terça-feira, 31 de julho de 2012

78.3 a 6 - O Deus dos Místicos

3 - É deveras surpreendente, assombroso mesmo, o que parece passar-se com o místico autor, na sua relação com Deus.
Preterindo os préstimos da razão, ele caminha para Deus só pelo amor, um amor intenso, exclusivo, até ao anelo ou à ânsia. O místico não só não se inquieta em conhecer como nem quer saber de conhecer o seu objecto amado. Mais: ele só acha possível caminhar e amar ou amar e caminhar para o seu Deus … se não O conhecer! É só do meio da nuvem do seu “não conhecimento” de Deus, que o monge pode clamar por Ele, que ele chama por Deus. Que é feito então do espaço e do tempo e do alimento para alimentar a terrena vida deste monge em transe místico, de tudo esquecido e esvaziado, mesmo da razão, só se valendo e ocupando deste nu clamor de amor?
Mas será que o monge prescinde mesmo da razão e do conhecimento? Claro que não prescinde! Nem na sua vida prática do dia-a-dia, nem na sua vida teórica de escrita. Neste último caso, o monge não só escreve esta obrinha de mística, como ainda a escreve – como assinala Mattoso – com uma manifesta intenção didáctica: ele quer ensinar a outros – já iniciados em Deus – o caminho do profundo amor a Deus, nesse ensino descendo mesmo a métodos ou técnicas.
Mas naquele amor mesmo a Deus, que o monge está a ensinar a praticar e já pratica na sua vida, ele prescindirá de facto da razão e do conhecimento? Por outras palavras: é possível amar a Deus, sem antes e ao mesmo tempo o conhecer? Amar a Deus, só através ou metido na “nuvem do não saber”? À primeira vista parece que sim, pois é para isso que aos seus iniciados leitores o monge ensina técnicas repetitivas para habituarem o seu corpo à presença desse Deus. A intensa e demorada repetição dos monossílabos e quase mantras “god-sin-love” levam a isso mesmo! De facto, quando queremos impor hábitos ao nosso corpo, é isso que fazemos: a razão está presente a habituar o corpo, e depois, criado o hábito que de algum modo é sempre uma presença, já a mente se pode ausentar.
Mas será que, com o intelecto da razão – e para além do hábito imposto ao corpo que por si só poderá criar uma presença imaginada – o monge e seus discípulos não terão de se interrogar sobre a nua e real existência de Deus? E mesmo que a dêem agora por adquirida, por essa certeza da real existência de Deus ter sido anteriormente conquistada, não tem ela ainda agora de estar presente nessa conjunta unidade de conhecer/amar ou amar/conhecer? Como pode o monge pedir aos seus discípulos leitores que desejem ardente e vitalmente Deus, sem que previamente tenham dEle notícia e, de algum modo, O conheçam?

4 – Sabido é que muitos pensadores, entre os quais Kant, entendem que, com o intelecto, não se pode chegar à realidade Deus. Também o nosso monge pensa o mesmo, pelo menos em parte: como a sua razão não pode chegar a Deus, ele entende e agora ensina que só pelo amor do coração a Ele podemos chegar. Mas Kant, que, ao contrário do monge, continua a pensar que a razão é fundamental neste assunto de Deus, insiste em dizer que, pela razão, a razão pura, nunca alguém poderá conhecer a Deus, para o amar, por Ele ser um objecto extra-mundano, e por isso não experienciável, de conhecimento. Quando muito, a razão prática, que é sempre mais ou menos domesticável pelo coração e por isso pode com ele assumir compromissos, pode ajudar o mesmo coração no caminho que o leva a Deus. E aqui se abre e começa o caminho da fé em Deus, na qual o coração assume sempre a dianteira, restando para a razão um papel secundário.
É certo que, nem sequer no amor entre dois seres humanos, que implica sempre o recíproco conhecimento, esse também recíproco amor se torna evidente às suas partes, pelo menos para sempre, assim incluindo também uma dimensão de fé. Mas, se aqui a razão prática também colabora, a razão pura porém está alerta, pois que o amor humano, sendo intra-mundano e por isso experienciável, pode sempre reformular-se de acordo com evidências que no caminho possam surgir, não sendo este o caso do amor a Deus.

