domingo, 28 de abril de 2013

150 - Ainda o Pobre de Assis


1 -Olá, amigas e amigos! Já aqui neste blog falámos de um caracol (texto 12), doente e velhinho caracol, com as suas pontinhas batendo à porta e querendo entrar num lar de idosos.
Ele estava colado a um muro alto, em pleno Inverno, mas verificou-se que já era velhinho e doente. Por isso, ajudámo-lo a chegar a uma instituição onde se dá guarida a velhinhos e doentes, talvez abrigo onde pudesse dar entrada, ser assistido e passar o resto dos seus dias.
A enfermeirazinha de serviço recebeu-nos e, entrelaçando palavras com risinhos, a ela fomos dizendo ao que vínhamos. Ainda em seu floreado de palavras e risinhos, foi afirmando que só havia uma vaga, mas só para menina. Ter-se-ia portanto de saber, antes de mais, se ele era menino ou menina. E não satisfeita de exigências, foi dizendo mais que, sem minucioso relatório médico, ninguém lá podia entrar. Em suma, exigência sobre exigência, muitos embaraços difíceis de vencer …

2 – E agora, ainda neste romance sobre o “Poverello” de Assis, um outro caracol nos aparece, não para entrar num convento ou num lar de velhinhos, por já velhinho, mas a querer introduzir-se, imaginem só … no paraíso! Nada menos que no paraíso! (p. 114)
É uma bela e verdadeira canção que Francisco inventou e que agora vai contar e cantar ao irmão Leão, que por sua vez no-la está a relatar. O “Pobrezinho” já tinha criado e cantado canções à lama, à chuva, ao vento … e então, porque não havia de compor e cantar também uma canção ao caracol?
“- Irmão Leão, compus uma pequena canção. Queres ouvi-la?
- Não é altura para improvisar canções, irmão Francisco – respondi agastado.
- Se as não fazemos agora, quando as faremos, irmão Leão? Escuta: o primeiro pequeno animal que se apresentou à porta do paraíso foi o caracol. Pedro inclinou-se e acariciou-o com a ponta de um pau: “Que vens aqui procurar, caracolzinho?” perguntou-lhe. “A imortalidade”, respondeu o caracol. Pedro soltou uma gargalhada. “A imortalidade? Que farás tu dela, da imortalidade?” “Não rias”, replicou o caracol. “Não sou eu uma criatura de Deus? Não sou filho de Deus, como o arcanjo Miguel? Eu sou o arcanjo Caracol!” “E onde estão as tuas asas de ouro, as tuas sandálias vermelhas e o teu gládio?” “Estão dentro de mim. Eles dormem e esperam” “Esperam o quê?” “O grande momento!” ”Mas que grande momento?” “Isto”, respondeu o caracol. E enquanto dizia esta palavra dava um salto e entrava no paraíso”.

3 – No primeiro texto (148), falou-se do Deus que é “a procura de Deus”. No segundo (149), fomos ao encontro desse Deus. Francisco encontrou-o nos pobres e nos leprosos, mas também nas ervas do campo. Neste terceiro, estamos constatando que não nos será difícil encontrar e entrar no paraíso, nessa procura de Deus.
De facto, estamos longe de Deus e do paraíso, quanto só um saltinho de caracol! Isto é, estamos tão pertinho que, para entrarmos em Deus e no paraíso, nos bastará um saltinho de caracol, ou seja, suficiente nos será um novo olhar de alma sobre as coisas e sobre a vida. Vermos tudo de outra forma, ou vermos com renascida alma. Vermos tudo divino … na sua profundidade humana. Novo olhar dormindo em nós, sempre à espera que o acordemos e lhe demos asas.
Tudo isto, porém, só acontecerá se nos esvaziarmos de nós mesmos, formos pobres, possuídos de fome e sede e tendo frio e porventura ainda outros sofrimentos, como o “Poverello” teve e nos ensina. Por si mesmo, o sofrimento não abre essas portas, não é salvador, mas às vezes é preciso porque só com ele se eleva a têmpera da alma até ao alto ponto em que, ela própria, as abrirá (texto 147).
Quando Francisco abraçava um pobre e, acima de tudo, abraçava e beijava os lábios de um rosto a apodrecer, ele tinha a absoluta certeza de que abraçava e beijava Deus e de que isso era para si o paraíso.
Não temos muitas certezas. Quando muito, probabilidades e uma que outra certeza, sim senhor, mas sempre a termos de as rever. Em certezas, também bom é, de facto, sermos pobres: não termos muitas, mas só o estritamente necessário, como Francisco. Porque, quanto mais também essa pobreza cultivarmos, mais ricos seremos em humanidade.
Será que em nós já dormem Deus e o paraíso? Se assim é – e será mesmo –, basta que os acordemos e vivamos em conformidade. E então, já aqui no paraíso, como Francisco, comporemos também a nossa canção, e também haveremos de a cantar e dançar!

