quarta-feira, 28 de novembro de 2012

112 - O Fisco e as Vespas



O fisco é semelhante
a um enxame de vespas
os dois muito impertinentes
muito perigosos os dois

Quando atacam uma presa
por todos os lados a descoberto atacam
para espetarem o ferrão
sem dó nem piedade ferram

Semelhantes mas não iguais pois que

Pior ainda é o fisco porque pode
rapinar também as calças e a camisa
tudo ficando ao léu para ferrar
levando também a roupa para cobrir
a falida e pálida nudez
da figura do Estado

domingo, 25 de novembro de 2012

111 - Bebés


Marta está de esperanças
e como não as deseja
recorre ao hospital
e todo o serviço é gratuito.

Rosa está de esperanças
ardentemente desejadas
mas advindo-lhe problema grave
vai também ao hospital
não sendo gratuito, neste caso, o serviço.

Não há políticas para se reporem gerações
um desastre social está iminente
incluída a perda de identidade nacional.

É por isso que
uma ave canta no ventre da alma
da Rosa que não tem medo do futuro.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

110 - Da Imbecilidade ou Fraqueza de Sexo


1 - Olá! Sabem porque é que, em termos linguísticos, o báculo dos bispos e a imbecilidade estão intimamente relacionados? Não que aos bispos se deva atribuir a imbecilidade, por si mesmos ou pelo báculo que usam! É até precisamente o contrário.
Então, é assim. Na língua latina, língua mãe da nossa língua, havia a palavra baculum, que significava pau, da qual se formou o diminutivo bacillum, que queria dizer pauzinho (um bacilo é um micróbio com a forma de um minúsculo pauzinho), de onde se originou o qualificador imbecillus ou imbecillis que, por oposição a valens ou firmus (valente ou firme), tinha o significado de fraco, sem força, sem apoio, sem pau, tudo sentidos referidos tanto ao corpo como à mente. Deste qualificador, ainda em latim, não tardou a formar-se a palavra imbecillitas, naturalmente com o significado de fraqueza (de corpo e ou mente), com base na qual o direito romano cunhou a expressão “imbecillitas sexus” (imbecilidade ou fraqueza de sexo), figura jurídica pela qual, às senhoras, são diminuídos ou limitados os direitos, por comparação com os homens, os quais portanto, em termos de sexo e na perspectiva do direito romano, não costumam ser imbecis.
Agora, quanto ao báculo dos bispos, a sua força ou firmeza advém-lhe de ele ser, em suas mãos, o símbolo da autoridade ou firmeza jurídica, doutrinal e pastoral, em relação aos crentes que lhes são confiados. Crentes que, portanto, ao contrário dos bispos, têm necessidade de ser confirmados na fé … por serem débeis, por não serem firmes, por não serem “autó-nomos”. Porque se fossem autónomos, sabiam orientar-se pela sua própria lei.

2 – Num contexto económico e social em que nenhum trabalho era mecanizado e portanto quase tudo na vida tinha de ser feito a poder da força física, era natural que a sociedade concedesse maior valia ao homem, e ela própria, a sociedade, fosse mesmo mais ou menos patriarcal. Mas isso acontecia, principalmente, não em razão de o homem ser dotado de maiores competências mentais, em comparação com a mulher, mas precisamente em virtude da sua força física.
Mas isso era num passado cada vez mais distante. Porque hoje, com o trabalho quase todo mecanizado - e muito embora vivendo nós numa sociedade ainda com laivos de regime patriarcal, -, as mulheres, já em completa igualdade jurídica com o homens, podem ocupar e ocupam mesmo lugares de relevância nos mais variados sectores da vida nacional. As meninas constituem a maioria e com melhores resultados nas escolas secundárias e universidades; na vida política, nas empresas, na administração pública, no ensino em todos os graus, nas magistraturas e em praticamente todas as outras profissões, as mulheres desempenham o seu papel com igual ou até maior competência e dedicação que os homens; elas ocupam mesmo lugares de topo, como é o caso do Ministério Público, do Ministério da Justiça, da Assembleia da República e até da Universidade Católica, se bem que, neste último caso, ainda tenha sido necessário pedir a aprovação da Santa Sé.

