domingo, 4 de novembro de 2012

105 - Estado, Pessoa de Bem



1 - Olá, amigas e amigos! As palavras em epígrafe parecem constituir uma afirmação, mas, na realidade, elas formulam uma pergunta. E a pergunta é: será que o Estado é mesmo uma “pessoa de bem”, como nos costumam inculcar?
Mas falemos primeiro só de “Estado”, deixando para depois essa “pessoa de bem” que dizem ele ser. O que é o Estado? Em termos muito gerais, o Estado é uma entidade abstracta representada por algumas pessoas, com a qual entidade muitas pessoas fazem um contrato social que as torna todas cidadãos da mesma cidade (as cidades-Estado) ou nação, e pelo qual as duas partes assumem reciprocamente direitos e deveres. O Estado não nasce com as pessoas mas é, desde o princípio, uma criação delas.

2 – Que é uma criação das pessoas vai ver-se já por este pedacinho de história política. Um cidadão inglês – Hobbes de seu nome (1588-1679) – afirma que os seres humanos são naturalmente depravados, a ponto de cada um ser lobo para os outros. Assim, diz ele, só com um Estado eles poderão socializar-se e conviver. Mas para um cidadão francês, chamado Rousseau (1712-1778), os seres humanos são naturalmente bons e a sociedade é que os estraga. De maneira que, diz ele ainda, só com um contrato social que fazem com o Estado, eles poderão viver em sociedade. Os dois pensadores, portanto, cada um à sua maneira, justificam a existência do Estado, já que os indivíduos precisam dele. E porque precisam, criaram-no e, quando necessário, reformulam-no.

3 - Falemos então da tal “pessoa”, e “pessoa de bem”, que dizem ser o Estado para nós. Antes de mais, ser o Estado uma “pessoa”.
Já para aquele Hobbes acima referido, como nos diz Scruton, a “comunidade política” é uma espécie de organismo que nasce, cresce e morre; mas quem primeiro concebeu o Estado propriamente como pessoa parece ter sido o também já citado Rousseau, o qual depois veio a inspirar no mesmo sentido o alemão, ou melhor, o prussiano Hegel (1770-1831). De facto, para este último, a comunidade política, tal como uma pessoa, tem uma vontade própria, possui razão, tem direitos e deveres. Mas ainda diz mais: diz que o Estado tem direitos que uma pessoa vulgar não pode ter, como é o direito de exigir a morte de cidadãos. É que, para Hegel, que foi considerado o filósofo do Estado prussiano, o Estado é a grande incarnação da razão e da ideia absoluta, doutrina esta que, para desgraça do mundo, irá desembocar na estatolatria, que, como sabemos, tão horrendas consequências teve para a Europa no século passado.

4 – Que dizer agora daquele “de bem” que qualifica a pessoa que é o Estado, portanto “Estado, pessoa de bem”? Sem dúvida que este não poderá ser um Estado-pessoa à maneira de Hegel, para fazer as coisas horríveis que esse Estado já fez.
Somos uma sociedade organizada, uma sociedade política; precisamos de um Estado que seja realmente uma “pessoa de bem”, que portanto cumpra honradamente o contrato social celebrado com os cidadãos. Precisamos de um Estado, mas o Estado é para nós e não nós para o Estado! Porque é que o nosso Estado não se propõe renegociar a sua e nossa dívida? Note-se que se trata da renegociação dos juros e não propriamente da dívida-base que, honradamente, temos sempre de pagar!
Um Estado que descura o desenvolvimento do país e só acentua a austeridade, que não cumpre a Constituição da República que é o contrato social que fez com os cidadãos, e que, na apertada situação em que estamos, não pede aos credores uma honrada renegociação dos usurários juros bem como uma dilação da maturidade da dívida, como sugere Cadilhe (Expresso, 20-10-12), não poderá ser considerado uma “pessoa de bem”, pois não cumpre a sua função.

Sem comentários:

Enviar um comentário