5 – Parece então poder dizer-se que só pela inteligência – que inclui razão e coração – podemos conhecer/amar e amar/conhecer outro ser humano. E aqui chegados, podemos assumir que a sabedoria é o fruto da inteligência. Porque na sabedoria, para além do saborear experiencial, que é próprio do ser humano-todo e sobretudo do coração, há também a certeza e bem assim a dúvida, que são os dois principais alimentos da nossa racionalidade.
Assim, inteligência e sabedoria são, para o ser humano, muito mais do que simples intelecto e ciência. Enquanto a ciência é promovida e interessa só à razão, mais definidamente ao intelecto, a inteligência e a sabedoria são promovidas pelo ser humano como um todo, ou seja, pela razão e pelo coração.
É de relevar aqui o que atrás já foi dito embora só de passagem (ponto 1), sobre inteligência e contemplação. Depois de se considerar que o nosso anónimo autor e outros autores místicos preferem o amor, em detrimento e até com exclusão da razão, na sua relação com Deus, depois disso, com as próprias palavras de Mattoso se afirma que, para estes místicos, a inteligência comparece e é fundamental na contemplação. Portanto não se diz genericamente que é a razão que está presente, mas sim a inteligência. Porquê? Precisamente porque a inteligência, que leva à sabedoria, é elemento racional que já inclui o amor! Com a inteligência, o amor é conhecimento e o conhecimento é amor. Sabedoria é conhecimento gostoso, bom para eu viver.
A sabedoria é um labirinto? De facto, é! Mas parece que tanto mais será labirinto quanto menos é sabedoria; e tanto mais será sabedoria, quanto menos é labirinto! A sabedoria será sempre labirinto, mas quanto menos labirinto melhor. Porque, se queremos ser sábios, é para nos encontrarmos e não para nos perdermos. Um homem sábio é aquele que se encontrou e continua encontrado, em relação a si e às suas circunstâncias.
 “Levantar o Céu”, ou levantar a Terra? Então o espírito e seus produtos não são do céu? Mas um genocídio, por exemplo, não é um produto congeminado no espírito? Por outro lado, o ser humano é humano por nascer do húmus da Terra, ou por nascer do Céu? Quando se fala por metáforas, não é para deixar tudo no vago?

6 – Em “A Nuvem do Não-Saber”, há o silêncio, há a escuridão e há a falta de sinais. Mas tendo em atenção a bipolaridade do mundo, e sobretudo a força da fé, talvez tudo possa ser mudado. Na falta de sinais, pode encontrar-se o sentido; na escuridão, pode encontrar-se a luz; no silêncio, poderá ouvir-se a palavra mansa e doce do Invisível.
Em comparação com o deus dos teólogos e das instituições religiosas, um deus esquartejado em seus divinos atributos, o Deus místico é um Deus inteiro e “nu”, isto é, um Deus despido de aderências racionais, um Deus enxuto, simples, humilde, um Deus doméstico e familiar, pressentido assim no meio da escuridão e do silêncio.
E no entanto, quem será que vemos? Deus ou nós mesmos, na nossa pobreza e plenitude humanas? Será que é no silêncio, na escuridão e na falta de sinais, que nós encontramos Deus, ou é aí que … nos encontramos melhor a nós mesmos? Não é muitas vezes no silêncio, que mais nos sentimos acompanhados? E na escuridão, que melhor sentimos a luz? E na falta de sinais, que mais sentimos o sentido da vida, se é que ela há-de ter um sentido? Não é na “Nuvem do Não-Saber”, que mais nos encontramos a nós mesmos? Não aconteceu já isso com o Sócrates ateniense? Não é com a mente vazia e limpa de todos os conhecimentos que, em Krishnamurti, se alcança a compreensão global, feita de inteligência que já inclui o amor? Sermos consciência de algo, ou mesmo do Universo, não é antes de mais sermos nada?
No entanto, embora muitos humanos não compreendam a vida que levam os monges, o caso é que, mesmo assim, eles devem se considerados sábios, sábios de uma autêntica sabedoria. Esse é um caminho, entre outros, pelos quais os humanos podem encontrar e praticar uma autêntica sabedoria de vida. 