3 – Assim se constata que as altas cúpulas do poder religioso ainda não são acessíveis às senhoras.
Mas, se as religiões do Livro tivessem sido implantadas, não em sociedades patriarcais mas em sociedades matriarcais e continuassem a vigorar em sociedades ainda com alguns vestígios de matriarcado, tais religiões não seriam bem diversas do que são hoje? Se isto tivesse acontecido (porque seria possível), teria sido a Deusa Grande Mãe - não por império da vontade e da palavra, mas de forma natural e silenciosa como é própria de uma mãe -, a gerar todas as coisas e o primeiro par humano; teria sido também ela a inspirar e a acompanhar os humanos ao longo de todo o Livro e para além dele, talvez até com muito menos conflitos nessa longa história dos povos, sempre numa perspectiva matriarcal. Assim, até a concepção trinitária da Divindade seria diversa: primeiro dois nomes femininos, sendo que o terceiro permaneceria, por já transcender os dois géneros existentes na humanidade.
E se, nesta hipótese de os humanos terem vivido em sociedades matriarcais e ainda vivêssemos nelas embora já só com laivos desse tipo, e agora estivéssemos em condições de ter à frente da Universidade Católica um homem reitor e não uma senhora reitora como teria sido a tradição até aqui, quem nos teria concedido, na Santa Sé, essa aprovação? Já um religioso homem, ou ainda uma religiosa senhora? Talvez que, se fosse ainda senhora, de todo não seria necessário procedermos à referida diligência!
 Mas, fosse tudo de uma maneira ou doutra, nada do que é essencial à religião mudaria.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

109 - As Boas Utopias


1 - A propósito de “A Esquerda Radical” e porventura também da Convenção do Bloco de Esquerda que viria no dia seguinte (Expresso, 11-11-12), Henrique Monteiro escreve: “O que a mim me interpela é haver ainda quem, de forma genuína – quero crer -, acredite em ideais salvadores organizados a partir do Estado; em sociedades igualitárias impostas sem ditaduras (assim o dizem); em utopias que, quando foram levadas à prática, acabaram em regimes autocráticos ou terroristas, baseados em oligarquias e – sem qualquer exceção – no empobrecimento geral e súbito dos cidadãos”.
E depois de dizer que “o corte da direita com o fascismo se manteve total depois da II Guerra”, acrescenta: “aceitamos hoje a extrema esquerda como nunca aceitámos a extrema direita”. E, de facto, na nossa Assembleia da República – dizemos agora nós – mais à direita da direita conservadora e democrática nada existe, enquanto que as esquerdas à esquerda do P.S. defendem ideais utópicos que, na prática, ou ainda não foram testados, ou, tendo sido, deram naquilo que H.M. refere.
Ponto importante é que o Estado seja para os cidadãos e não os cidadãos para o Estado; portanto, eles é que decidirão sempre quanto e qual Estado querem, sempre só na medida das possibilidades reais e democráticas.

         2 - Mas há utopias que vale a pena alimentar, ainda que só, por enquanto, como referências utópicas: a de se eliminar o salteador capitalismo financeiro; a de o dinheiro ser considerado o sangue das nações e portanto ninguém poder dele usar com usuras; a de os políticos serem todos honestos e terem eles o poder de promover e distribuir esse sangue, começando pelas pessoas mais carenciadas; enfim a de o ser humano deixar de ser lobo dos outros seres humanos, mas irmão na humanidade que é pertença de todos.
Alimentar estas utopias, ainda que por enquanto só como referências utópicas, sim senhor, mas a concretizar mesmo num futuro mais ou menos longínquo. Porque estas utopias, se levadas à prática, não gerarão ditaduras nem empobrecimento dos povos, mas irão robustecer as democracias e a riqueza material e espiritual das nações (ver texto 87).

