sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

48 - Nove Passos para uma Opereta

Nove Passos para uma Opereta
1
Já não era a primeira vez que, ao atarraxar de manhã as botas nos pés, eu constatava que os atacadores se começavam a desventrar em mioleira branca, assim me anunciando que estariam prestes a ir à viola. De modo que, perante tão iminente perigo – não fossem as botas desprender-se dos pés num movimento brusco de passeio mais rápido e atingir a cabeça de alguém, quem sabe se até mesmo a de SarkoMerKel pretensa nova edição do nosso andrógino original –, decidi guiar os meus passos pelo campo até à catedral de consumos, a fim de substituir por uns novos os referidos atilhos. Sucede é que, no meio de um nada pacífico oceano de mais de dois mil produtos e bens diversos, todos à minha espera, era impossível sem ajuda encontrar essa ninharia.
2
- Menina, olhe lá, eu já percorri com atenção todos os corredores do supermercado e não descubro aquilo que pretendo.
- Mas então, o que é que deseja?
- Já vasculhei todas as prateleiras de todos os corredores e não encontro o produto que pretendo.
- Mas que produto quer, diga lá!
- Procuro a felicidade!
- Ah, mas isso não temos! Talvez possa encontrar na farmácia.
- Na farmácia? Onde se vendem xaropes e comprimidos? Nem pensar! Já de lá trouxe muita obra, e vejo bem que lá não há o que pretendo.
- Olhe, o que mais lhe posso fazer é pedir à gerência que pesquise mercados onde se possa encontrar tal produto!
- Muito bem! Faça-me então esse muito grande favor.
3
Talvez possa a gerência encontrar tal produto, sim, vendo todas as ofertas que estão por aí ao dispor dos consumidores. Como a ciência e a técnica estão tão avançadas, e tendo ainda em conta que o que hoje é preciso são empresas empreendedoras que saibam inovar e dar lucros, talvez seja fácil encontrar quem produza ou queira em breve produzir o que pretendo. Talvez mesmo se possa encontrar isso no mercado de capitais, quem sabe! Não é ele um mercado omnipotente?
Na realidade, é mesmo esse produto que me interessa. Até porque, se tivermos de mudar de moeda, assim perdendo cerca de metade destas magríssimas economias que tenho, é muito bom investir agora, enquanto é tempo, num bem muito importante para mim, imaterial e não perecível bem, como é a felicidade! Vamos lá ver se consigo fazer negócio, o negócio da minha vida.
4
- Olá, menina, então já tem novidades para mim?
- Tenho, sim, mas são novidades tristes. A gerência contactou uma chusma de produtores, e em nenhum encontrou tal produto para vender.
- Mas isso parece impossível! Então os mercados não fazem sondagens à procura das necessidades do público, para depois criarem produtos a condizer e venderem e fazerem lucros?
- A gerência não encontrou nada disso no mercado, mas sugere vários produtos que aqui temos, e que até estão no cabaz de Natal!
- Ai é? Não me diga!
- Sim, olhe aqui este cabaz de Natal, que está a tão bom preço!
- Mas a menina acha que estes produtos são idênticos àquilo que pretendo?
- Por mim, realmente, eu não acho! Eu acho que eles até podem ajudar a sermos felizes, mas eles não são mesmo a felicidade!
- Justamente, é isso mesmo!
5
E eis que vejo caminhar para nós o gerente e mestre de cerimónias da catedral, o senhor que teve a gentileza de proceder a todas as pesquisas por mim solicitadas, trabalho afinal todo em vão e por isso nada rentável. Se bem que pareça quase impossível haver tanta gente à procura do mesmo produto que pretendo, e ele não se encontrar à venda nos mercados! O gerente chegou e a menina foi-se logo. Não pode haver momentos desperdiçados, como exigem os automatismos mercantis. O tempo é dinheiro, não é?
6
- Lamento, meu amigo, lamento não poder servi-lo. Nós temos aqui vários produtos para esta quadra festiva, brilhantemente enfeitados com as sagradas palavras de “Feliz Natal”, “Feliz Natal”, mas já vi que tudo isto não é propriamente aquilo que quer encontrar.
