1 – Antes de mais, somos
consciência, consciência viva, consciência do mundo, do qual fazemos parte como
acção de consciência facultada pelo corpo; mas, depois, também somos a sua
interpretação, que constitui o conjunto da nossa subjectividade pessoal. A
interpretação é sempre referida ao mundo, a sua tendo cada um de nós:
2.1 – Num gorjeio infindável, no dia
da criança, elas saíram de comboio em visita de estudo até à cidade vizinha, a
cidade dos estudantes. Parou-se em
Fontela A , parou-se em Fontela B ; ah, já sei, diz logo uma menina do
quarto ano do básico, nós vamos sair em Fontela Z , não é?
2.2 – A uma mamã-que-há-de-ser,
debutante mamã, perguntou-se: então, senhora, qual é a sua maior alegria? A minha
maior alegria vai ser o meu filho nascer saudável, e depois ser feliz!
2.3 – Então, amigo, não vai andar
nessa sua bicicleta? Vou, pois, mas agora quero estar aqui sentado a olhar o
mar. Gosta de encher os olhos de mar, não é? Aqui, com 83 anos, diz ele, toda a
minha vida foi o mar. Qual foi, na vida, a sua maior alegria? Olhe, a minha
maior alegria foi ver aqui várias vezes a praia cheia de gente, à roda do meu
peixe, quando eu ia à pesca com o meu barquinho! E a sua maior tristeza?
Tristezas?, respondeu, Ói, tenho tido mais tristezas que alegrias! Mas a maior
foi quando eu caí ao mar, no Inverno, quando andava num barco grande. Havia um
nevoeiro tão denso que até parecia papas! Tive sorte porque os companheiros
conseguiram ver-me cair ao mar. E olhe que, então, ainda nem tinha quinze anos!
3 – A cada um ou uma o seu olhar,
portanto, mas só em comunidade salvamos a nossa comum humanidade. Porque, além
de indivíduos, nós também somos seres sociais e comunitários. Temos de fazer
juntos o nosso caminho de humanidade. Porque só em comunidade podemos confrontar
probabilidades, se não encontrarmos certezas; também produzir e desfrutar da
bondade e da beleza; ainda confortar o coração com a calorosa rede dos afectos.
4 – Em comunidade, somos todos
concelebrantes da mesma nossa humanidade. No altar da vida do mundo, o pão e o
vinho dessa celebração não se vêem, pois são abstractos e espirituais. Não se
vêem, mas vêem-se e saboreiam-se os seus concretos frutos; têm de ver-se e
saborear-se; dar a comer e a beber e a saborear aos outros o pão e o vinho da
vida, como damos a nós.
5 – Esta sociedade materialista e laica
em que vivemos, sociedade sem religião, não pode perder nem negligenciar a
nobre cultura de humanidade, a cultura do espírito. Porque, se agora ela criar
outros deuses terrenos, para além do deus único que é a nossa humanidade
partilhada, então, eles não serão deuses mas ídolos ou demónios que se virarão
contra ela, e tudo caminhará para o abismo.
Sem comentários:
Enviar um comentário