quinta-feira, 26 de julho de 2012

78. 1 e 2 - O Deus dos Místicos


1 Olá! No muito belo livro “Levantar o Céu – Os Labirintos da Sabedoria”, do professor José Mattoso, recolhe-se um texto seu que constituiu o prefácio de um livrinho que, em versão portuguesa, leva o título “A Nuvem do Não-Saber”, escrito em finais do século XIV. O autor deste livrinho é anónimo: ele quis esconder-se, ou, pelo menos, não se conhece. Quando muito, poderá pensar-se, com certa segurança e de acordo com a opinião de Mattoso, que se trata de um Walter Hilton, um monge inglês da Regra de Santo Agostinho.
Deveras surpreendente é o livrinho, e por muitas razões: desde logo pelo seu título, também pelo tom familiar de escrita, ainda pela autoridade e segurança com que é escrito e proposto a outrem, também pelo conteúdo e pelas técnicas ou truques que propõe, e finalmente pela intenção de o autor escrever só para iniciados, assim pondo o texto a recato, longe de vistas profanas.
Considerada “um dos mais belos textos místicos de todos os tempos”, ou “um dos mais belos tratados espirituais de todo o século XIV”, esta obrinha, começando por ostentar um título misterioso e porventura um tanto esotérico, flui lá dentro, como observa Mattoso, num texto “simples, directo, coloquial”, falando “de Deus e da oração”. Texto simples, mas sempre tecido numa linguagem ricamente poética, onde não faltam, começando pelo título, expressões que nos surpreendem, sobremaneira pela sua originalidade metafórica.
         Seguindo de perto o professor Mattoso – não só por nestas matérias ser reconhecidamente competente em termos teóricos e vivenciais, mas ainda porque não pudemos ter acesso à obrinha –, aqui deixamos algumas dessas originalidades textuais que vão nascendo do monge autor para chegarem ao discípulo leitor: “toda a tua vida deve ser, por completo, um desejo”; ”dispõe-te a permanecer na escuridão”; “Deus adapta-se à nossa alma”; a “nuvem do não-saber” é “aquilo que se encontra entre ti e o teu Deus”; procura “pensar no próprio ser nu de Deus”.
         Ao longo dos curtos capítulos do livrinho, longe de pretender ensinar conteúdos doutrinários, o que o autor verdadeiramente intenta é, baseado na sua própria “experiência vivida” que lhe dá autoridade para ser mestre e ensinar, apontar-nos um caminho e convidar-nos a percorrê-lo, sem demorar na explicitação de muitas regras a cumprir. O que é preciso é penetrarmos na “nuvem do não-saber”, aí encontrando então o próprio Deus, que é o nosso objecto de insaciável desejo e amor.
         Mas o quê? Encontrar Deus no silêncio, na escuridão e na falta de sinais? Sim, porque este Deus, Deus Inominável, nada tem a ver com o deus dos teólogos e das autoridades eclesiásticas, que é o deus de todos os atributos. Sim, porque silêncio não é ausência, porque escuridão ou não-saber não é vazio; porque falta de sinais não é falta de sentido. Sim, porque, ao contrário do deus dos hierarcas e das escolas e da escolástica, que é o deus de todas as epifanias, o Deus dos místicos é um deus que se esconde, ou melhor, um Deus que, no próprio acto de se mostrar, se esconde, e, só escondido, Ele se nos mostra (ver texto 34. 1).
         Daqui decorre então que, para este monge autor e para a generalidade dos místicos, o caminho para Deus não se faz pela razão, mas pelo afecto, pelo coração. É na “nuvem do não-saber” que nós podemos encontrar o amor, encontrar Deus. Eles preferem e praticam o conhecimento de Deus por meio do amor, conhecimento que só se alcança por meio da ignorância, isto é, pelo afecto e não pela razão. Porque, numa definição lapidar dada por um místico e citada por Mattoso, “o amor é, ele próprio, uma forma de conhecimento”. Isto, porém, não invalida que, como diz Mattoso, também a generalidade dos místicos e bem assim o autor de “A nuvem do não-saber” considerem a contemplação - que todos muito prezam - com sendo um “acto de inteligência” , o qual exige uma concentração completa de quem a ela se consagra. Refira-se aqui, entre parêntesis, que se diz que a contemplação é “acto de inteligência” e não “acto de razão” ou de “intelecto”.
         Mas uma das características que mais distingue e enriquece este livrinho de mística - isto é, livro que ensina a caminhar para Deus -, é a sua acentuada vertente pedagógico-didáctica. Nela tem especial relevo o conselho que o autor dá em ordem a exercitar o amor a Deus, “por meio de uma longa repetição interior de monossílabos como god, sin ou love”. “O leitor moderno”, continua Mattoso, “reconhece facilmente nesta prática um paralelo do uso do mantra hindu, e não pode deixar de se admirar por um monge inglês do século XIV recomendar esta técnica”. Note-se, porém, que aqueles não são uns monossílabos quaisquer, mas palavrinhas funcionais e adequadas a suscitarem emoções que levem ao amor divino. O praticante, que já é um iniciado na vida cristã e agora pretende alcançar a perfeição, deve insistir sem tréguas nesta prática, até que ele e Deus se atraiam um ao outro, por um irresistível amor: “Não desfaleças, pois”, cita-se a obrinha, “mas esforça-te até que sintas um anelo, (…) dispõe-te a permanecer na escuridão o mais que puderes, clamando sempre por Aquele que amas. É que, se alguma vez O houveres de sentir ou ver, na medida do possível neste mundo, tal só deverá acontecer nesta nuvem e nesta escuridão”.

