7 - Falemos agora de educação e também de coração. Crer ou não crer é sempre uma
questão de educação e de coração, e não de razão pura ou teórica. A razão, à
qual compete pesquisar e iluminar, sairá sempre um tanto secundarizada em
assuntos de fé religiosa. Também aqui ela é necessária, sem dúvida, mas
decisivos nesse processo são os afectos do coração e a educação, a qual também
e sobretudo educa o coração. A educação e o coração são interdependentes e também
cúmplices na sua influência não só em relação à crença como também à descrença.
Conheço dois
amigos, o Silvestre e a Margarida, que gostam de entretecer longas conversas
com o fio destes assuntos. Ele, na família e nos estudos, teve uma educação de
acento religioso, mas ela, de um meio bem diverso e sem condicionamento religioso
nos estudos, teve uma educação que podemos designar de laica.
E não se
entendem nas conversas que tecem, ou melhor, têm sempre pontos de vista
diversos! Ele, talvez com mais poder de argumentação de escola, procura defender
a sua “dama”, mas a senhora, porventura mais assente nas concretas realidades
da vida, responde-lhe sobretudo que, se a educação dele tivesse sido como a
sua, pensaria como ela. Mas fazem sempre das suas longas conversas, belas
tapeçarias com que vão fundando uma recíproca e sempre crescente amizade.
Os casos do
Silvestre e da Margarida são semelhantes aos casos de Kant e Kung, mas com a
diferença de que estes dois últimos estão do lado do Silvestre. Kant era um
pietista rigoroso, no qual, como diz Kung, se arreigava “a convicção ético-religiosa
extrema de que devem ser estabelecidos limites à razão”, e Kung é um velhinho
sacerdote católico, suponho que ainda vivo, por sinal conhecido e amigo do
actual pontífice romano. Mas Kung, como já vimos, refere ainda uma outra muito
significativa passagem de Kant: “Tive por conseguinte de superar o saber, para obter um lugar para a fé”.
Ora, se Kung e
Teillard e Kant e bem assim Rousseau (de quem Kant tanto gostava) e ainda,
claro está, o nosso amigo Silvestre, se todos eles tivessem levado uma educação
como foi a da Margarida, por certo que, tal como a esta, o desejo e o coração
não lhes pediriam a fé!
Na concepção
de muitos e também de Kung, a fé em Deus é um ousado mergulho do homem-todo
nessa realidade transcendente, mergulho do desejo e do coração, mas que também
a razão acompanha, sobretudo em virtude da luz de sentidos (p. 99) que,
aceitando essa hipótese de Deus, a seguir ao homem-todo vem. É como que, na
feliz imagem de Kung, a “alavanca de Arquimedes” com que agora se explica o
universo – o macro e o micro – e também o seu mundo pessoal de criatura humana e
o sentido da vida.
Foi dito que a
razão acompanha o coração nesse ousado mergulho nessa insondável realidade
divina, mas também tem de dizer-se agora que a mesma razão não deve admitir
peias de qualquer género na sua acção pesquisadora, nem sequer das convicções
porventura colhidas da educação desde a infância do sujeito em causa, se a
razão assim tiver de entender, mau grado alguma possível perplexidade ao nível
dos afectos do coração. E se assim tiver de entender, não acompanhará o
coração.
E também é de
considerar-se que, muito embora o amor entre dois seres humanos também pode
exigir esse ousado mergulho em que a razão não tem evidências, o certo é que o
mergulho de amor noutro ser humano parece bem diverso do mergulho de amor na
realidade divina, como a seguir se há-de ver.
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