quinta-feira, 13 de outubro de 2011

36 - Homem Lobo do Homem

Neste aprazível espaço, no campo, de manhã muito cedo, ouve-se o galo da vizinha; a seguir um outro mais distante; outro e outros depois e mais além; e todos em concerto bem afinado e sem maestro. Mas depois, lá pelas sete, via rádio, dão em ouvir-se os galos de Espanha, amigos do Rocinante; os galos da Gália, também chamados “galos”; finalmente os galos da Germânia, a quem Camões chamou com muita propriedade e ainda hoje chamaria “gado soberbo”. Quem é o maestro desta multidão de aves, que tão desafinadamente estão cantando?
Já o galo Thomas Hobbes, há muito tempo, lá do seu poleiro num brumoso reino do Norte, cantou que “o homem é lobo do homem”, “homo homini lupus” nessa linguagem enxuta, sem grinaldas, que era de usança nesse tempo. Mas hoje, com muito mais lobos a haver e tão mais perto uns dos outros e com dentes tão afiados e famintos, que dirá e fará o tal homem-lobo de e a todos os outros homens? É que ele não poderá dizer dos outros o que diz do galo da vizinha: “o que ele precisa é de arroz”!
Como se conseguirá a “con-córd-ia” entre todas estas tribos, sobretudo entre aquelas que trazem no fundo do bolso das calças ou da saia a mesma moedinha do euro? Não podemos ser muito exigentes, não senhor, mas será que não conseguiremos, ao nível das emoções que sobem da barriguinha, ou seja, dos interesses particulares, e ao nível dos “-ismos” de todas as ideologias que povoam o espírito dos indivíduos e começando pelos nacionalismos, uma basilar mas urgentemente necessária plataforma de entendimento? E assim nos podermos deliciar com esta vida breve que nos possui, a todos por igual, neste planeta azul? Quem dera!

Sem comentários:

Enviar um comentário