- Claro que não! Eu não quero só adjacências de embrulhos esplendidamente engalanados com essas palavras, e agora também não quero o seu embrulhado recheio. Eu quero a felicidade pura, tanto quanto possível com todos os ingredientes que a constituem, entende?
- Sim, sim, penso que entendo! Ainda assim, eu sugeria-lhe que desse uma olhadela ali àquela loja, a loja do ouro, onde poderá negociar. Não quer lá ir experimentar? Além disso, estamos à espera de uma máquina que vende, a troco das respectivas quantias, moedas estranhas de alto valor e também barras de ouro. Ela está por aí a rebentar, e isso pode fazer-lhe jeito, como bom investimento que deve ser.
- Mas esses negócios são um modo de investir ou de perder a outra metade das economias? Quem me garante o valor dessas moedas e dessas barras ou que simplesmente não são contrafacções? Onde as poderei ir depois vender, se tiver necessidade? Além de que - e isto é o principal -, nada disso me vai fornecer daquilo que pretendo, pois não?
7
E aqui estamos nós entalados neste tempo devorador, devorador do que temos e não temos, e já também do que somos. Quem pouco tem, pouco perderá, é certo, mas pode perder o pouco que é necessário à sua subsistência.
Mas quanto à felicidade, a felicidade mesmo, isso é um negócio tão íntimo tão íntimo que, afinal, nem é negócio: aquele que fabrica o produto é também aquele que o dá a si mesmo para gastar e com ele se deliciar, embora dele também outros possam usufruir! Será então o princípio de uma “economia do dom”, sem que aí metam bedelho intermediários gananciosos, como é o caso-limite do execrando mercado de capitais. É que o nosso íntimo bem-estar ninguém o produz por nós e também ninguém no-lo pode tirar! Íntimo bem-estar que, com um mínimo de condições físicas, claro está, constitui essa por todos tão ansiada felicidade. Entalados num tempo devorador do que temos e já também do que somos, é verdade, muito embora nunca possamos ser esbulhados do nosso espaço íntimo, o qual não nos devora mas liberta!
8
Ah, já me olvidava de dizer que, de volta pelo campo, trouxe no bolso uns laços novos para as botas, laços que, logo no primeiro encontro na catedral, a menina fez o favor de me indicar lá na prateleira extrema de uma alta nave. Estes laços novos nas botas também ajudam à felicidade, não é? Além de que, assim, com uns novos laços bem apertando as botas, aquela cabeça do/da SarkoMerkel, de um lado masculina e do outro feminina, não será atingida! Fico descansado. Mas para falar de tal figura humana, deve dizer-se “do” ou “da”, “o” ou “a”? É que a nossa querida língua, língua doce e leve, nem sequer está preparada para estas originalidades aberrantes!
9
Mas ainda uma outra coisa vai esquecendo, importante coisa! Então, se aquilo é uma catedral - com naves e acólitos e mestre de cerimónias e celebrantes consumidores, catedral de consumo e de todo um mundo descartável em que vivemos e até muitas vezes nós somos e fazemos ser - então, onde está aí o “santo dos santos”, o sagrado, o sagrado recôndito ou o recôndito do sagrado? Não existirá nesta catedral o sagrado? Deve existir! Mas onde? Estará ele na caixa registadora? O sagrado será mesmo o dinheiro? Dinheiro, meio escondido e meio aparecendo, mais na caixa que nos bolsos? Estará com certeza no dinheiro, sim, se acaso o considerarmos como sendo o sangue das nações, a todos os humanos chegando sem usuras. Porque a usura, no nosso mundo, é uma das maldades mais abomináveis que se podem perpetrar contra os outros seres humanos, tendo portanto as nações de ser implacáveis contra ela! O sagrado estará no dinheiro, sim, se ele for o sangue a irrigar e a alimentar, sem constrangimentos, a vida de todos os humanos. Com o sangue não se pode negociar, pelo menos com usura. Ele deve existir só para alimentar e salvar vidas.
Mas é claro que fora da catedral – vê-se agora muito bem – há um outro sacrário, o sacrário do nosso espaço íntimo como acima já dissemos, onde pode nascer e avultar a felicidade, para o que, evidentemente, para seu alimento, também é preciso algum desse sagrado dinheiro.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Pistas de Leitura do Texto 47