quinta-feira, 25 de abril de 2013

149 - De novo, o Pobre de Assis


1 - Olá, amigas e amigos! Com este Deus que é (só) a sua procura - como já vimos no texto anterior sobre o romance de Nikos - muito do que vem a seguir na mesma narrativa se concilia muito bem. É logo o caso da obediência à vontade de Deus:
“- Não há alegria maior – disse Francisco – do que obedecer à vontade de Deus. E sabes porquê, irmão Leão? (…) Porque, no fundo de nós mesmos, não desejamos afinal senão o que Deus quer (…) Obedecer à vontade de Deus significa obedecer à nossa própria vontade, a mais íntima e secreta”.

2 - Porém, Leão, que já tinha intervindo, põe agora a Francisco um não pequeno problema: “ - Mas por vezes temos muitas vontades ao mesmo tempo, e eu pergunto como pode reconhecer-se a de Deus”. “- É a mais dura – respondeu Francisco, soltando um suspiro” (p. 97).
Esta dureza radical com que Francisco pretende relacionar-se com Deus, e que terá surpreendido o irmão Leão, já tinha merecido assinalado reparo por parte do bom e velhinho bispo de Assis: “- Tem cautela – disse-lhe em tom baixo – tu exageras …” (p. 89).
De facto, encontrar Deus numa abraço a um pecador ou a um pobre, ou sobremaneira encontrá-lo ao abraçar e ao beijar nos lábios um leproso, é realmente um exagero, não é?

3 - Depois de Francisco e Leão terem caído na vertigem de pensarem que Deus poderia ser (só) “a procura de Deus” - como já se disse no texto anterior -, Leão cobriu Francisco “com uma grossa manta de lã, mas ele afastou-a bruscamente, dizendo: “- Quero ter frio”.
Assim procedendo, Francisco escolhe realmente a sua vontade mais dura. Francisco é realmente um exagerado; ele quer mesmo deliberadamente sofrer. Ele quer sofrer … mas não é masoquista! Porque, para si, a dor, o sofrimento, não são fim em si mesmos! Ele quer ter frio e fome e sede … para se abrir e saciar de Deus, sumo prazer ou bem para si, suma felicidade! (ver texto 147).
Mas é no abraço de amor ao pobre ou ao pecador, é ao abraçar um leproso e ao beijar-lhe o rosto a decompor-se, que ele, de si mesmo se esvaziando, neles encontra o seu Deus.

4 – Por certo que Francisco terá conhecido uma famosa passagem de uma carta atribuída ao apóstolo João, a quem se atribui também o mais espiritual ou o menos terreno dos quatro evangelhos canónicos. Passagem em que, num contexto em que se inculca a importância e a urgência do amor, se formula a seguinte pergunta: “quem não ama a seu irmão, que vê, como pode amar a Deus, que não vê”? Mas já um pouco atrás, na mesma carta, se tinha dito que nós só podemos conhecer Deus se cumprirmos o amor ao próximo.
Na realidade, o que está fora do âmbito do nosso conhecimento, que sempre nos começa nos nossos sentidos, não faz parte do nosso mundo, não existe para nós. Por isso é que Deus não existirá para nós, por não conhecido, se não amarmos o próximo. Ele é amor, e só no amor ao próximo, que vemos, o podemos conhecer e trazer para habitar no nosso mundo.

domingo, 21 de abril de 2013

148 - Sobre o Pobre de Assis


1 - Olá, amigas e amigos! A eleição de um papa com o nome de Francisco – nome pela cúpula eclesiástica esquecido e nunca usado para tal efeito – dá-nos ensejo para revisitarmos um muito belo romance de Nikos Kazantzaki, em português com o título S. Francisco de Assis, (Arcádia, s.d., Lisboa), mas, na edição original francesa, com o menos pretensioso título Le Pauvre d’Assis, saído a lume em 1957. E como é um livro sobre essa cativante figura, é de todo natural que também nele se fale muito de Deus.
Quase logo ao princípio, já caminhando com Francisco e os dois andando já à procura de Deus, o companheiro Leão, aqui também narrador, pergunta a Francisco: “Como te aparece Deus quando te encontras só, na obscuridade”? E o “Pobrezinho” responde: “Como um copo de água fresca, irmão Leão (…) Tenho sede, bebo a água desse copo e fico dessedentado para a eternidade”. “E alguns anos mais tarde” – conta Leão logo a seguir e em prolepse narrativa – Francisco continua a dizer-lhe o que Deus é: “Deus é um incêndio, meu irmão”. (p. 22)
E um pouco mais adiante na narrativa, Francisco vai dizer ao companheiro, sobre Deus, algo tão importante quanto surpreendente: “Quem sabe – murmurou ele depois de um curto silêncio – se Deus não é justamente a procura de Deus”! (p. 34)