         2 - O misticismo religioso tem raízes muito profundas de sabedoria antiga. Com efeito, é a partir da curiosidade humana em encontrar a recôndita unidade do mundo na múltipla e imensa variedade dos seres que o compõem e nos aparecem, bem como a partir do consequente espanto pelo e com o resultado que se vai apurando, que vai nascendo e se configurando o Deus dos místicos, ou melhor, que vão surgindo homens que se fazem místicos a tentar encontrá-lO e, uma vez encontrado, se vão encontrando também a si próprios, com Ele e nEle, como seres humanos místicos.
         Assim, na nossa velha Europa, o misticismo religioso radica longinquamente na inquietação dos primeiros pré-socráticos com encontrarem uma unidade para essa diversidade do mundo e no encantamento de a pensarem encontrada; radica também na harmonia e no sentido da harmonia dos números do místico Pitágoras; assenta ainda na ideia de “demiurgo” pensado pelo divino Platão, e também na sua ideia de que o mundo real é aquilo que se pensa e não aquilo que se vê na múltipla diversidade do mundo; enfim, radica em pré-conceitos religiosos que, para além do método científico, têm guiado e condicionado mesmo a ciência moderna no seu intento de encontrar o código oculto que possa definitivamente explicar a Natureza e o Universo, sempre só na sua presumida perfeição simétrica.
Assim se acede à experiência mística de Deus, do Deus único, sempre presente na Natureza una. A unidade simétrica da Natureza supõe-se e explica-se mais facilmente se houver um Deus único criador, e também neste mais facilmente se acredita se existir tal unidade da Natureza. A religião e a ciência mutuamente se têm inspirado e confirmado, com base nessa suposta e fontal unidade do mundo.
Mas … e se essa simetria e esse código oculto explicadores da Natureza só existem nas nossas mentes, pelo motivo de a mesma Natureza não ser simétrica nem perfeita, como pensam cientistas actuais como, por exemplo, o cosmólogo Marcelo Gleiser? Isto não tocará também na experiência mística? Na verdade, o bosão de Higgs nada parece provar em abono da fé.




sexta-feira, 20 de julho de 2012

77 - Salvemos a Terra e a Vida


1 - Olá! Neste pequeno país onde vivemos, ainda não há educação ambiental e cívica que baste.
Quem quer que viaje ou simplesmente caminhe por essas estradas regionais, se for atento, amiúde encontrará pelas bermas e pelos campos uma notável e triste variedade e quantidade de lixos. Ele são latas e garrafas e plásticos e papéis; são velhos electrodomésticos e sofás e indevidos aterros; são mesmo velhos e longos postes de cimento da REN, dormindo deitados o seu sono de abandono no meio da floresta.
Por outro lado, pelas ruas da cidade e pelos acessos a praias vizinhas, é ainda preciso baixar assiduamente os olhos para o chão e fazer gincana para não esbarrar na imundície canina, flagelo com que alguns cidadãos canideotenentes presenteiam todos os outros. Qualquer dia, os cidadãos não possuidores de bichos desses, cães de guarda ou companhia, serão considerados cidadãos só de segunda.
Mas as coisas já foram piores. Muito de bom já se fez nestas matérias, quer com as já três edições da iniciativa “Vamos limpar Portugal”, quer também com alguma educação social nas escolas, ou ainda com uma certa sensibilização dos adultos para estes problemas.

2 – Olhando agora mais ao largo e a nível global, não podemos deixar de atender à recente “Conferência Rio+20” sobre o desenvolvimento sustentável, promovida pela ONU. Tal conferência, acontecida no Rio de Janeiro em finais de Junho pp, terminou com uma “Declaração Final” a que se deu o título “O Futuro que Queremos”.
Em discurso, durante a Conferência, o secretário-geral da ONU afirmou: “O recurso mais escasso de todos é o tempo e não podemos mais dar-nos ao luxo de adiar decisões”. E então concluiu: “a hora de agir é agora, porque não queremos ter no futuro uma “Rio+40 ou uma Rio+60”.
Só que aquela Declaração Final foi mal recebida por muita gente, não só pelos seus vagos propósitos como pelo seu teor minimalista. Em carta entregue ao secretário-geral, as presentes “Organizações não Governamentais” escreveram que “O futuro que queremos tem compromisso e acção, não é só promessas, e o documento final da conferência é fraco e muito aquém do espírito e dos avanços conquistados nos últimos 20 anos”. Por seu lado, também referindo-se à mesma Declaração Final, a ex-primeira –ministra da Noruega, “mãe do conceito de desenvolvimento sustentável”, afirmou que “o documento não faz o suficiente para levar a humanidade para o padrão de sustentabilidade, décadas depois de ter sido acordado que isso é essencial tanto para as pessoas como para o planeta”. E mais adiante, ela própria constatou e compreendeu “a frustração de muita gente no final da Conferência”.
Lembrem-se ainda as palavras da senadora brasileira Marina Silva, também a propósito do referido documento final: (nele) “há um compromisso com a crise económica, mas não há compromisso nenhum com o grave problema ambiental, que ameaça o futuro do planeta e a vida das próximas gerações”. Entre as mais de cem representações nacionais ao mais alto nível, Obama, Merkel e Cameron primaram pela sua ausência (Expresso, 23-6-12).
        