- Porque se dá a este texto o título de “Natal”?
- Que seres nascem? Nascem e aparecem só os outros seres, ou nasço também eu juntamente com eles? Posso eu, a espaços, nascer sem todos eles?
- Porque somos a hospedaria do mundo?

sábado, 24 de dezembro de 2011

47 - Natal

Natal
Olá! Sobretudo neste tempo de generalizada fuga para a trepidante vida da cidade, o campo, já quase abandonado, é para nós um lugar de bênçãos. Por isso, faz-nos muito bem regressar de quando em vez ao campo, mas melhor ainda é aqui viver. Aqui, no ar lavado, em ligação com a terra e com os ciclos da natureza, na inter-ajuda humana, com uma alimentação mais saudável, sentimo-nos confortados e mais facilmente encontramos e vivemos a nossa humanidade.
Numa tarde soalheira, na orla de um bosque, em vereda de chão plano e liso para não tropeçarmos, andemos para lá e para cá, no meio da natureza. É natural que ao começarmos a andar pensemos na nossa vida, em encontros e conversas com pessoas, nos nossos problemas e também projectos. Mas depois, deixando tudo isso e também o pensar (7, 42), ouçamos só os sons da natureza: mas é ouvi-los só e sem mais nada, isto é, não é ouvir o som e simultaneamente pensar que ele vem do alto dos pinheiros, ou vem de muito longe ou de mais perto, ou que se trata do cantar de uma rola ou de um melro, ou simplesmente são os ramos de uma árvore embatendo em outras. Nada de congeminar pensamentos, mas simples e somente ouvir os sons. E quando não houver sons para ouvir … ficar só a ouvir o silêncio. A ouvir o silêncio … e a respirar o ar puro e morno da tarde, continuando a andar ou parando, no meio da natureza.
Será que somos silêncio, isto é, que somos consciência de sermos silêncio? A consciência que a nossa humanidade nos concede não assenta no silêncio?

Se não tivermos problemas de locomoção e de equilíbrio, e estivermos seguros do local e de onde pomos os pés sobretudo em sítios de declives no terreno, embrenhemo-nos no bosque por carreiros estreitos, rodeados de arvoredo denso. Por aí, sentiremos maior riqueza de sons e também verdadeiros luxos para os olhos: fios e teias de aranha a “impedir-nos” a passagem, vermes a rastejar nos declives, multicores borboletas levantando de esconderijos, aves brincando de galho em galho ou correndo velozmente por entre os troncos das árvores …
Olhemos também para o ondeado do terreno, para os arbustos e para o tronco e a copa das árvores, mas sobretudo olhemos com vagar para as flores silvestres, e até mesmo apanhemos uma ou outra e façamos um belo ramo com elas. A natureza dá-no-las; ela as cria, não para nada e ficando por ali sozinhas eternamente (a sua eternidade pode durar não muito mais que um só dia), sem destinatários, mas para aparecerem a alguém. Não é porém, agora, hora para pensarmos. Da mente, agora, só queremos que ela ponha os sentidos abertos à natureza, em êxtase abertos para a vida.
Então, sintamos ainda o rumor do vento na caruma dos pinheiros e demos conta do odor da molhada manta vegetal que cobre a terra, também do odor das ervas e das flores. Toquemos mesmo no tronco de uma ou outra árvore, e até nos sentemos no chão encostados a um tronco, passando a sua vital energia para o nosso corpo. Orgia dos sentidos, mas sempre sem labor mental. Tudo com a demora e com o prazer possíveis.