2 - Bem sabemos que o grande responsável por tudo o que se escreve na obra é o seu autor e criador, que, por isso, põe muito da sua subjectividade (mera subjectividade ou mesmo convicções) naquilo que as personagens vão dizendo e fazendo. Ainda assim, ele põe na boca da personagem principal esta quase afirmação arrojada, por, na boca dela, não a achar disparatada mas verosímil.
É claro que, logo a seguir, o autor não deixa de pôr surpresa e sobressalto nas duas personagens em virtude do que acaba de se afirmar, surpresa e sobressalto bem evidentes naquilo que faz narrar ao narrador e companheiro Leão:
“Estas palavras sobressaltaram-me. Também Francisco teve medo, pois que escondeu a sua face entre as mãos.
- Que demónio fala pela minha boca? – gemeu ela, desesperadamente.
No que me respeita, tremia, preso de estupefacção. Deus seria a procura de Deus? Calámo-nos. Os olhos de Francisco tinham-se fechado. As suas faces tornaram-se vermelhas e os dentes entrechocavam-se”.

3 - Tais surpreendentes palavras, da autoria de Nikos e aqui surpreendentemente atribuídas a Francisco, têm hoje, entre nós, perfeito cabimento. De facto, Deus, muito embora possa ser de facto mais, terá de ser também e sobretudo esta procura por ele; é estarmos despertos para o procurar; é perguntar; deve ser sobretudo duvidar, já que a dúvida é o nosso principal alimento mental. Quando deixarmos de o procurar, por já termos absolutas certezas, ele irá fugir-nos de entre os dedos da alma, esfumar-se-á, desaparecerá. E se algo ficar, isso serão ídolos. Mas vale a pena essa demanda, vida fora, como já aqui foi dito de forma mais ou menos velada em vários sítios, de forma muito explícita no texto 18 – Conversando com Francisco (ou José).

sábado, 20 de abril de 2013

147 - Entre o Prazer e a Dor


Entre o Prazer e a Dor,
 com o Apoio da Virtude

Vivemos a nossa vida
entre o prazer e a dor;
e não sendo só animais
mas sim também racionais,
sabemos unir os dois,
com o hábito da virtude.

Na ampla sala da alma
o espírito vê e ouve
a ressoarem as paixões
que a ela sobem do corpo
pedindo instando rogando
prazeres, ou, ao contrário,
aborrecendo repelindo
abominando dores.

Mas o impassível espírito,
sobrevoando a vida,
vida havida e por haver,
diz ao corpo que há prazeres
que levam a grandes dores
e que há dores a conduzirem
a prazeres muito maiores.

Chegamos assim à virtude,
hábito virtude ou calo,
que ajuda a vencer as dores
E a bem soarem as cordas
da guitarra que é a vida.

Prazer sim, pois, só prazer,
Mesmo que à custa de dores
bem vencidas p’la virtude,
prazer que seja total,
 do corpo e espiritual.

Nota: Dedico este texto a José Reis, meu irmão, a quem devo o melhor desta doutrina. Obrigado. João

quinta-feira, 11 de abril de 2013

146 - Papa Francisco


Olá, Papa Francisco!
Papa ou Papá ou Paizinho
ganha tudo sempre o mesmo carinhoso sentido,
e por isso,
Olá, Papá Francisco!
E quanto a este nome,
não podias ter escolhido melhor
porque é nome de paz e de pobreza.

Parece então que, neste caso e neste canto do universo,
- canto de um grãozinho só de areia nessa imensidão -
as coisas irão começar a mudar para melhor,
não sem estranharmos porque é que só agora
e só vindo lá do fim do mundo,
tenha alguém tido a lembrança de escolher para si
o nome desse querido e amado “Poverello” de Assis.

Bem andaste também em te chamares
só bispo ou patriarca de Roma
e não Sumo Pontífice universal
ou suma e única ponte entre o céu e a terra.
Será por tu também considerares
que aquele “Tu és Pedro e sobre esta pedra …”de Mateus, 16
lídimas palavras de Jesus não serão,
por ele ter tido coisas mais importantes para dizer?

