem ricamente poética,
onde não faltam, começando pelo título, expressões que nos surpreendem,
sobremaneira pela sua originalidade metafórica.
Seguindo de
perto o professor Mattoso – não só por nestas matérias ser reconhecidamente competente
em termos teóricos e vivenciais, mas ainda porque não pudemos ter acesso à
obrinha –, aqui deixamos algumas dessas originalidades textuais que vão
nascendo do monge autor para chegarem ao discípulo leitor: “toda a tua vida
deve ser, por completo, um desejo”; ”dispõe-te a permanecer na escuridão”;
“Deus adapta-se à nossa alma”; a “nuvem do não-saber” é “aquilo que se encontra
entre ti e o teu Deus”; procura “pensar no próprio ser nu de Deus”.
Ao longo dos
curtos capítulos do livrinho, longe de pretender ensinar conteúdos
doutrinários, o que o autor verdadeiramente intenta é, baseado na sua própria
“experiência vivida” que lhe dá autoridade para ser mestre e ensinar,
apontar-nos um caminho e convidar-nos a percorrê-lo, sem demorar na
explicitação de muitas regras a cumprir. O que é preciso é penetrarmos na
“nuvem do não-saber”, aí encontrando então o próprio Deus, que é o nosso
objecto de insaciável desejo e amor.
Mas o quê?
Encontrar Deus no silêncio, na escuridão e na falta de sinais? Sim, porque este
Deus, Deus Inominável, nada tem a ver com o deus dos teólogos e das autoridades
eclesiásticas, que é o deus de todos os atributos. Sim, porque silêncio não é
ausência, porque escuridão ou não-saber não é vazio; porque falta de sinais não
é falta de sentido. Sim, porque, ao contrário do deus dos hierarcas e das
escolas e da escolástica, que é o deus de todas as epifanias, o Deus dos
místicos é um deus que se esconde, ou melhor, um Deus que, no próprio acto de
se mostrar, se esconde, e, só escondido, Ele se nos mostra (ver texto 34. 1).
Daqui decorre
então que, para este monge autor e para a generalidade dos místicos, o caminho
para Deus não se faz pela razão, mas pelo afecto, pelo coração. É na “nuvem do
não-saber” que nós podemos encontrar o amor, encontrar Deus. Eles preferem e
praticam o conhecimento de Deus por meio do amor, conhecimento que só se
alcança por meio da ignorância, isto é, pelo afecto e não pela razão. Porque,
numa definição lapidar dada por um místico e citada por Mattoso, “o amor é, ele
próprio, uma forma de conhecimento”. Isto, porém, não invalida que, como diz
Mattoso, também a generalidade dos místicos e bem assim o autor de “A nuvem do
não-saber” considerem a contemplação - que todos muito prezam - com sendo um
“acto de inteligência” , o qual exige uma concentração completa de quem a ela
se consagra. Refira-se aqui, entre
parêntesis, que se diz que a contemplação é “acto de inteligência” e não “acto
de razão” ou de “intelecto”.
Mas uma das
características que mais distingue e enriquece este livrinho de mística - isto
é, livro que ensina a caminhar para Deus -, é a sua acentuada vertente
pedagógico-didáctica. Nela tem especial relevo o conselho que o autor dá em
ordem a exercitar o amor a Deus, “por meio de uma longa repetição interior de
monossílabos como god, sin ou love”. “O leitor moderno”, continua Mattoso, “reconhece facilmente
nesta prática um paralelo do uso do mantra
hindu, e não pode deixar de se admirar por um monge inglês do século XIV
recomendar esta técnica”. Note-se, porém, que aqueles não são uns monossílabos
quaisquer, mas palavrinhas funcionais e adequadas a suscitarem emoções que
levem ao amor divino. O praticante, que já é um iniciado na vida cristã e agora
pretende alcançar a perfeição, deve insistir sem tréguas nesta prática, até que
ele e Deus se atraiam um ao outro, por um irresistível amor: “Não desfaleças,
pois”, cita-se a obrinha, “mas esforça-te até que sintas um anelo, (…)
dispõe-te a permanecer na escuridão o mais que puderes, clamando sempre por
Aquele que amas. É que, se alguma vez O houveres de sentir ou ver, na medida do
possível neste mundo, tal só deverá acontecer nesta nuvem e nesta escuridão”.
2 - O
misticismo religioso tem raízes muito profundas de sabedoria antiga. Com
efeito, é a partir da curiosidade humana em encontrar a recôndita unidade do
mundo na múltipla e imensa variedade dos seres que o compõem e nos aparecem,
bem como a partir do consequente espanto pelo e com o resultado que se vai
apurando, que vai nascendo e se configurando o Deus dos místicos, ou melhor,
que vão surgindo homens que se fazem místicos a tentar encontrá-lO e, uma vez
encontrado, se vão encontrando também a si próprios, com Ele e nEle, como seres
humanos místicos.
Assim, na
nossa velha Europa, o misticismo religioso radica longinquamente na inquietação
dos primeiros pré-socráticos com encontrarem uma unidade para essa diversidade
do mundo e no encantamento de a pensarem encontrada; radica também na harmonia
e no sentido da harmonia dos números do místico Pitágoras; assenta ainda na
ideia de “demiurgo” pensado pelo divino Platão, e também na sua ideia de que o
mundo real é aquilo que se pensa e não aquilo que se vê na múltipla diversidade
do mundo; enfim, radica em pré-conceitos religiosos que, para além do método
científico, têm guiado e condicionado mesmo a ciência moderna no seu intento de
encontrar o código oculto que possa definitivamente explicar a Natureza e o
Universo, sempre só na sua presumida perfeição simétrica.
Assim se acede à experiência mística
de Deus, do Deus único, sempre presente na Natureza una. A unidade simétrica da
Natureza supõe-se e explica-se mais facilmente se houver um Deus único criador,
e também neste mais facilmente se acredita se existir tal unidade da Natureza.
A religião e a ciência mutuamente se têm inspirado e confirmado, com base nessa
suposta e fontal unidade do mundo.
Mas … e se essa simetria e esse
código oculto explicadores da Natureza só existem nas nossas mentes, pelo
motivo de a mesma Natureza não ser simétrica nem perfeita, como pensam
cientistas actuais como, por exemplo, o cosmólogo Marcelo Gleiser? Isto não
tocará também na experiência mística? Na verdade, o bosão de Higgs nada parece
provar em abono da fé.
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