sexta-feira, 29 de junho de 2012

73 - Uma Teoria sobre o Dinheiro


1 – Olá! Não se pode falar de dinheiro, sem também se falar de sangue. Aos nossos hospitais acorre, quando solicitada, gente generosa em dádivas de sangue. Há mesmo bancos de sangue, sempre abertos ao público para receberem essas ofertas. São sempre dádivas, sempre são o fruto da generosidade das pessoas. O sangue é o alimento da vida humana e, em transes de aflição, ele é mesmo a salvação da vida de muita gente. Porque é que não se pode negociar com o sangue? Não pode, porque também não se pode negociar com a vida!

2 – Por seu lado, o dinheiro é a tradução monetária do trabalho e de outros bens das pessoas de uma nação, de uma comunidade de nações, das nações de todo o mundo. O dinheiro, sobretudo hoje, nesta (des)ordem económica em que vivemos, é imprescindível para que haja vida humana: ele é o outro sangue das pessoas, ele é o sangue das nações. E então, tal como não se negoceia com o sangue para salvar o corpo e a vida das pessoas, também com o dinheiro-sangue-das-nações não se pode negociar, pelo menos com usura ou especulação. Estas, o povo, que é a fonte do poder, não pode consentir.

3 – Se o dinheiro é o sangue das nações, quem deve superintender nesse bem, de modo a que chegue suficientemente à vida de todos os cidadãos e à economia da nação? Que poder? O poder político ou o poder financeiro? Com certeza que só pode ser o poder político democrático, pois só este é do povo e depende do povo. O povo não pode controlar as cúpulas do chamado poder financeiro, mas, de alguma forma, por eleição democrática, pode controlar o político. Compete ao poder político governar as nações, e portanto, entre o mais, defender e promover e distribuir, por todos os cidadãos e de forma socialmente justa, esse sangue das nações.   
Assim haja políticos determinados, de mãos limpas e com vocação para promover o bem comum.

4 – Destes princípios decorre que, de todos os bancos de dinheiro que existam numa nação ou comunidade de nações, e também a nível global e em todas as nações, se deve dizer que eles são, de alguma forma, bancos do povo. Tal como um banco de sangue é do povo porque só existe e serve para salvar as vidas em risco, assim também, de algum modo, os bancos de dinheiro existem e servem para guardar e rentabilizar o dinheiro das pessoas mas também para promover a economia da nação, que é de todos, não tivessem sempre os bens materiais particulares, e concretamente o dinheiro, uma função social.
Decorre também que os crimes económicos e financeiros assumem, neste contexto, uma especial gravidade, pelo que devem ser severamente punidos.
Decorre ainda que, dada a complexidade de todo este assunto, os políticos eleitos terão de se socorrer de técnicos imparciais especializados para se encontrarem boas formas de se porem em prática os princípios referidos, salvaguardando sempre a livre iniciativa, a justa remuneração do trabalho e a justiça social. Se esta existir, evitar-se-ão mais facilmente os desmandos dos mercados e do individualismo liberal.
É enfim, o dinheiro, uma coisa muito séria: por isso, contrariando muitas vezes tentações advindas da publicidade, ele deve ser sempre aplicado ou investido em alimento, em produtos de vida para o corpo e para o espírito dos cidadãos, na economia da nação, tendo em atenção que, ou nos salvamos todos, ou todos nos submergimos no nada.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

72 - Um Tema para Seis Mãos

Um Tema para Seis Mãos
ou
Matéria Inflamável e Acendalhas

1 - Olá, amigas e amigos! Na edição de 6 de Abril p. p., o jornal Expresso publicou dois textos sobre Religião: um, de Rui Ramos, com o título “Nem só de Economia”, o outro, de Henrique Raposo, intitulado “Páscoa”.
Consideremos antes de mais o primeiro. Num mundo globalizado como é aquele em que vivemos, não só a economia do mundo está competindo com a nossa. Também essa multiforme cultura, na qual quase sempre sobressai a religião, nos está entrando pela casa adentro, casa nossa europeia, mas também, mais particularmente, nossa casa lusitana.
Será então competitivo este nosso cristianismo europeu, em comparação com outras tendências cristãs e sobretudo com outras religiões? Será ele competitivamente assertivo e cativante, para subsistir nesse confronto?
A conclusão do autor parece ser negativa, tendo especialmente em atenção dois exemplos actuais e importantes. O primeiro é o caso do arcebispo de Cantuária, “líder da igreja anglicana”, inglês “contido e liberal”, que provavelmente terá como sucessor um ugandês “assertivo e conservador”. O segundo é o do padre brasileiro Marcelo Rossi, supostamente de tendência cristã pentecostal, que tem entre nós e já há várias semanas, no topo de vendas, o seu livro “Ágape”.