3 – Ao abordarmos esta temática, também não podemos deixar de ouvir a mensagem do cosmólogo Marcelo Gleiser, em seu livro Criação Imperfeita. Mais até que simples mensagem é ela, pois que é um verdadeiro grito, grito de urgência a convocar toda a Humanidade para salvar o seu planeta e a vida nele existente.
Neste Universo a ela indiferente e até hostil, por ser rara e frágil, por ser também o resultado de uma série de acidentes de percurso evolutivo, a vida é uma autêntica preciosidade, a maior de todas. Se nós não cuidarmos dela, tudo indica que o indiferente e hostil Universo não cuidará de todo.
Provavelmente sozinhos no Universo, sendo por isso especiais e únicos, nós, seres humanos, temos a imperiosa e urgente obrigação cósmica de salvarmos a vida, pois nada de mais raro e precioso existe no Universo. Para já, urgentemente, salvarmos a vida neste planeta. Depois, quem sabe, lá muito para diante no tempo, outros humanos, humanos vindouros, encarregar-se-ão de a espalhar nessa vastidão cósmica. Vida também complexa e consciente, naturalmente, como aquela de que nós desfrutamos e nos possui.
Portanto, consciência da vida e do cosmos, nós temos hoje o imperioso e inadiável dever de salvarmos a vida e a Terra, nosso planeta e nossa casa comum.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

76 - Consciência, Novelos Mentais e Mundo Verdadeiro


1 – Olá! No semanário Expresso de 19-5-12, há três casos paradigmáticos não só de como os novelos (pelo menos alguns) que dobamos com os nossos pensamentos nos podem causar muitos problemas, mas também de como, não os havendo, tudo se torna mais fácil e simples para nós.
O primeiro caso é o de Fernando Pessoa e de Eduardo Lourenço, aquele com toda a sua obra poética e este com o teórico discurso de aceitação do prémio que leva o nome do poeta. Discurso até duplamente teórico, pois que é feito de teoria do professor sobre a teoria do poeta.
Segundo a citação de “O Marinheiro” com que o professor Lourenço abre o seu discurso, o poeta sabe que é o que não devia ser, ou seja, falar, falar, falar mesmo “sem querer falar”, com todas as mitologias que o poético falar lhe produz. Por outro lado, por outras passagens da sua obra, ele também sabe que não é o que devia ser, isto é, ser simples consciência do mundo: “Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas: / Só me obriga a ser consciente” (Alberto Caeiro, 271).
Ora, este conflito leva a que o poeta diga que falhou. Álvaro de Campos o confessa em “Pecado Original”: “Sou quem falhei ser”. Falhou porquê? Falhou porque “O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo; / O que não há somos nós, e a verdade está aí”. E mais adiante: “Que é da minha realidade, que só tenho a vida? / Que é de mim, que sou só quem existo”?
Mas em vez de ser só este existir ou ser só consciência sem nenhuma (outra) realidade - só consciência das realidades do mundo, e depois também de si, sim, mas só como consciência dessas realidades começando pelo seu corpo – ele amontoou “teorias sobre as cousas”, ele carrega um saco mental cheio de novelos de pensamento e de ideologias e de mitos, que o impede de ver a nu, como realmente são, as realidades do “mundo verdadeiro”. Por isto tudo é que o poeta falhou. Falhou e tem pena: para ele, o pecado original será isso.