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

108 - Já Lá Dizia Luís Vaz


1 - Olá, amigas e amigos! Lembram-se daquele Luís Vaz que espalhou a nossa glória por todas as nações, não lembram? Daquele que, com engenho e arte - isto é, com habilidades naturais mas também com as qualidades adquiridas da arte e do talento –, cantou e espalhou por “toda a parte” a nossa gesta marítima da Índia e, a par dela, toda a nossa história pátria até então?
Pois é! Ele cantou, mas também chorou! Também chorou e lamentou grandes desmandos em que já nessa altura andávamos metidos. Ora vejam, por exemplo, logo no final do primeiro canto (estrofe 106); vejam aí o poeta que, para fugir da alta procela que eram as dificuldades e perigos por que passava – a qual para nós hoje são sobretudo a gula dos mercados e a ganância do Estado – se lamenta e pergunta: “onde pode acolher-se um fraco humano, / onde terá segura a curta vida, /que não se arme e se indigne o céu sereno / contra um bicho da terra tão pequeno?”
Ele canta, sim, canta e espalha a boa fama de “as armas e os barões assinalados”, mas de todo não canta e só lamenta aqueles que sucumbem em indignidades, como se vê no canto sétimo (84-86): “Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse / a quem ao bem comum e do seu rei / antepuser seu próprio interesse, / immigo da divina e humana lei…// …Nem quem …veio, / por contentar o rei, no ofício novo, / a despir e roubar o próprio povo! // Nem quem acha que é justo e que é direito / guardar-se a lei do rei severamente, / e não acha que é justo e bom respeito / que se pague o suor da servil gente; nem quem cuida que é prudente taxar, com mão rapace e escassa, os trabalhos alheios que não” sabe avaliar com justiça.
Porque, na verdade, já então, como se vê no final do canto oitavo ( 96-99), o que o poeta mais lamenta na pátria é o muito que “pode o vil interesse e sede immiga / do dinheiro, que a tudo nos obriga”. O dinheiro e também o ouro, esse “avaro vício”, esse “metal luzente e louro”, esse que “faz traidores e falsos os amigos;/ “a mais nobres faz fazer vilezas”, “corrompe virginais purezas”, “os juízos cegando e as consciências”.

2 - Com tudo isto, não é que o vate despreze o dinheiro e o ouro, em si próprios. O que diz é que, por serem tão tentadores, por criarem nos humanos tanta fome e tanta sede de cobiça, eles facilmente corrompem, como já então acontecia. E tanto que, já quase no final do canto décimo, o poeta parece desanimar no intento do seu canto: “Não mais, musa, não mais, que a lira tenho / destemperada e a voz enrouquecida, / e não do canto, mas de ver que venho / cantar a gente surda e endurecida. / O favor com que mais se acende o engenho / não no dá a pátria, não, que está metida / no gosto da cobiça e na rudeza / de uma austera, apagada e vil tristeza” (145).
Do abismo do desânimo, porém, ele ainda se levanta no final do poema, para incutir coragem ao rei – o imberbe reizinho Sebastião -, ao rei e à sua e nossa nação de então, para continuarem essa gesta heróica, não fosse acontecer aquilo que não podíamos permitir: “Fazei, Senhor, que nunca os admirados / alemães, galos, ítalos e ingleses, / possam dizer que são para mandados, / mais que para mandar, os portugueses” (152).
Parece que, realmente, em Alcácer-Quibir, o reizinho não cumpriu este pedido heróico e muito menos agora ele se poderá cumprir – não mandássemos agora nós em ninguém, não fossem mesmo os outros a mandarem em nós.

3 - Acima de todos, entre os mandantes, está esse monstro de mil cabeças que dá pelo nome de capitalismo selvagem, esse demónio que, com todos os seus oficiantes, põe as naus das nações a pique, sugando-lhes o sangue. Porque o dinheiro, como já noutros lugares ficou dito (texto 73, por exemplo), é o sangue das nações, com o qual, por ser sangue, não se pode negociar, pelo menos com usura.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

107 - No Cabeleireiro de Nações & Associados



(No balcão de entrada há réguas e esquadros, fitas métricas e tesouras. Ao fundo, sentado a uma mesa de vidro, um oficial de barbearia conta moedas de ouro, que brilham à luz crua da loja. Ao lado do oficial, há uma menina pequena pondo a mão esquerda no braço direito dele, enquanto chucha num dedo da mão direita.)

