domingo, 6 de maio de 2012

62.7 - A Educação e o Coração na Fé


7 - Falemos agora de educação e também de coração. Crer ou não crer é sempre uma questão de educação e de coração, e não de razão pura ou teórica. A razão, à qual compete pesquisar e iluminar, sairá sempre um tanto secundarizada em assuntos de fé religiosa. Também aqui ela é necessária, sem dúvida, mas decisivos nesse processo são os afectos do coração e a educação, a qual também e sobretudo educa o coração. A educação e o coração são interdependentes e também cúmplices na sua influência não só em relação à crença como também à descrença.
Conheço dois amigos, o Silvestre e a Margarida, que gostam de entretecer longas conversas com o fio destes assuntos. Ele, na família e nos estudos, teve uma educação de acento religioso, mas ela, de um meio bem diverso e sem condicionamento religioso nos estudos, teve uma educação que podemos designar de laica.
E não se entendem nas conversas que tecem, ou melhor, têm sempre pontos de vista diversos! Ele, talvez com mais poder de argumentação de escola, procura defender a sua “dama”, mas a senhora, porventura mais assente nas concretas realidades da vida, responde-lhe sobretudo que, se a educação dele tivesse sido como a sua, pensaria como ela. Mas fazem sempre das suas longas conversas, belas tapeçarias com que vão fundando uma recíproca e sempre crescente amizade.
Os casos do Silvestre e da Margarida são semelhantes aos casos de Kant e Kung, mas com a diferença de que estes dois últimos estão do lado do Silvestre. Kant era um pietista rigoroso, no qual, como diz Kung, se arreigava “a convicção ético-religiosa extrema de que devem ser estabelecidos limites à razão”, e Kung é um velhinho sacerdote católico, suponho que ainda vivo, por sinal conhecido e amigo do actual pontífice romano. Mas Kung, como já vimos, refere ainda uma outra muito significativa passagem de Kant: “Tive por conseguinte de superar o saber, para obter um lugar para a ”.
Ora, se Kung e Teillard e Kant e bem assim Rousseau (de quem Kant tanto gostava) e ainda, claro está, o nosso amigo Silvestre, se todos eles tivessem levado uma educação como foi a da Margarida, por certo que, tal como a esta, o desejo e o coração não lhes pediriam a fé!
Na concepção de muitos e também de Kung, a fé em Deus é um ousado mergulho do homem-todo nessa realidade transcendente, mergulho do desejo e do coração, mas que também a razão acompanha, sobretudo em virtude da luz de sentidos (p. 99) que, aceitando essa hipótese de Deus, a seguir ao homem-todo vem. É como que, na feliz imagem de Kung, a “alavanca de Arquimedes” com que agora se explica o universo – o macro e o micro – e também o seu mundo pessoal de criatura humana e o sentido da vida.
Foi dito que a razão acompanha o coração nesse ousado mergulho nessa insondável realidade divina, mas também tem de dizer-se agora que a mesma razão não deve admitir peias de qualquer género na sua acção pesquisadora, nem sequer das convicções porventura colhidas da educação desde a infância do sujeito em causa, se a razão assim tiver de entender, mau grado alguma possível perplexidade ao nível dos afectos do coração. E se assim tiver de entender, não acompanhará o coração.
E também é de considerar-se que, muito embora o amor entre dois seres humanos também pode exigir esse ousado mergulho em que a razão não tem evidências, o certo é que o mergulho de amor noutro ser humano parece bem diverso do mergulho de amor na realidade divina, como a seguir se há-de ver.

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