2 - Também no segundo caso, os novelos de pensamento e de ideologias nos podem atravancar a mente, a ponto de se não verem as realidades do mundo como de facto elas são, mas tão-somente como tais ideias as deixam ver. È o caso que ficou com o nome de “O Vídeo de Bourdain”, e que os textos de opinião de Rui Ramos e de Henrique Raposo apresentam.
Um tal Bourdain cozinheiro americano andou por aí – o “aí” é Lisboa – a recolher imagens e testemunhos de nativos lusitanos sobre Portugal, ou melhor, sobre aquilo que é mais típico no país. Lá veio então a saudade, o fado, o bacalhau e outras comidas, lá veio também Salazar pela mão de Lobo Antunes, lá vieram mais lamúrias ainda como aquela de que, com tantos problemas económicos e sociais, isto era uma terra em crise, um país pobre e sem futuro, e tudo isto, repitamos, segundo as ideias e as convicções dos entrevistados nativos.
Idêntica opinião sobre o mesmo vídeo tem também Henrique Raposo, que classifica de “confrangedor” o espectáculo, no qual todas as intervenientes figuras portuguesas nativas “fizeram todos os possíveis para encaixar Portugal no cliché do país lamuriento, que passa a vida na autoflagelação”.
Mas o curioso é que, neste segundo texto, se fala de um outro vídeo que, em tudo, é o oposto do primeiro, assim se introduzindo o terceiro caso de que intentamos falar. Porque agora, neste segundo vídeo, quem dá a sua opinião sobre o nosso país são imigrantes, vindos portanto de outros países para trabalharem e viverem cá. E o que eles dizem sobre este país de acolhimento é exactamente o contrário da opinião dos nativos: esses jovens empresários estrangeiros entendem que Lisboa - e cremos que também o nosso país pois não é menos que a capital -, é o melhor lugar para montarem a sua empresa, trabalharem e viverem.
Em resumo, “no vídeo dos portugueses a falarem de Portugal, somos soterrados pelos mitos da portugalidade faduncha”, enquanto que “no vídeo dos estrangeiros a falar de Portugal, saímos da mitologia e ficamos com a certeza de que esta cidade (…) é a cidade ideal para um empresário que procura qualidade de vida”.

3 - Nós vemos habitualmente o mundo através da nossa subjectividade: ao mesmo tempo que enche a nossa mente, a subjectividade também cobre e faz o nosso mundo. Podemos mesmo dizer que, por isso, cada um de nós tem o seu mundo. Mas há alturas e casos em que temos mesmo de despir esse nosso mundo que vemos e nascermos de novo para então vermos o mundo verdadeiro. Porque este é que é o verdadeiro. Daí que, sendo a nossa subjectividade uma interpretação do mundo, nós tenhamos sempre de a relativizar e rever, face ao mundo.
Ora, isto conduz-nos a várias posições em relação a toda esta subjectividade, nossa e da humanidade: podemos duvidar dela, aceitá-la sem reservas, reformulá-la, negá-la e substituí-la por outra. Mas como, no limite, somos só consciência – o poeta já o disse e talvez tenha razão -, a melhor saída será, pelo menos a espaços e em determinadas circunstâncias, esvaziar a nossa mente da subjectividade a respeito de qualquer das determinadas realidades do mundo, e assim poder olhá-la só com os olhos nus e sábios da inteligência, sem preconceitos, assim nos aparecendo a realidade mesma no seu fulgor, tal como realmente ela é.
Na nossa congénita incompletude – e de acordo e a par com os dois mitos recolhidos por Platão já aqui lembrados nos textos 49 e 50 e que nos falam da nossa congénita fome de amor – nós somos só consciência, isto é, nascemos também com fome de saber. De tanta fome a consciência se constitui que ela não pode subsistir senão como consciência de algo ou alguém, sendo que o primeiro objecto a ser consciencializado é a acção de pensar, que o corpo lhe concede. Congenitamente somos só consciência, mas de facto e habitualmente nós somos também a nossa subjectividade. Assim, em vez de sermos sempre e só a habitual consciência de “teorias sobre as cousas”, ou seja, consciência de conceitos e conhecimentos sempre parcelares sobre as coisas, não poderemos voltar a ser, em algumas ocasiões, só amorosa consciência directa e global das coisas?
Se assim acontecer, no vertente caso da nossa relação com este país, nós poderemos esvaziar a mente dos mitos que a povoam a esse respeito para o ver como ele é, e, em pouco tempo, com essa inteligência que também já é amor, podemos até passar a ter opinião semelhante à dos jovens imigrantes estrangeiros. E isto, sobremaneira nestes tempos difíceis - não para a abstracta portugalidade mas para nós -, seria muito bom.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

75 - Sobre o Desenvolvimento Humano



1 – Olá! As comunidades humanas precisam de desenvolver-se economica, social e espiritualmente. Aos três níveis referidos, elas têm de se prover e de ser providas de meios suficientes, para que o desenvolvimento integrado possa acontecer. Nomeadamente, elas precisam de meios materiais para que possam sobreviver e também levar uma vida digna.
Em termos gerais, haver produtos alimentares e haver dinheiro para os produzir ou comprar, e bem assim o mesmo em relação às restantes coisas necessárias à vida, isso são bens económicos; haver infra-estruturas numa aldeia, juntamente com outras condições para que os seus habitantes aí possam continuar a viver são bens sociais; poder satisfazer a necessidade de comprar um livro, bem como ir a um concerto ou ver um filme são bens espirituais.