Flores e tudo o mais, para aparecerem a alguém. Mas aparecerem a quem?
Do vazio e do silêncio, eu apareço a mim mesmo através do meu corpo. Eu sou consciência de mim mesmo, da minha mente e do meu corpo. A partir daqui, eu sou consciência da aranha ou a aranha consciencializada; consciência daquela rola além ou aquela rola consciencializada … Nós somos a hospedaria do mundo!
Diz-se que Jesus não nasceu na hospedaria porque não tinha lá lugar para nascer; mas nós somos a hospedaria onde nos nasce o mundo, do qual também faz parte esse menino Jesus, o das palavras contidas e sábias quando já crescido; hospedaria onde todos os dias nasce e vive o nosso mundo.
De mente vazia e limpa e repousado, só consciente, eu acolho o mundo; eu sou “taça vazia” sobre a mesa da vida, para acolher o mundo. Mais tarde, e quando necessário, acolhido o mundo, eu o pensarei com conceitos, com raciocínios e teorias. Mas de novo e a espaços – sempre que eu quiser e disso colha prazer –, eu poderei ser de novo só consciência, liberto de pensamentos e eu mental, também consciência de mim próprio e do mundo, em recíproca intimidade.

Nota Solta

Um país com futuro
Nós não andamos numa “jangada de Pedra” juntamente com a Espanha, perdidos no oceano. Nós estamos, sozinhos, radicados nesta ponta da Europa, mas somos uma muito importante placa giratória para todos os continentes!
A principal razão que nos moveu em demanda de descobertas no mar e para além do mar, foi a necessidade de alargar os nossos horizontes, já que não podíamos alargá-los para o leste continental. Desse lado, para nós, “nem bom vento nem bom casamento”. Só com o mar podíamos subsistir como povo independente. E alargando os horizontes para os lados do mar, descobrimos mundos de todos os continentes, onde deixámos língua e alguma civilização e cultura, para além da semente de novas vidas humanas, em miscigenação com as nativas.
A China, onde por muitos séculos estivemos, entrou agora no capital da EDP, estabelecendo-se assim uma duradoira e poderosa relação económica e financeira entre os dois países, cada um deles no seu diferente continente deste vasto mundo globalizado. Participamos na comunidade europeia, sim senhor, mas podemos relativizar essa ligação à Europa, onde se vê que há egoísmos exacerbados e nos têm por um minguado e pobre país do sul e de madraços.Com o interesse que a China manifestou por nós, em razão do valor da empresa e talvez mais por sermos essa placa giratória para se chegar a todo o mundo mas sobretudo aos três continentes do Atlântico, nós podemos merecer melhor consideração de alemães e de americanos e das suas fatídicas agências mercantis.
Mas para além da estratégica posição que temos, neste mundo globalizado, nós temos uma das maiores áreas marítimas do mundo, e para mais muito rica de vida e de minério. Mas sem capitais e sozinhos, não podemos fazer essa exploração. Ora, também para isto, a China pode ser um nosso poderoso parceiro, como também nós podemos ser para ela.
Bem fez o governo em chamar a si todo o processo da referida privatização, sem intermediários, assim nos furtando à extracção de avultada maquia por parte dos poderosos lobbies financeiros, para além de assim dar uma boa sapatada nesses mercados.
Integrados embora nesta Europazinha indecisa e desavinda consigo mesma, nós não somos um país periférico; nós estamos é no centro do mundo! Quer dizer: poderemos ter futuro.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Pistas de Leitura do Texto 46

- Em solidão, o íntimo diálogo, a sós, do pensamento;
- O íntimo diálogo do pensar, fora do tempo, mas também o pensar mergulhado no tempo;
- A respiração, como uma actividade do pensar mergulhado no corpo;
- Respirar conscientemente é estar na casinha do corpo; alheio às outras realidades do mundo;
- Respiração consciente – a melhor meditação;
- O falar das redes sociais e o íntimo falar connosco mesmos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