Senhor Primeiro – Bom dia, senhor!
Oficial de barbearia -  Bom dia, Senhor! Em que poderei servi-lo?
                            - Olhe aqui: eu preciso que me faça um corte de cabelo ao Estado, no valor de 4 mil milhões. Pode ser?
                            - Claro que pode ser, meu amigo! Estamos aqui para o servir!
                            - Espero que o senhor seja competente para fazer o corte. Olhe que é muita responsabilidade: trata-se de refundar o Estado!
                            - Com certeza, Senhor Primeiro! E quanto à competência, olhe que nós temos longa e larga experiência nessas operações.
                             - Mas o senhor está a falar da experiência da firma que serve, mas não da sua própria. Que credenciais pode apresentar, para me provar a sua competência?
                             - Creio que bastará dizer-lhe que eu próprio vivi intensamente a explosão da recente crise financeira que estalou na América e vi com os meus olhos o poderoso Lehman Brothers a descer aos infernos. Quer mais credenciais do que estas?
                             - Ah, não! Estou a ver que essas são muito significativas! Então, vamos fazer isto?
                             - Mas olhe que isso tem de ser muito bem pensado, de preferência com os parceiros sociais e políticos do seu país. Em vez de ter já na cabeça uma determinada conta a cortar, seria conveniente ter um plano, ter uma visão global do problema, para depois definir a quantia do corte. Não o fazer deste modo, pode ser uma grande tolice.
                              - Mas deixe-me dizer-lhe, meu amigo, deixe-me dizer-lhe que eu tenho urgência neste corte de cabelo. Preciso de entrar em cheio na refundação do Estado!
                              - Senhor Primeiro, olhe que só com uma boa combinação de cortes se pode potenciar um bom efeito de conjunto! Se eu cortar o cabelo na nuca e não for aos parietais, se eu cortar à frente e não atrás …
                              - Deixe-me dizer-lhe, deixe-me dizer-lhe que essa combinação que refere é importante, mas ela pode ser feita rapidamente e muito bem por você e pelos seus colegas, não é verdade? Eu também posso ajudar. Tenho pressa!
(E despediu-se, deixando a sós, na loja, o oficial e a menina pequena.)
  Menina Pequena – Ó pai, tu chamaste “tolo” a este homem, não chamaste?
                                - Não, filha, não chamei! (E agora falando baixinho e a sós consigo mesmo e com os seus botões dourados) Mas acontece que, nestes assuntos, há estados de alma que raiam a demência! Às vezes a minha língua, pela força da verdade, atraiçoa-me. Em termos profissionais, porém, eu devia resistir sempre a essa traição.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

106 - Uma Limusina Preta



Uma limusina preta
repuxada de lustro
vidros foscos biqueira longa
pelos altos portões do palácio
entra lenta

Sua excelência o primeiro convocou
para assunto urgente e necessário
sua excelência a sua sombra

Sobre a mesa está o Estado
sobre a mesa uns mil milhões
sobre a mesa o impasse

Metido na sua casinha
atiçando o lume no borralho
o povo vê toma nota

a limusina preta o palácio
os milhões e a pobreza
o impasse

Faz frio no país
 o povo sente
 o povo vê toma nota

domingo, 4 de novembro de 2012

105 - Estado, Pessoa de Bem



1 - Olá, amigas e amigos! As palavras em epígrafe parecem constituir uma afirmação, mas, na realidade, elas formulam uma pergunta. E a pergunta é: será que o Estado é mesmo uma “pessoa de bem”, como nos costumam inculcar?
Mas falemos primeiro só de “Estado”, deixando para depois essa “pessoa de bem” que dizem ele ser. O que é o Estado? Em termos muito gerais, o Estado é uma entidade abstracta representada por algumas pessoas, com a qual entidade muitas pessoas fazem um contrato social que as torna todas cidadãos da mesma cidade (as cidades-Estado) ou nação, e pelo qual as duas partes assumem reciprocamente direitos e deveres. O Estado não nasce com as pessoas mas é, desde o princípio, uma criação delas.

