sexta-feira, 5 de outubro de 2012

96 - Concelebrantes da mesma Humanidade


1 – Antes de mais, somos consciência, consciência viva, consciência do mundo, do qual fazemos parte como acção de consciência facultada pelo corpo; mas, depois, também somos a sua interpretação, que constitui o conjunto da nossa subjectividade pessoal. A interpretação é sempre referida ao mundo, a sua tendo cada um de nós:


2.1 – Num gorjeio infindável, no dia da criança, elas saíram de comboio em visita de estudo até à cidade vizinha, a cidade dos estudantes. Parou-se em Fontela A, parou-se em Fontela B; ah, já sei, diz logo uma menina do quarto ano do básico, nós vamos sair em Fontela Z, não é?

2.2 – A uma mamã-que-há-de-ser, debutante mamã, perguntou-se: então, senhora, qual é a sua maior alegria? A minha maior alegria vai ser o meu filho nascer saudável, e depois ser feliz!

2.3 – Então, amigo, não vai andar nessa sua bicicleta? Vou, pois, mas agora quero estar aqui sentado a olhar o mar. Gosta de encher os olhos de mar, não é? Aqui, com 83 anos, diz ele, toda a minha vida foi o mar. Qual foi, na vida, a sua maior alegria? Olhe, a minha maior alegria foi ver aqui várias vezes a praia cheia de gente, à roda do meu peixe, quando eu ia à pesca com o meu barquinho! E a sua maior tristeza? Tristezas?, respondeu, Ói, tenho tido mais tristezas que alegrias! Mas a maior foi quando eu caí ao mar, no Inverno, quando andava num barco grande. Havia um nevoeiro tão denso que até parecia papas! Tive sorte porque os companheiros conseguiram ver-me cair ao mar. E olhe que, então, ainda nem tinha quinze anos!


3 – A cada um ou uma o seu olhar, portanto, mas só em comunidade salvamos a nossa comum humanidade. Porque, além de indivíduos, nós também somos seres sociais e comunitários. Temos de fazer juntos o nosso caminho de humanidade. Porque só em comunidade podemos confrontar probabilidades, se não encontrarmos certezas; também produzir e desfrutar da bondade e da beleza; ainda confortar o coração com a calorosa rede dos afectos.


4 – Em comunidade, somos todos concelebrantes da mesma nossa humanidade. No altar da vida do mundo, o pão e o vinho dessa celebração não se vêem, pois são abstractos e espirituais. Não se vêem, mas vêem-se e saboreiam-se os seus concretos frutos; têm de ver-se e saborear-se; dar a comer e a beber e a saborear aos outros o pão e o vinho da vida, como damos a nós.

5 – Esta sociedade materialista e laica em que vivemos, sociedade sem religião, não pode perder nem negligenciar a nobre cultura de humanidade, a cultura do espírito. Porque, se agora ela criar outros deuses terrenos, para além do deus único que é a nossa humanidade partilhada, então, eles não serão deuses mas ídolos ou demónios que se virarão contra ela, e tudo caminhará para o abismo.

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