Nunca aceites esse centralismo de poder
nem tão pouco a costumada e antiga pompa romana,
perante os quais os pobres e pequeninos, como nós,
até se sentem aniquilados:
faustosos rituais carros blindados palácios grandiosos
passadeiras vermelhas cúpulas e naves loucamente excessivas escândalos intrigas de dignitários e de sexo  e de dinheiro,
grandeza em tudo menos na virtude.
Por isso, nunca deixes de viver como se ainda
estivesses no teu apartamento, lá no fim do mundo,
duas assoalhadas e uma cozinha breve
para preparar o teu passadio.

Sabes o que é a Libor? E os filtros
para descobrir manipulações fraudulentas?
Não? Não importa! Terias de ler, muito atento,
o “Livro dos Batoteiros dos Mercados Financeiros”,
mas a tua Bíblia é outra.
Não obstante, pobre e simples como és e com palavras certeiras,
muito ajudarás a desbancar os descomandados mercados,
esses cães perigosos sem açaime nem trela.
E se isso vier a acontecer,
até os descrentes te chamarão Paizinho.
Porque o que mais crentes e não crentes em ti apreciamos
são esses gestos ressumbrantes de sentido,
é esse concreto amor à paz e à pobreza:
não à pobreza que é não ter o suficiente para viver,
mas à pobreza que nos limpa da cizânia da cobiça
e no íntimo nos faz limpos e senhores de nós mesmos e da Terra.
Um xoxo para ti, Papá Francisco,
como o que deste à tua Kirchner,
em troco de rezares por todos nós,
que entrámos em tempos de apocalipse.

terça-feira, 9 de abril de 2013

145 - Políticos



Dos políticos
a retórica
ainda dá para impressionar
mas já não dá para convencer

Se não mostrarem obra
e compromisso social
não vão lá
não podem ir

Começando logo pelo(a)s jotinhas

Promover o bem-estar
na comunidade humana
é o seu dever e arte

A política não é carreira
mas missão

Não há função mais nobre
entre os humanos

segunda-feira, 8 de abril de 2013

144 - As Quatro Estações


Na Natureza despida,
Primavera anunciada
foi agora prometida
mas não é ainda chegada.

Seu equinócio é uma carta,
recebida antes de enviada,
antes muito de estar escrita,
não sabemos se pensada.

Que faremos do Verão,
se acaso nos vier,
e do Outono dos frutos,
se não os houver p,ra colher?

Nunca tão vária e curta
nos foi outra Primavera.
Será que após longo Inverno,
virá luz de nova era?

quinta-feira, 4 de abril de 2013

143 - Não Caia ao menos a Alma na Latrina


Olhando lá do Olimpo, Zeus
viu-a despida e bela numa praia
de um claro país morno do sul,
logo se decidindo a descer à terra
para cativar Europa,
essa jovem de muitos e apetecíveis atributos.
E com tais artes e manhas a rodeou e envolveu,
que dela veio a ter vários filhos,
no meio de muita festa … e gozo.

Mas logo que essa amada entrou de envelhecer
- suas graças dando em murchar
e a perderem o sabor intenso
de um bom e velho vinho do sul -
o volátil e volúvel deus,
já roído de saudades da divinal ambrósia e de regaços divinos,
subiu sem retorno ao Olimpo,
deixando entregue a sua amásia aos desavindos filhos,
à erva daninha e ao tojo, aos bichos.

Até que um destes, lá do setentrional “gado soberbo”,
mais um seu satélite de nome indecifrável
- não se chegando à frente os descendentes do sul
para protestarem e baterem o pé aos do norte –
dominaram à solta essa velha de rugas
e toda a sua descendência:

Viola-se o direito à propriedade privada
dos filhos dessas terras  do sul,
no que toca às suas suadas economias;
perde-se a confiança no sistema financeiro,
as devendo acolher e fazer circular
para crescimento das nações;
co-responsabilizam-se também os depositantes
pelas imparidades e outras aldrabices de banqueiros.

E então, isto sendo assim
- nada na Europa se fazendo bem
e tudo se fazendo mal e até péssimo -
isto sendo miseravelmente assim
e com os nossos mudos ou até aplaudindo,
teremos de nos valer de  uma última consolação,
por um homem cá do sol e do sul imaginada,
o qual foi condenado à morte
por um rei vindo do norte.

Assim,
para que ao menos a alma não nos caia na latrina
- caia muito embora o corpo, pois, mas a alma nunca -
roguemos a esse quase são Boécio antigo,
ilustre sábio do sul,
apoio e consolo para os restantes dias da vida:
condenado por esse ostrogodo real
e metido inocente na masmorra até ao fim,
ele soube encontrar consolo e abrigo
só na acção do seu livre pensar
e no íntimo e doce fruto do seu livre pensamento.