46 - Uma Prenda

Em solidão, é quando eu posso estar mais acompanhado porque é então que eu me posso encontrar e estar comigo mesmo. O mais íntimo diálogo comigo mesmo é aquele em que eu penso e me vejo a pensar, ou seja, quando penso e tenho consciência de que estou a pensar e do que estou pensando, mesmo auxiliado pelo pensar de outros pensadores. Este viver, esta actividade é o que há de mais espiritual, de mais etéreo, que dá um imenso gozo a quem gosta de se entregar a essa actividade, e conduz até a que esse alguém se esqueça de que está neste mundo material, se esqueça do tempo, se esqueça do seu corpo.
Mas ainda em solidão, eu posso produzir um segundo íntimo diálogo a sós comigo mesmo, mas agora já conscientemente mergulhado no tempo! Isso sucede quando eu, disso tendo consciência, penso e falo mentalmente com o meu self, o meu eu que está no tempo, na história; com o eu que sofre vicissitudes, que nasceu e há-de morrer, que tem instintos, emoções, coração, sonhos … Naquele mais íntimo e primeiro diálogo, os dois interlocutores, como que fora do tempo, entendem-se um com o outro necessariamente, mas aqui, neste segundo caso, nem sempre os dois chegam a um recíproco entendimento.
Neste segundo contexto, nesta actividade do meu pensar em que, num dos interlocutores, avulta o meu corpo, uma das actividades mais deliciosas e salutares é o exercício da respiração, respiração abdominal que é a mais profunda, aquela que os bebés nos ensinam a fazer. Respiração que, nos seus dois movimentos de inspiração e expiração, tanto pode compreender todo o corpo em conjunto como pode focalizar-se ou incidir num só órgão ou região do corpo. Inspirar é trazer a vida, a saúde para o corpo; expirar é expelir o mal-estar, o stress, a doença.
Além de que esta respiração, assim consciente, é o melhor meio de não estarmos distraídos, de não andarmos a vadiar por longes com a nossa imaginação, de estarmos na casinha do nosso corpo. Quanto possível, “mente sã em corpo são”, como já se dizia na antiguidade latina, e também agora nós podemos dizer.
Além de que, ainda, esta respiração, assim feita, é a nossa melhor e primeira meditação! Com efeito, que melhor meditação haverá do que estarmos conscientes da vida a inundar-nos e a renovar-nos?
As aéreas redes sociais, que por aí pululam sobretudo por motivos mercantis, põem as pessoas a falar umas com as outras, sim senhor; mas, que podem as pessoas dizer entre si, nessas redes sociais, se não se habituam a falar intimamente consigo mesmas, com toda a riqueza de humanidade que isso nos oferece? Que substância poderão elas comunicar, se não têm o hábito de estar sós, nessa activa e benfazeja solidão, como acima está descrita?
Este texto é uma prendinha para as meninas e meninos já de avançada idade e residentes no lar onde estive, como também para a sua jovem e dedicada animadora, a de todos querida Ana Filipa. Uma prendinha envolta em papel de luxo, coroado com um lacinho vermelho. Façam favor! Tenho muito gosto!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Pistas de Leitura do Texto 45

Mordedelas & Companhia:
- A nossa experiência de mordeduras ou ferroadas;
- De como nos nascem as ideias de bom, de mau e de indiferente;
- As regras ou princípios de conduta social e íntima;
- A outra mordedela ou ferroada, que é o remorso;
- A culpa e o remorso, nascidos da transgressão de regras ou princípios morais;
- A culpa e o remorso saudáveis, mas também a culpa e o remorso que envenenam a vida;
- O que a religião tem a ver com a culpa e o remorso, e com a dor e o prazer;
- Dor, sim, mas só ao serviço do prazer;
- Que prazer então: o sempiterno mas descarnado prazer que a religião promete para depois desta vida, ou este prazer de carne e espírito que vamos tendo aqui nas nossas mãos?

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

45 - Mordedelas & Companhia



Enquanto o artista me andou a branquear as paredes da casa, tudo bem, mas quando ele saltou para o telhado a fim de pintar os flancos da esguia chaminé, lá no ar, então aí é que foi o cabo dos trabalhos!
Nesse dia, como já nos anteriores, o homem tinha almoçado no pátio, sentado a uma tosca mesa onde, enquanto comia, é natural que levantasse os olhos para um canto do telhado onde havia um ninho vivo de estimação! Eu respeitava as suas habitantes, e elas, em troca, também não me incomodavam. Porém, ele, não procedeu assim! Em vez de estimação e respeitinho, foi-se a uma aguçada e imprudente vara de marmeleiro…e esforricou o ninho todo!
Vai daí que, quando nessa tarde o homem começava a afagar com o pincel os flancos da chaminé, elas cercaram-lhe o corpo todo, ele reagiu em saltos e em danças no telhado – coitadas das telhas e de mim, como depois se averiguou e aconteceu – e o remédio foi ele desistir da incumbência, descendo de supetão todo picado de ferroadas, mordido intensamente pelas vespas!