2 – Por isso, desenvolvimento económico não é o mesmo que desenvolvimento humano. Os três níveis de desenvolvimento citados têm de desenvolver-se equilibradamente.
Concertam-se a ciência e a técnica em ordem à produção de mais bens materiais, por imperativo do necessário desenvolvimento. Mas, que bens? Bens necessários, ou bens completamente supérfluos, com os quais, por sua vez, se vão criando outras fictícias necessidades? Porque a questão está em saber o que move aí a ciência e sobretudo a técnica: se é o amor à Humanidade ou o amor ao dinheiro!
Salvo algumas excepções, o móbil deste jogo é antes de mais o dinheiro, para depois criar mais produção e consumo e dinheiro, e assim por diante, sem fim, sempre com a mira do lucro. E então, como para produzir mais e mais barato é preciso meter maquinarias, lá vai ficar muita gente desempregada. Porque, na espiral deste processo, o que interessa é fazer dinheiro. A cada passo a publicidade agride de tal forma as pessoas que se torna quase irrecusável o convite que lhes faz para possuírem o topo de gama em todo o género de inventos. E assim se criam enormes assimetrias entre os povos: enquanto uns lêem as últimas notícias no seu iPad, metade da população mundial nem sabe ler.

3 – Sem menosprezar o desenvolvimento económico, que afinal é a base de todo o desenvolvimento humano, não pode subestimar-se o desenvolvimento social e sobretudo espiritual, até porque estes dois últimos poderão dar alma ao primeiro, pois que é preciso que a economia sirva os humanos e não estes aquela.          Etimologicamente, a palavra “economia” significa “administração de uma casa”, e por isso, no nosso caso, economia é a administração da nossa casa nacional, ou europeia se quisermos, ou até mundial. O que significa que a economia é para os cidadãos e sua casa, e não estes para essa adulterada economia.
 É preciso portanto que o sangue da economia, que é o dinheiro, circule por todo o corpo social (ver texto 73). E depois, uma vez satisfeitas, para todos, as básicas necessidades, até é bom, por vezes, tal como acontece com as pessoas, também a sociedade despir-se de aderências supérfluas, assim todos nos reconduzindo àquilo que nos é essencial, como seres humanos. Quando temos menos, embora sempre o suficiente, até somos mais livres. O desenvolvimento espiritual e interior é tão necessário como o desenvolvimento da economia, que é o desenvolvimento exterior.
A Natureza e o Universo avançam por desequilíbrios de forças, criando novos equilíbrios, mas os seres humanos, que se presumem ser os mais inteligentes do Universo, regridem cavando mais fundo os desequilíbrios entre si: quanto mais ricos são os ricos, mais pobres são os pobres. Ou quererá a Humanidade que o equilíbrio vá ser substituído por uma catástrofe que, no mais terrível cenário, arrase a própria Humanidade?

quarta-feira, 4 de julho de 2012

74 - Largo da Capela ou Do Caos ao Cosmos


1 - Olá, amigos e amigas, amigas e amigos sobretudo gandareses, para quem especialmente se lavram estes regos de palavras!
“Faça-se a luz” … Faça-se também a Gândara e a Gândara foi começada, segundo podia constar do mito antigo do grande Deus que criou o Universo, mas que deixou por acabar esta terra gandaresa. Começada pelo Deus Criador mas não terminada, talvez por cansaço – um só dia sétimo não deve ter chegado para se refazer dessa canseira; talvez por a Gândara ser só areia e pedra e por isso ser insano terminá-la sozinho; talvez porque quis um outro deus a colaborar consigo, se possível um deus Canteiro, artista exímio a trabalhar a pedra das palavras.
Deste modo, e tal como de uma sopa informe e escaldante se foram configurando nítidos os primeiríssimos elementos atómicos do grande Universo, nos alvores do tempo, assim se marcam, também claros, os objectivos princípios do conteúdo narrativo de Canteiro: o senhor João III, os senhores Marialvas, os servos, os colonos, os Frades Crúzios, os piolhos, a areia, a pedra … tudo o que enfim irá dar a compósita Gândara.
E depois, tal como há, no terreno, azinhagas largas para carros de bois ou vacas com a indomável chiadeira do seu eixo de pau, e há também caminhos já um tanto estreitos só para carros de mão, e ainda carreiros fininhos cortando as terras a direito tenho pressa de chegar a pé ao meu destino, assim há também, para entrar e avançar pela narrativa adentro, três ordens de caminhos: o caminho dos números romanos, o mais largo e capital, que indica por assim dizer os temas principais ou capítulos em que se divide a “Tábua da Paróquia”; o caminho de A a Z, número de letras tão redondo e completo que onde se inicia e onde finda quase também aí podia terminar e abrir; finalmente o caminho estreito dos números árabes que, em seu alinhamento, vai contando com os segmentos encimados por letras, como se árabes elas também fossem. Tudo afinal para urdir uma manta primorosamente tecida, onde se fixam quadros ou painéis de uma rara beleza.