2 – Que é uma criação das pessoas vai ver-se já por este pedacinho de história política. Um cidadão inglês – Hobbes de seu nome (1588-1679) – afirma que os seres humanos são naturalmente depravados, a ponto de cada um ser lobo para os outros. Assim, diz ele, só com um Estado eles poderão socializar-se e conviver. Mas para um cidadão francês, chamado Rousseau (1712-1778), os seres humanos são naturalmente bons e a sociedade é que os estraga. De maneira que, diz ele ainda, só com um contrato social que fazem com o Estado, eles poderão viver em sociedade. Os dois pensadores, portanto, cada um à sua maneira, justificam a existência do Estado, já que os indivíduos precisam dele. E porque precisam, criaram-no e, quando necessário, reformulam-no.

3 - Falemos então da tal “pessoa”, e “pessoa de bem”, que dizem ser o Estado para nós. Antes de mais, ser o Estado uma “pessoa”.
Já para aquele Hobbes acima referido, como nos diz Scruton, a “comunidade política” é uma espécie de organismo que nasce, cresce e morre; mas quem primeiro concebeu o Estado propriamente como pessoa parece ter sido o também já citado Rousseau, o qual depois veio a inspirar no mesmo sentido o alemão, ou melhor, o prussiano Hegel (1770-1831). De facto, para este último, a comunidade política, tal como uma pessoa, tem uma vontade própria, possui razão, tem direitos e deveres. Mas ainda diz mais: diz que o Estado tem direitos que uma pessoa vulgar não pode ter, como é o direito de exigir a morte de cidadãos. É que, para Hegel, que foi considerado o filósofo do Estado prussiano, o Estado é a grande incarnação da razão e da ideia absoluta, doutrina esta que, para desgraça do mundo, irá desembocar na estatolatria, que, como sabemos, tão horrendas consequências teve para a Europa no século passado.

4 – Que dizer agora daquele “de bem” que qualifica a pessoa que é o Estado, portanto “Estado, pessoa de bem”? Sem dúvida que este não poderá ser um Estado-pessoa à maneira de Hegel, para fazer as coisas horríveis que esse Estado já fez.
Somos uma sociedade organizada, uma sociedade política; precisamos de um Estado que seja realmente uma “pessoa de bem”, que portanto cumpra honradamente o contrato social celebrado com os cidadãos. Precisamos de um Estado, mas o Estado é para nós e não nós para o Estado! Porque é que o nosso Estado não se propõe renegociar a sua e nossa dívida? Note-se que se trata da renegociação dos juros e não propriamente da dívida-base que, honradamente, temos sempre de pagar!
Um Estado que descura o desenvolvimento do país e só acentua a austeridade, que não cumpre a Constituição da República que é o contrato social que fez com os cidadãos, e que, na apertada situação em que estamos, não pede aos credores uma honrada renegociação dos usurários juros bem como uma dilação da maturidade da dívida, como sugere Cadilhe (Expresso, 20-10-12), não poderá ser considerado uma “pessoa de bem”, pois não cumpre a sua função.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

104 - Poema do Optimismo e da Cinza


1
Triunfantes filhos do iluminismo:
o excesso de optimismo
o incessante progresso
o exagero na ambição
no sucesso e no mercado
o poder impuro

2
Há o tão olvidado lembrete
és cinza
à cinza reverterás

3
Cinza de estrelas

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

103 - Elogio do Vazio e do Silêncio


Quando se está só
habita-se o vazio e o silêncio.

No vazio e no silêncio
está a fonte da vida;
já todo o pensamento
é ocupação e barulho.

Tanto posso descer ao meu
Eu profundo,
como sentir-me a renascer
desse vazio, em cada agora.

Tudo e todos, no Universo,
estamos sempre saindo do vazio,
mas a ele também regressando
a ele nos acolhendo.

Guardado na concha da memória,
anda o meu eu psicológico:
abstrair-me dele é estar só,
é desaguar no Eu profundo.

Alimentemo-nos de vazio e de silêncio,
percamo-nos nesse imenso Oceano,
quase nos esquecendo que
somos ondas desse mar.

Entrar no santuário do vazio e do silêncio
não é perder tempo, é ir para além dele;
não é ficar ocioso ou fugir à vida:
é encontrar o amor e o saber mais profundos.