Gosto muito de passear pelos campos: por estradas, por veredas, por carreiros. Pelos caminhos, no chão, estou sempre a encontrar pedrinhas, minúsculas pedrinhas, a que geralmente sou indiferente. Mas nem sempre é assim! Porque às vezes uma ou outra se entala entre a planta dos pés e a sandália e me começa a incomodar à brava, então eu tenho de dizer que aquela pedrinha, naquele caso, é uma coisa muito má para mim! E agora, se uma delas fosse, imaginem bem, fosse o “rubi” da cantiga do Rui Veloso, assim sendo uma pedrinha muito boa e valiosa, então eu tinha de a devolver ao Rui para ele oferecer – não intacto mas de novo inteirinho como em folha – o “anel de rubi” à menina! A pedrinha preciosa era então uma coisa muito boa para mim e para eles, além de ser ou vir a ser também de muita estimação para eles os dois!
E assim nascem o bom e o mau, o bem e o mal para estes seres mortais que somos nós (12). Aquilo que, para mim, não adrega de ser bom nem mau, isso é-me simplesmente indiferente, muito embora no futuro possa virar mau ou bom.

“Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam”, ou melhor e positivamente, “faz aos outros aquilo que gostarias que eles te fizessem” é a regra de oiro, muitas vezes experienciada e comprovada, para discernirmos entre o que é bom ou mau em contexto social, bem como para orientar mesmo essa convivência entre os humanos. Sobretudo em assuntos de profunda humanidade, em que estão em jogo os fundamentais direitos e deveres das pessoas, entre os quais vem à cabeça o sagrado direito à vida, e o dever de ela ser preservada. Mas há também princípios muito importantes que nós formulamos só para nós mesmos, a fim de regularmos com inteireza a nossa vida interior e privada. Em todo o caso, porém, quer em termos sociais quer em termos da nossa vida privada, eles são sempre princípios ou regras ditados, directa ou indirectamente, pela nossa consciência. De maneira que proceder de forma contrária ao que a minha consciência me dita ou ditou, em relação aos outros mas também a mim mesmo, isso é afrontar o sagrado que há neles e em mim, é perder de algum modo a dignidade e a honra, é ser desonrado e desonesto.

E assim nasce, por transgressão de regras ou princípios fundamentais de conduta, a culpa e o remorso.
Há portanto, além daquelas mordedelas provocadas pelas vespas, as mordedelas ou remorsos que nós sentimos na nossa consciência moral, remorsos que andam sempre juntos com a culpa, se é que eles não são as duas faces da mesma realidade. As mordedelas provocadas pelas vespas pertencem ao nosso mundo material, pois que mordem o corpo; a mordedela do remorso prende-se com o nosso mundo simbólico, e morde-nos na consciência. Não é porém, este último, um morder vulgar, um morder anódino. Pela sua etimologia, o vocábulo “remorso” aponta para o produto que fica depois de se ser mordido muitas vezes, e mordido intensamente.
É muito saudável sentirmos, na consciência, a culpa e o remorso. Pois então, no íntimo diálogo travado no nosso espírito, não há-de sentir-se culpado um dos intervenientes nem terá remorsos, se o outro interveniente não passar de um salafrário que não faz caso da honra e da dignidade pessoais?