2 - De pendor menos analítico mas mais poético, é o segundo texto. Nele, o autor tece loas à coragem de um pastor baptista, em Moscavide, à sua perseverança quase ridícula de juntar, para a sua igreja, somente um só fiel novo por ano, ainda assim apoiado em “raves” também abertas a “penduras”, onde há “cantorias e bambolear de ancas”. Porque, “comparada com uma missa católica, uma cerimónia batista é uma saída à noite”!
E então, esse pastor será um pastor caído num rotundo fracasso, um pastor que em vários anos conseguiu uma assembleia de crentes só de doze unidades, ou não há fracasso algum mas antes um pastor cheio de fé, dessa fé que vai desaparecendo do mundo?
Até aqui, os dois textos. A seguir, outras breves considerações sobre o assunto, a que dei o título de “Matéria Inflamável e Acendalhas”:

3 - Quando se acredita, cai-se nos braços daquele ou daquela em quem se acredita, e também naquilo em que se acredita. A fé move montanhas, isto é, aquilo de que não se sabe exactamente se é, passa a ser; e o que é, passa a não ser.
Assim também acontece, de algum modo, na poesia! Porque “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. Isto é, se até da realidade o poeta faz ficção, muito mais da ficção ele sabe fazer realidade!
A fé e também a poesia, nas quais já tem de haver o calor das emoções, é a matéria inflamável; a música e a dança constituem a acendalha. Os sons, as melodias, os ritmos, o bamboleio cálido e o estrepitoso frenesim dos corpos, tudo isso envolve os espirituais símbolos da fé e da poesia, e tudo isso, agora do corpo e da mente, leva ao encantamento, e até ao delírio e ao êxtase.
Sobretudo em relação à fé, deve haver discernimento e autonomia. Aquele, para distinguirmos entre a voz da razão e o clamor das emoções, e esta, a autonomia, para depois agirmos em conformidade. Porque, na estrada da nossa vida, em vez de “im-bec-is”, ou seja, fracos ou sem forças sobretudo mentais, devemos apoiar-nos no “bác-ulo” ou bastão da nossa autonomia; e também não podemos, nesta velha Europa, perder a liberdade e a democracia que, lentamente, com tanto esforço, fomos conseguindo a partir dos gregos.



quarta-feira, 13 de junho de 2012

71 - Bom, Mau e Indiferente

Olá! Como já vimos, enquanto não olhamos para as coisas, elas não são boas nem más, mas simplesmente coisas. Porque nós é que, na nossa perspectiva, as fazemos boas ou más ou simplesmente indiferentes. Sempre portanto em relação a nós, na nossa perspectiva. Assim, o bom, o mau e o indiferente aplicados às coisas, nós é que os criamos e aplicamos.
Mas temos de ver muito bem esses conceitos. Porque, muitas vezes, há coisas que agora ou à primeira vista nos parecem boas, mas depois redundam em más ou indiferentes; como também há, ao primeiro olhar, coisas más que depois se nos tornam boas ou indiferentes; e também coisas indiferentes que, também depois, podem virar boas ou más.
Em relação à possível bondade ou maldade ou indiferença das coisas, para mim, eu tenho de me pensar na profundidade do meu ser e na globalidade do percurso da minha vida. Como também entender que o meu bem não exclui mas se interpenetra com o dos outros. Portanto, não podemos ver as coisas só a curta distância e superficialmente; é preciso vê-las em profundidade e ao longo de toda a vida, e como seres sociais que congenitamente somos.   
A definição de “bom” e de “mau” e de “indiferente” varia um tanto de indivíduo para indivíduo, mas, no fundamental, porque somos todos humanos, conseguimos entender-nos. Correctamente entendidos, promover o meu bem e o bem comum – não há um sem o outro – são o grande critério a seguir em todo este jogo.
É por tudo isto que, no pino do Inverno, a menina e o rapazinho e o adulto aceitam trocar o quentinho de entre os lençóis pelo desconforto da escola e do emprego, em vista de alcançarem um bem maior e duradoiro para as suas vidas, e de outrossim evitarem um mal pior; e também por isto é bom aceitarmos a sabedoria popular que nos diz “guarda o que não presta e terás o que precisas”: e ainda é bom fazermos aos outros aquilo que gostamos que nos façam.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

