quarta-feira, 5 de setembro de 2012

89 - O Livro de Job


1 - Olá! É profundamente belo e até mesmo comovente ouvir a voz de Teresa Salgueiro, no seu trabalho discográfico Silence, Night & Dreams. E no entanto, ela simplesmente canta a crua realidade do sofrimento humano, aqui protagonizado por
um personagem bíblico que, no meio do seu mar de sofrimento, insistentemente proclama que tinha sido abandonado por Deus: “Por isso”, canta a solista e clama o personagem, “não reprimirei a minha língua de falar da angústia do meu espírito, queixar-me-ei da amargura da minha alma…”
         De facto, a vida deste homem, chamado Job, não foi sempre assim, amassada em amargura. Antes, e por não poucos anos, ele vivera feliz, rodeado da sua numerosa família e desfrutando de uma casa farta de terras e de gado.
         Só que, inopinadamente, a sua sorte mudou, passando a descarregarem-se sobre ele muitas desgraças e muito sofrimento: primeiro, foi despojado de todos os seus bens; depois, morreram-lhe todos os filhos; finalmente, foi todo coberto de lepra, consumindo-lhe o corpo. E como fosse um homem honesto e temente a Deus, Job não via razão para Deus o castigar assim.
        
         2 - Com a ajuda de passagens desempenhadas pela solista, e acrescentando outras que se respigam do livro bíblico, podemos caracterizar melhor a situação em que está o personagem, como ainda desvendar os seus sentimentos e intenções em relação a Deus.
Começa Job por amaldiçoar o dia em que nasceu, e sente que Deus o está cercando por todos os lados. Pouco depois, afirma: “Deus entregou-me aos ímpios e deixou-me à disposição dos malvados. Eu era feliz e Ele arruinou-me”. Noutro passo exclama: “Quem me dera voltar a ser como dantes, nos dias em que Deus me protegia!” Noutros pontos da narrativa, ele chega mesmo a interpelar Deus, directamente: “Chamo por Ti, e Tu não me respondes…Bem sei que me levas à morte”. Finalmente, várias passagens mostram como Job idealiza um seu encontro com Deus, primeiro um encontro meramente hipotético, mas depois um encontro já por si decidido: “Se eu pudesse encontrá-lo e chegar até ao seu próprio trono, exporia diante dele a minha causa, encheria a minha boca de argumentos”…”Ali, como homem recto, podia discutir com Ele”…”Mas eu vou falar com o Todo-Poderoso, e desejo discutir com Deus”…”Defenderei a minha causa perante Deus”…”Mostra-me por que me afliges assim”.

         3 - E não é que, segundo a narrativa sagrada, Deus acede à vontade de Job e comparece ao encontro? Comparece e diz: “Aquele que criticava o Todo-Poderoso quererá discutir? O que fazia correcções a Deus que responda a isto!” E logo Job, sem demora, responde. Diz que falara levianamente, que se arrependia de ter falado, e que nunca mais falaria assim, com arrogância, perante a grandeza e a sabedoria de Deus.
         Mas esta preciosa narrativa não termina aqui. Nas derradeiras linhas do texto conta-se que Deus gostou da atitude de Job e decidiu premiá-lo: “O Senhor restituiu-o ao seu primeiro estado e aumentou, no dobro, tudo o que antes possuía”. Quer dizer, “O Senhor abençoou a nova condição de Job, mais do que a antiga”.

         4 - Valeu então a pena ter Job puxado dos galões da sua honestidade, e, com isso, à mistura com uma boa dose de arrogância, ter decidido ir discutir e defender a sua causa, perante Deus? E Deus ter-lhe-á de facto aparecido? E tendo aparecido, como se explica que Ele tenha recompensado o personagem com o dobro do bem-estar anterior? Pode realmente falar-se com Deus? Não será esta narrativa só uma invenção literária do autor sagrado para ele educar o seu povo nas boas atitudes a ter para com Deus?

         5 - Numa outra perspectiva, que pode chamar-se naturalista, a aparição de Deus a Job – e de presumidas vítimas ofendidas como Job, todos nós ao menos temos um pouco -, não foi outra coisa a não ser ter-lhe acontecido, através da sua inteligência espiritual, uma luminosa clarividência, ou insight, para claramente ver não só que o sofrimento irremediável deve ser aceito, mas também – coisa mais importante e abrangente - para alcançar um profundo autoconhecimento. Assim, Job encontrou dentro de si a exacta perspectiva para, na sua imensa pequenez perante o vasto Universo, olhar para si mesmo: ”Quem sou eu para, neste imenso Universo, me armar em vítima e fazer valer a real insignificância das minhas dores, ressentimentos, pretensões, frustrações, mesquinhez, arrogância, angústia, egoísmo? Ninguém mais sofre no Universo? Ninguém mais perdeu toda a família e todos os seus bens? Ninguém mais vive em solidão, por tudo e todos abandonado? Se eu tenho sido recto e justo na minha vida, não é esse o meu dever? Que outra recompensa hei-de ter”?
         Mas talvez sim, talvez! Talvez uma outra recompensa nos acontecerá, de facto, sobretudo nesses transes de grande sofrimento, se estivermos assim iluminados! E ela é que nos envolverá e trespassará até ao âmago da existência uma profunda paz, a qual é mais intensa que a própria felicidade.
         E então, aquele deus tradicional dos judeus e de Job, em comparação com o deus de Espinosa e também de Einstein mais de dois mil anos depois, não será semelhante ou até idêntico? Sempre o deus da Natureza, o qual tem por simultânea essência substancial tanto a extensão como a vida mental, das quais nós participamos? Não será de relevar a opinião destes dois sábios judeus errantes sobre o deus dos judeus? Quem, no caso de Espinosa, não concordou de todo com esta opinião e convicção foi a sua comunidade judaica de Amesterdão, a qual o excomungou da sinagoga e o expulsou da mesma comunidade. E no entanto, se esta condenação e expulsão existiram, também aquela convicção permanece.

         6 - O caso de Job faz lembrar-nos o desse nosso bem conhecido Jesus da Galileia, que soube lidar com o sofrimento de uma forma exemplar.
         Em momentos de profunda oração, poucas horas antes de morrer, Jesus dirige-se a Deus e pede: Afasta de mim este cálice! Mas não se faça o que eu quero, e sim o que Tu queres. Depois, alguns instantes antes de morrer, ele clama: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? E “dando um forte grito, Jesus exclamou: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. Dito isto, expirou”.
         Paradoxalmente, é neste abandono que, por sua inteligência espiritual, Jesus encontra a presença do Pai Deus. Abandono que é presença, e presença que é abandono. Nesse abandono-presença de Deus, ele encontra a profunda iluminação de si mesmo, a qual o leva a desprender-se da sua vontade e do seu eu, e o conduz a aceitar o necessário, que, na circunstância, era o sofrimento e a própria morte. Nos derradeiros momentos da sua vida, Jesus soube fazer apelo à Sabedoria, vinda sempre do Todo-Poderoso, para poder morrer abençoado e em paz.

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