Mas uma coisa é a culpa e o remorso que, embora reais e intensos, são vencíveis e ultrapassáveis e por isso temporários – afinal coisas boas que acontecem na nossa vida por termos fina sensibilidade aos valores que um dia por desgraça nós ofendemos –, e outra bem diversa é o sentimento ou complexo de culpa e o remorso duradoiros, e por isso poderosamente doentios, que se prolongam pela vida fora, mesmo depois de concluirmos que eles, na sua raiz, resultaram de “maldades” – assim mesmo consideradas pelo nosso moral código de infância – que hoje em adultos consideramos não terem qualquer fundamento racional. E no entanto, mesmo assim, esse enraizado sentimento de culpa e os remorsos continuam fazendo o seu caminho … envenenando a vida!
Considerando o sentimento de culpa, Bertrand Russell escreve: “Se nos tivéssemos desembaraçado do ascetismo (nunca fazer aquilo que só dá prazer), o homem virtuoso ideal seria o que gozasse todas as belas coisas da vida, sempre que não houvesse más consequências a sobreporem-se ao prazer”.

Também a religião tem muito a ver com este assunto da culpa, do remorso e do prazer. Pois não assenta ela, afinal, desde os seus alvores bíblicos – com aquele nunca bem esclarecido pecado original e aquela expulsão do paraíso –, num profundo e generalizado sentimento de culpa e consequente e também generalizado remorso a prolongarem-se em vaga de fundo para toda a humanidade, até à vinda de uma salvação que lhe venha de fora? E uma vez vinda essa salvação, não é ainda a persistente culpa e o persistente remorso que nos levam – a nós que continuamos a nada de bom poder fazer sozinhos – a impetrar incessantemente essa ajuda externa?
Por outro lado, não assenta ainda a religião, na negação do prazer? A tal salvação da Humanidade não foi operada pela dor e pelo sofrimento? Não é pela dor e pelo sofrimento que seremos salvos?
De forma bem diversa, porém, ao que acontece na religião, não deverá estar a dor, quando ela houver, ao serviço do prazer? Porque a dor, a dor em si mesma, ela é má para mim! Lembro-me muito bem da dor provocada pela tal pedrinha entalada entre o meu pé e a sandália, e por isso pedrinha má! Mas para alcançarmos os prazeres, sobretudo os mais difíceis e melhores, temos muitas vezes de passar por muitas dores!
Porque o prazer - nesta nossa vida humana em que há corpo e mente e só assim pode ser humana - é que é valor para mim! Prazer físico, mas também e por igual - ou até mais - prazer mental. Uma bela taça de morangos para consolar o paladar e a barrriguinha; uma envolvente obra literária com que me fascino e transcendo; um concerto de violino ou de piano, macio fio de ternura enrolando para dentro para o sossego da inquieta alma ou pingos de som caindo no vazio e no silêncio; um curso de estudos muito caro e longo e trabalhoso que me preparou para uma boa profissão; o amor de uma mulher ou de um homem para uma vida boa em família … Mas para colhermos estes ou outros prazeres, sobretudo os mais importantes e sublimes, temos de sofrer muita dor!
Não é verdade que, para a religião, a dor é que salva … e o prometido prazer vem só na outra vida? Mas que prazer será esse, para este ser humano feito de húmus ou terra, mas então já sem corpo e também sem alma, mas só espírito? Pois não é a nossa alma só a ressonância das paixões, a morada só das paixões que do corpo a ela sobem? E se desse vindouro e sempiterno gozo fizer parte o amor, como terá de fazer, como poderá o ser humano amar sem corpo nem alma, mas tão só com o descarnado, e frio, e impassível espírito? Mas como poderá subsistir esta preciosa luz sem a lâmpada do corpo, ou esta delicada flor sem o húmus da terra que é o corpo, para mais em estado intemporal, de todo desconhecido e diverso de tudo o que sói sermos? Podemos tornar-nos naquilo que nunca experienciámos, mas de modo a continuarmos a reconhecer-nos a nós mesmos? Ou algo diverso nascerá do que de facto morreu, outra vez do vazio e do silêncio?