70 - Coisas só Coisas, mas Revestidas de nossas Ideias


1 - Olá! Indo o ser humano ao encontro das coisas – coisas tomadas por seres não vivos e também vivos, mas sem aqui falarmos de companheiros humanos -, ou vindo também elas ter com ele, acontece a recíproca aparição dos seres. Vai o ser humano ao encontro das coisas, para quê? Vai porque gosta e porque precisa de se entender com elas, à mesa comum da existência e da vida. Situado no mundo, é vital e urgente para ele estabelecer comércio com a sua envolvência.
Aquela recíproca aparição das coisas ao ser humano e deste às coisas é um concerto longo, que pode mesmo não ter fim, ou melhor, um concerto que pode durar toda a vida das duas partes, pelo menos enquanto as duas existirem.
Por parte do ser humano, este festim começa com o dar nome às coisas. E com dar-lhes nome, ele configura-as logo com determinadas qualidades, e depois, lentamente, pelo andar da carruagem da existência em que ambos estão embarcados, ele vai aprofundando o seu relacionamento com elas, assim as conhecendo cada vez melhor. E conhecer (co-nh-ecer) – notemos bem – significa nascer ou ir nascendo com algo ou alguém.
Temos capacidade de conhecer as coisas do mundo em que vivemos, para depois podermos dizer que, em relação a nós ou a cada um, umas coisas são boas; outras, más; e as restantes, simplesmente indiferentes. E a seguir, agirmos em conformidade com esses valores. Mas depois de conhecermos e valorarmos as coisas, outras camadas de subjectividade e simbolismo vamos acrescentando às coisas, num processo sem fim e também nunca definitivo, porque sempre reformulável.

2 - Assente está então que, quando as coisas estão sozinhas, elas não têm ideias consigo; elas são só coisas. Mas quando o ser humano está com elas e as olha, ele associa ideias suas às coisas. Isto, genericamente, claro, porque ainda há os casos particulares do poeta e também o de alguns filósofos. Pois que, quanto ao poeta, ele anima e transfigura as coisas já atrás figuradas, mergulhando nelas as suas ideias e ele mesmo também, numa simbiose perfeita. Enquanto que, no caso de alguns filósofos, ao contrário, eles parecem dividir miseravelmente o mundo em dois. Dividem-no, e depois distanciam-se e desconsideram de tal forma as coisas, que chegam a fazer das suas ideias sobre as coisas, as verdadeiras realidades, e a fazer das coisas, meras sombras dessas ideias. Dois mundos separados, portanto, sendo o prevalecente, para eles, o mundo do humano devaneio!
Quando afinal, o que há, o que há de único e irrepetível no universo é cada um de nós – coisa entre as coisas do mundo, sim, mas também espírito com as suas próprias ideias – cada um com as suas ideias a vestir de nome e valor as também reais “coisas-coisas” do mundo.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

69 - Fruta da Boa

1 – Olá! Conheço três amigos que, em relação a laranjas, têm as opiniões mais diversas. O Bruno gosta tanto de laranjas que, para ele, as laranjas são a melhor fruta do mundo. A melhor fruta, isto é: a melhor, salvo a sua própria namorada, a Rita. Porque, para ele, no que toca a fruta, a Rita é mesmo o máximo!
Quanto à Rita, ela comeu várias vezes laranjas quando criança, mas, sempre que as comia, apanhava sempre uma grande dor de barriga. Resultado: ela deixou de as comer e, para ela, a laranja é uma fruta má.
Por seu lado, o Diogo, embora muito amigo dos dois, tem, a respeito de laranjas, uma outra opinião diferente. Desde pequeno, nunca apreciou laranjas, e agora é-lhes de tal maneira indiferente que nunca as come.
Então, em si mesma, a laranja é uma coisa boa, má ou indiferente? Isto é: haverá metafísica nas coisas, ou elas nada mais são que coisas?

2 - Na verdade, serem boas as coisas, ou más ou indiferentes, isso não é próprio delas, nós é que lho acrescentamos e atribuímos. Como também lhes juntamos muitos sentidos metafórico-simbólicos, Um trovão, por exemplo, é só um trovão, e não Deus a ralhar.
Para além de coisas, portanto, tudo nelas é subjectividade nossa. O bem, o mal, o indiferente, como também a bondade, a maldade e a indiferença, tudo isso não existe propriamente nas coisas. Nós é que o criamos e lho aplicamos. Como também criamos a metafísica, que é a ciência que trata dos entes, enquanto tais.
Por isso é que, quando eu digo que as amendoeiras em flor são simplesmente coisas, (mas considerando que as ideias de ser, de belo e de bom incarnam ou se aplicam nas cerejeiras em flor), eu também não posso deixar de dizer que elas são seres belos e bons para mim. Para mim, realmente, elas são também seres belos e bons. Mas tudo isto, que se prende com a metafísica, a estética e mais subjectividades, sou eu que lhes acrescento e aplico.
Com as ideias de bem, de mal e de indiferente incarnadas em concretas realidades, e bem assim com todo o demais mundo simbólico que foram produzindo, bem se pode dizer que os seres humanos criaram grande parte do mundo em que vivem. Coisa bela é esta, mas também tremenda, pois que o criaram para sua graça, mas também desgraça. Tremenda porque as ideias e as suas consequências práticas no mundo, se muitas vezes são ou foram boas ou até muito boas, também são ou foram pérfidas ou assustadoramente pérfidas.