2 - Revestida de alvinitente cal, arrancada nas pedreiras e cozida nos fornos da região, a Capella é uma estrela cintilante, mas muitas outras luzes vão aparecendo a brilhar no céu da narrativa, do princípio ao fim, pequenas grandes criações a fazer parte de uma criação maior. Que dizer, por exemplo, de todo aquele ritual da morte de alguém, em que repentinamente todo o trabalho pára, no campo, até o corpo do finado descer à sepultura? E que palavras acrescentar àquele quadro da mulher jovem tomando banho numa bacia de esmalte? E aquela primeira missa do novo padre com uma pistola negra sobre o altar, um olho nela e nos fregueses, o outro no missal e na hóstia? E a recomendação que o padre fez às mulheres para, quando andarem de bicicleta, assentarem um “saco de linhaça dobrado sobre o guiador, para encobrir as misérias que Deus lhes deu”? E aquele outro padre, espiado pelos garotos atrás das ervas e oprimido pela ardência do estio, a tomar banho nu nas águas de um charco? E o “caso do Janota” e da sua “conversada”? E aquele encontro de uma velhinha em sua casa com o padre, ela a falar sem parar, ele nada dizendo e nada tendo dito? E o painel-retrato de duas beatas? E o quadro em que sobressai o velho mas atrevido Amola-tesouras mais o seu pregão de flauta? Que dizer de todos e de cada um destes painéis ou quadros? Não será melhor deixá-los, sozinhos, a aparecerem e a mostrarem-se?

3 - Mas, tal como no grande Universo, o grande Deus deixou limitações – é uma “Criação Imperfeita” segundo nos diz na nossa língua com sotaque brasileiro o cosmólogo Marcelo Gleisel –, assim também, nesta outra criação, o deus Canteiro terá deixado o seu pequeno senão, se acaso ele não for de atribuir a outrem, no seu olhar para o real.
Quem está lavrando estes regos de palavras tem a certeza: o pároco Mendes, décimo primeiro na “Tábua da Paróquia”, não terá sido natural da Arrancada, mas sim de outra galáxia vizinha, precisamente da Serredade. O lavrador destes regos, que é natural da Arrancada, esteve várias vezes com o padre Mendes: ele era um homem baixo, atarracado, nesse tempo já careca mas de espessas sobrancelhas, homem de poucas falas mas cheio de bonomia. Esteve e falou várias vezes com ele, por altura das festas anuais da Senhora das Febres, aonde habitualmente ele acorria, por ter nascido nesta paróquia e onde tinha familiares. Mas quando ele vinha nestas alturas festivas, nunca constou que fosse natural ou se acoitasse em alguma casa da Arrancada, mas sim numa casa da Serredade, onde ainda tinha uma irmã ou irmãs. Fica aqui lavrado o registo desta certeza, mas o lavrador sabe bem que certeza não é verdade. Por isso, Mestre Canteiro não precisa de apensar esta nota no “Livro da Paróquia”, livro tão “pesado como um adobo”. Leia só, e pronto.

4 - No grande céu natural que está por cima da Gândara, a primeira estrela e todos os outros luzeiros vão-se sempre distanciando uns dos outros, expandindo, assim se formando esta e outras galáxias no Universo. No céu da narrativa, ao invés, partindo da primeira estrela, a alvinitente Capella, outros muitos luzeiros vão sendo criados à volta dela, nesse céu convergindo numa unidade perfeita.
O quadro final da narrativa, a letra Z de Zimbro, é um passo ou quadro colectivo de intenso acento épico, como colectivo e épico é também o primeiro passo da narrativa, embora aqui de forma menos intensa. Aliás, colectiva é também a voz da narração. Narrador é o avô, o neto, o padre, a menina, sempre anónimos narradores como é também a emprestada voz do autor, que ajuda a levantar as outras vozes, do silêncio e do caos. Sempre todos narrando uma acção que é comum, nunca singular, a acção épica de um povo. Porque é o povo mesmo que narra a sua gesta heróica, ciclópico trabalho de enriquecer e arrotear terras para matar a fome, para educar as crianças, para todos viverem bem e para todos alcançarem, em pleno, a dignidade de cidadãos de corpo e alma inteiros de uma comunidade maior.
Enfim, pela magia do criador Canteiro, do caos se fez cosmos em “Largo da Capella”.