(No balcão de entrada há réguas e esquadros, fitas métricas e tesouras.
Ao fundo, sentado a uma mesa de vidro, um oficial de barbearia conta moedas de
ouro, que brilham à luz crua da loja. Ao lado do oficial, há uma menina pequena
pondo a mão esquerda no braço direito dele, enquanto chucha num dedo da mão direita.)
Senhor Primeiro – Bom dia, senhor!
Oficial de barbearia - Bom dia, Senhor! Em
que poderei servi-lo?
-
Olhe aqui: eu preciso que me faça um corte de cabelo ao Estado, no valor de 4
mil milhões. Pode ser?
- Claro que pode
ser, meu amigo! Estamos aqui para o servir!
- Espero que o
senhor seja competente para fazer o corte. Olhe que é muita responsabilidade:
trata-se de refundar o Estado!
- Com certeza, Senhor Primeiro! E
quanto à competência, olhe que nós temos longa e larga experiência nessas
operações.
- Mas o senhor
está a falar da experiência da firma que serve, mas não da sua própria. Que
credenciais pode apresentar, para me provar a sua competência?
- Creio que
bastará dizer-lhe que eu próprio vivi intensamente a explosão da recente crise
financeira que estalou na América e vi com os meus olhos o poderoso Lehman
Brothers a descer aos infernos. Quer mais credenciais do que estas?
- Ah, não! Estou a
ver que essas são muito significativas! Então, vamos fazer isto?
- Mas olhe que
isso tem de ser muito bem pensado, de preferência com os parceiros sociais e
políticos do seu país. Em vez de ter já na cabeça uma determinada conta a
cortar, seria conveniente ter um plano, ter uma visão global do problema, para
depois definir a quantia do corte. Não o fazer deste modo, pode ser uma grande
tolice.
- Mas deixe-me
dizer-lhe, meu amigo, deixe-me dizer-lhe que eu tenho urgência neste corte de
cabelo. Preciso de entrar em cheio na refundação do Estado!
- Senhor Primeiro, olhe
que só com uma boa combinação de cortes se pode potenciar um bom efeito de
conjunto! Se eu cortar o cabelo na nuca e não for aos parietais, se eu cortar à
frente e não atrás …
- Deixe-me
dizer-lhe, deixe-me dizer-lhe que essa combinação que refere é importante, mas
ela pode ser feita rapidamente e muito bem por você e pelos seus colegas, não é
verdade? Eu também posso ajudar. Tenho pressa!
(E despediu-se, deixando a sós, na loja, o oficial e a menina pequena.)
Menina Pequena – Ó pai, tu chamaste “tolo” a este homem, não chamaste?
- Não, filha, não chamei! (E agora falando baixinho e a sós consigo
mesmo e com os seus botões dourados) Mas acontece que, nestes assuntos, há
estados de alma que raiam a demência! Às vezes a minha língua, pela força da
verdade, atraiçoa-me. Em termos profissionais, porém, eu devia resistir sempre a
essa traição.
Sem comentários:
Enviar um comentário