Um Tema para Seis Mãos
ou
Matéria Inflamável e Acendalhas
1 - Olá, amigas e amigos! Na edição de 6 de Abril p. p., o jornal Expresso publicou dois textos sobre Religião: um, de Rui Ramos, com o título “Nem só de Economia”, o outro, de Henrique Raposo, intitulado “Páscoa”.
Consideremos antes de mais o primeiro. Num mundo globalizado como é aquele em que vivemos, não só a economia do mundo está competindo com a nossa. Também essa multiforme cultura, na qual quase sempre sobressai a religião, nos está entrando pela casa adentro, casa nossa europeia, mas também, mais particularmente, nossa casa lusitana.
Será então competitivo este nosso cristianismo europeu, em comparação com outras tendências cristãs e sobretudo com outras religiões? Será ele competitivamente assertivo e cativante, para subsistir nesse confronto?
A conclusão do autor parece ser negativa, tendo especialmente em atenção dois exemplos actuais e importantes. O primeiro é o caso do arcebispo de Cantuária, “líder da igreja anglicana”, inglês “contido e liberal”, que provavelmente terá como sucessor um ugandês “assertivo e conservador”. O segundo é o do padre brasileiro Marcelo Rossi, supostamente de tendência cristã pentecostal, que tem entre nós e já há várias semanas, no topo de vendas, o seu livro “Ágape”.
2 - De pendor menos analítico mas mais poético, é o segundo texto. Nele, o autor tece loas à coragem de um pastor baptista, em Moscavide, à sua perseverança quase ridícula de juntar, para a sua igreja, somente um só fiel novo por ano, ainda assim apoiado em “raves” também abertas a “penduras”, onde há “cantorias e bambolear de ancas”. Porque, “comparada com uma missa católica, uma cerimónia batista é uma saída à noite”!
E então, esse pastor será um pastor caído num rotundo fracasso, um pastor que em vários anos conseguiu uma assembleia de crentes só de doze unidades, ou não há fracasso algum mas antes um pastor cheio de fé, dessa fé que vai desaparecendo do mundo?
Até aqui, os dois textos. A seguir, outras breves considerações sobre o assunto, a que dei o título de “Matéria Inflamável e Acendalhas”:
3 - Quando se acredita, cai-se nos braços daquele ou daquela em quem se acredita, e também naquilo em que se acredita. A fé move montanhas, isto é, aquilo de que não se sabe exactamente se é, passa a ser; e o que é, passa a não ser.
Assim também acontece, de algum modo, na poesia! Porque “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. Isto é, se até da realidade o poeta faz ficção, muito mais da ficção ele sabe fazer realidade!
A fé e também a poesia, nas quais já tem de haver o calor das emoções, é a matéria inflamável; a música e a dança constituem a acendalha. Os sons, as melodias, os ritmos, o bamboleio cálido e o estrepitoso frenesim dos corpos, tudo isso envolve os espirituais símbolos da fé e da poesia, e tudo isso, agora do corpo e da mente, leva ao encantamento, e até ao delírio e ao êxtase.
Sobretudo em relação à fé, deve haver discernimento e autonomia. Aquele, para distinguirmos entre a voz da razão e o clamor das emoções, e esta, a autonomia, para depois agirmos em conformidade. Porque , na estrada da nossa vida, em vez de “im-bec-is”, ou seja, fracos ou sem forças sobretudo mentais, devemos apoiar-nos no “bác-ulo” ou bastão da nossa autonomia; e também não podemos, nesta velha Europa, perder a liberdade e a democracia que, lentamente, com tanto esforço, fomos conseguindo a partir dos gregos.
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