quinta-feira, 26 de julho de 2012

78. 1 e 2 - O Deus dos Místicos


1 Olá! No muito belo livro “Levantar o Céu – Os Labirintos da Sabedoria”, do professor José Mattoso, recolhe-se um texto seu que constituiu o prefácio de um livrinho que, em versão portuguesa, leva o título “A Nuvem do Não-Saber”, escrito em finais do século XIV. O autor deste livrinho é anónimo: ele quis esconder-se, ou, pelo menos, não se conhece. Quando muito, poderá pensar-se, com certa segurança e de acordo com a opinião de Mattoso, que se trata de um Walter Hilton, um monge inglês da Regra de Santo Agostinho.
Deveras surpreendente é o livrinho, e por muitas razões: desde logo pelo seu título, também pelo tom familiar de escrita, ainda pela autoridade e segurança com que é escrito e proposto a outrem, também pelo conteúdo e pelas técnicas ou truques que propõe, e finalmente pela intenção de o autor escrever só para iniciados, assim pondo o texto a recato, longe de vistas profanas.
Considerada “um dos mais belos textos místicos de todos os tempos”, ou “um dos mais belos tratados espirituais de todo o século XIV”, esta obrinha, começando por ostentar um título misterioso e porventura um tanto esotérico, flui lá dentro, como observa Mattoso, num texto “simples, directo, coloquial”, falando “de Deus e da oração”. Texto simples, mas sempre tecido numa linguagem ricamente poética, onde não faltam, começando pelo título, expressões que nos surpreendem, sobremaneira pela sua originalidade metafórica.
         Seguindo de perto o professor Mattoso – não só por nestas matérias ser reconhecidamente competente em termos teóricos e vivenciais, mas ainda porque não pudemos ter acesso à obrinha –, aqui deixamos algumas dessas originalidades textuais que vão nascendo do monge autor para chegarem ao discípulo leitor: “toda a tua vida deve ser, por completo, um desejo”; ”dispõe-te a permanecer na escuridão”; “Deus adapta-se à nossa alma”; a “nuvem do não-saber” é “aquilo que se encontra entre ti e o teu Deus”; procura “pensar no próprio ser nu de Deus”.
         Ao longo dos curtos capítulos do livrinho, longe de pretender ensinar conteúdos doutrinários, o que o autor verdadeiramente intenta é, baseado na sua própria “experiência vivida” que lhe dá autoridade para ser mestre e ensinar, apontar-nos um caminho e convidar-nos a percorrê-lo, sem demorar na explicitação de muitas regras a cumprir. O que é preciso é penetrarmos na “nuvem do não-saber”, aí encontrando então o próprio Deus, que é o nosso objecto de insaciável desejo e amor.
         Mas o quê? Encontrar Deus no silêncio, na escuridão e na falta de sinais? Sim, porque este Deus, Deus Inominável, nada tem a ver com o deus dos teólogos e das autoridades eclesiásticas, que é o deus de todos os atributos. Sim, porque silêncio não é ausência, porque escuridão ou não-saber não é vazio; porque falta de sinais não é falta de sentido. Sim, porque, ao contrário do deus dos hierarcas e das escolas e da escolástica, que é o deus de todas as epifanias, o Deus dos místicos é um deus que se esconde, ou melhor, um Deus que, no próprio acto de se mostrar, se esconde, e, só escondido, Ele se nos mostra (ver texto 34. 1).
         Daqui decorre então que, para este monge autor e para a generalidade dos místicos, o caminho para Deus não se faz pela razão, mas pelo afecto, pelo coração. É na “nuvem do não-saber” que nós podemos encontrar o amor, encontrar Deus. Eles preferem e praticam o conhecimento de Deus por meio do amor, conhecimento que só se alcança por meio da ignorância, isto é, pelo afecto e não pela razão. Porque, numa definição lapidar dada por um místico e citada por Mattoso, “o amor é, ele próprio, uma forma de conhecimento”. Isto, porém, não invalida que, como diz Mattoso, também a generalidade dos místicos e bem assim o autor de “A nuvem do não-saber” considerem a contemplação - que todos muito prezam - com sendo um “acto de inteligência” , o qual exige uma concentração completa de quem a ela se consagra. Refira-se aqui, entre parêntesis, que se diz que a contemplação é “acto de inteligência” e não “acto de razão” ou de “intelecto”.
         Mas uma das características que mais distingue e enriquece este livrinho de mística - isto é, livro que ensina a caminhar para Deus -, é a sua acentuada vertente pedagógico-didáctica. Nela tem especial relevo o conselho que o autor dá em ordem a exercitar o amor a Deus, “por meio de uma longa repetição interior de monossílabos como god, sin ou love”. “O leitor moderno”, continua Mattoso, “reconhece facilmente nesta prática um paralelo do uso do mantra hindu, e não pode deixar de se admirar por um monge inglês do século XIV recomendar esta técnica”. Note-se, porém, que aqueles não são uns monossílabos quaisquer, mas palavrinhas funcionais e adequadas a suscitarem emoções que levem ao amor divino. O praticante, que já é um iniciado na vida cristã e agora pretende alcançar a perfeição, deve insistir sem tréguas nesta prática, até que ele e Deus se atraiam um ao outro, por um irresistível amor: “Não desfaleças, pois”, cita-se a obrinha, “mas esforça-te até que sintas um anelo, (…) dispõe-te a permanecer na escuridão o mais que puderes, clamando sempre por Aquele que amas. É que, se alguma vez O houveres de sentir ou ver, na medida do possível neste mundo, tal só deverá acontecer nesta nuvem e nesta escuridão”.

         2 - O misticismo religioso tem raízes muito profundas de sabedoria antiga. Com efeito, é a partir da curiosidade humana em encontrar a recôndita unidade do mundo na múltipla e imensa variedade dos seres que o compõem e nos aparecem, bem como a partir do consequente espanto pelo e com o resultado que se vai apurando, que vai nascendo e se configurando o Deus dos místicos, ou melhor, que vão surgindo homens que se fazem místicos a tentar encontrá-lO e, uma vez encontrado, se vão encontrando também a si próprios, com Ele e nEle, como seres humanos místicos.
         Assim, na nossa velha Europa, o misticismo religioso radica longinquamente na inquietação dos primeiros pré-socráticos com encontrarem uma unidade para essa diversidade do mundo e no encantamento de a pensarem encontrada; radica também na harmonia e no sentido da harmonia dos números do místico Pitágoras; assenta ainda na ideia de “demiurgo” pensado pelo divino Platão, e também na sua ideia de que o mundo real é aquilo que se pensa e não aquilo que se vê na múltipla diversidade do mundo; enfim, radica em pré-conceitos religiosos que, para além do método científico, têm guiado e condicionado mesmo a ciência moderna no seu intento de encontrar o código oculto que possa definitivamente explicar a Natureza e o Universo, sempre só na sua presumida perfeição simétrica.
Assim se acede à experiência mística de Deus, do Deus único, sempre presente na Natureza una. A unidade simétrica da Natureza supõe-se e explica-se mais facilmente se houver um Deus único criador, e também neste mais facilmente se acredita se existir tal unidade da Natureza. A religião e a ciência mutuamente se têm inspirado e confirmado, com base nessa suposta e fontal unidade do mundo.
Mas … e se essa simetria e esse código oculto explicadores da Natureza só existem nas nossas mentes, pelo motivo de a mesma Natureza não ser simétrica nem perfeita, como pensam cientistas actuais como, por exemplo, o cosmólogo Marcelo Gleiser? Isto não tocará também na experiência mística? Na verdade, o bosão de Higgs nada parece provar em abono da fé.




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