1 - Olá! Lembram-se de já aqui
termos falado do sagrado (34.1 e 34-2), do sagrado divino e do sagrado humano,
se é que este humano já não é também divino? Falemos então hoje de alguns
nefandos ultrajes que se têm cometido contra o sagrado humano, mas não sem
antes fazermos uma breve introdução a esse importante assunto.
Mesmo quando
falamos a sós connosco mesmos, nós já estamos a ser seres sociais. Porquê?
Porque o verbo mental com que falamos a nós mesmos deriva da língua oral com
que nos entendemos uns aos outros, e a língua é radicalmente uma realidade
social. Pois que, se eu estiver a falar com um amigo e me queixar de que sinto uma
grande dor nas costas, a dor é só minha mas a língua é dos dois e de todos os outros
que a falam! A língua materna com que pensamos e falamos é uma das primeiras
provas de que somos seres sociais. Ela exibe-nos uma humanidade que, a um
tempo, é individual e social; é a mesma e indivisa humanidade, por todos os
indivíduos falantes partilhada. De maneira que, “ não fazer aos outros aquilo
que não gostamos que nos façam” parece ser imperativo tão evidente e claro como
a água cristalina e pura da montanha.
2 - No entanto, não tem sido esta a
prática da humanidade. Em alguns casos e numa história breve – em ponto grande,
o ponto dos genocídios, nem veríamos bem a densidade das coisas -, podemos
evidenciar que o que mais acontece na humanidade são os indivíduos, uns nos
outros, afrontarem profundamente essa comum e sagrada dignidade humana, segundo
o que disse um pensador inglês - “o homem é lobo do homem” - e não irmão na
indivisa humanidade.
2.1 - Seja então o primeiro caso o
de Calígula, esse antigo imperador romano que, ao princípio benquisto do povo,
cedo se transformou numa criatura completamente excêntrica e tenebrosa: tanto
convidava a lua-cheia a vir beijá-lo à cama, como punha sem alimento as feras
do circo, por vários dias seguidos, para depois lhes oferecer por pasto o corpo
e a vida de condenados. Mais ainda: ele chegava mesmo a impor que outros
condenados fossem executados à sua frente mas muito lentamente, de modo a
fazê-los sofrer muito mais e a poder observar como eles se iam sentindo a
morrer aos poucos.
2.2 - Há
também a história breve de uma pequena equipa de judeus num campo de
concentração nazi, incumbida de uma tarefa muito estranha durante a segunda
Guerra mundial do passado século (1939-45).
Como sabemos, nesses muito amargos tempos,
chegavam assiduamente aos campos de concentração comboios enormes apinhados de
judeus, cujo destino era nada menos do que avançarem logo para a câmara de gás
e da morte. E então, o trabalho estranho que competia à tal pequena equipa de judeus
era guardarem os pertences de cada um dos judeus que chegavam … para morrer.
Agora, é um ancião judeu dessa
equipa - ele sobrevivente aos horrores do Holocausto - que conta a um
jornalista: “Veja bem, meu amigo, aqueles comboios compridos, cheios de irmãos
judeus, chegavam mais ou menos de 15 em 15 dias. Mas quando, a certa altura,
eles deixaram de vir, então nós começámos a ficar incomodados e, pouco depois,
aflitos. Querem ver que, não vindo mais ninguém, chega agora a nossa vez? Só
que, daí a dias, lá vinha mais um comboio carregado. E não é que, quando vimos
chegar os condenados, nos pusemos a dançar de alegria, e eu até cheguei a bater
palmas? Olhe, meu amigo, ainda hoje morro de nojo e de vergonha pelo que então
nós fizemos. Já viu o que é sentirmo-nos assim felizes pela morte de irmãos
nossos, para mais ali à frente deles?
2.3 – Há ainda
dois casos que nos chegaram há tempos, via televisão, a via por que actualmente
se dão ao povo espectáculos baratos, não poucas vezes nauseabundos.
No primeiro,
com imagens vindas de Itália, dá-se ao vivo, em espectáculo, imagens de uma mãe
sofredora, a quem tinha desaparecido a filha. E quando a mãe, de rosto inundado
de amargura, estava a ser entrevistada, a jornalista leva ao auge o seu
tenebroso trabalho dando à mãe, ali a frio, a notícia de que a filha
desaparecida tinha morrido!
No segundo
caso, com imagens vindas da China e em programa apoiado pelo Estado, uma
jornalista entrevista diversos condenados à morte, homens e mulheres, em
véspera de execução. São casos de imagens e palavras que, por pudor, não se
descrevem nem transmitem.
Em todos estas situações, os humanos descem
a uma profunda baixeza no trato da indivisa humanidade, sua e dos outros seres
humanos, que à sua frente estão sofrendo e morrendo. Alguém, em vez de se compadecer, deliciar-se a
ver como outro ser humano vai morrendo aos pedaços, de vagar; deliciar-se a
sentir como se safou da morte, com a morte de outrem; deliciar-se a ver como o
desespero se apodera de outra pessoa, escancarando-se no rosto e no corpo
contorcido de dor, tudo isto é bárbaro, é hediondo e sacrílego. Mas pior ainda
será se todos estes casos de sofrimento se tornarem intencionalmente objecto de
espectáculo, como acontece mais ou menos em todos eles. Vilipendiado é o
sagrado da vida humana, ao ponto de a sua destruição ser dada em espectáculo de
prazer, ou então, como é no caso chinês, em espectáculo para acautelar
doutrinas e incutir medos. O caso do judeu sobrevivente foi de todos o mais
benigno, pois que foi sensível ao ultraje que cometeu e veio a arrepender-se do
seu procedimento. A indivisa humanidade, em cada um, no seu corpo e no seu
espírito, é o indefectível e intocável sagrado. Mas o mal banalizou-se de tal
forma que já nem se toma como tal. As multidões clamam por pão e circo; as
consciências dormem; o Tribunal Internacional dos Direitos do Homem, oco de
humanidade, emudece.
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