Pistas de Leitura do Texto 44

- Surfando no Oceano da palavra poética:
- O poema lírico é uma sala de segredos;
- É também um bonito papagaio a voar no céu, mas sempre preso à terra;
- Os belos sentidos das palavras no poema, e a sua ligação a realidades terrestres;
- Um belo poema de Eugénio, e em que consiste o seu encanto.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

44 - Surfando no Oceano da Palavra Poética

Num blog denominado de “O Clube dos Poetas Vivos”, não se entende que nele não falemos formalmente sobre a palavra poética, nem muito menos que não nos deliciemos com esse sublime prazer da poesia. Por isso, aqui começam algumas palavras formais sobre poesia, mas também se apresentam alguns poemas para apreciar e fruir.

Na aérea ou líquida sala de segredos em que o lírico poema pulsa e respira, - ele é mesmo essa sala de segredos -, as palavras podem abrir-se-nos caleidoscopicamente numa pluralidade de sentidos figurados ou poéticos, os quais porém nunca se nos desvendam de forma aleatória. Na verdade, tais sentidos figurados têm de ser sempre relacionáveis e cotejados com o sentido primeiro ou vulgar ou denotativo das mesmas palavras, o qual as remete para as respectivas realidades mundanas assim significadas e conhecidas. O poema vive sempre nessa sala de segredos, mas sem esta contínua ligação das suas palavras ao mundo exterior e objectivo, ele não seria possível nem podia subsistir e ser compreendido. Aliás, se o aéreo significado habitual das palavras não estivesse sempre relacionado com realidades mundanas, não seria mesmo possível entendermo-nos uns aos outros através de palavras, nesta prosaica vida do nosso dia-a-dia!
O poema é um bonito papagaio de papel a voar no céu, sim senhor, mas para poder voar no céu, ele tem de estar preso à terra. Parece que anda solto no céu, mas não anda. Sem estar ligado à pedra da terrena realidade mundana, o sempre alado poema perder-se-ia no ar, levado pelo vento. É sempre a partir da terrena realidade que ele se levanta, e só nessa relação ele pode subsistir e dele podemos usufruir.

Para Eugénio, o bem-nascido poeta, é na memória que está a semente da palavra poética, que o sonho depois fará germinar e nascer. Palavra que desvela o poeta aos outros seres da Terra, sobremaneira aos humanos, sendo que a fina-flor do seu canto é o amor. Canto sempre encantatoriamente feito de ritmo, eufonias, musicalidade e palavras, nele ressoando múltiplos sentidos.
Transcrevamos aqui um desses seus belos textos, a que deu o nome de “RETRATO”: “No teu rosto começa a madrugada. / Luz abrindo, / de rosa em rosa, / transparente e molhada. // Melodia / distante mas segura; / irrompendo da terra, / quente, redonda, madura. // Mar imenso, / praia deserta, horizontal e calma. / Sabor agreste. / Rosto da minha alma.”
Neste poema, o poeta convoca realidades da Natureza para assumirem sentidos poéticos, e com eles e elas fazer o retrato de um Tu que amou no passado, (portanto um amor perdido), mas retrato com o qual também o Eu do poeta se identifica e confunde.
Bem sabemos o que são “rosto”, “madrugada”, “luz”, “rosa”, “melodia”, “terra”, “mar”, “praia”, tudo realidades objectivas, todas fora do Eu poético e do Tu retratado, excepto “rosto”. Mas também “rosto”, (como aliás todas as outras palavras acabadas de referir), tem aqui um sentido segundo ou poético, pois ele é, nos dois casos, o “rosto” da “alma”. E só conhecendo o sentido habitual de todas essas palavras, a remeter para realidades objectivas e concretas aqui convocadas pelo poeta, nós podemos chegar aos sentidos que o poeta quer imprimir no seu texto. Cada receptor chegará à sua maneira, certamente, pois cada um tem a sua própria vivência das referidas realidades.

O notável encanto deste canto lírico está sobremaneira nos alados sentidos que, em última instância, se desprendem de objectividades por nós conhecidas e nomeadas, primorosamente escolhidas e convocadas pelo Eu poético, para com elas (realidades) e eles (alados sentidos) desenhar um “retrato”, alados e abertos sentidos ainda vestidos e sublimados de eufonias, musicalidade e ritmo.
Se o “retrato” do Tu amado (que afinal também é o do Eu poético) é feito com traços de objectividades da Terra, então é porque a subjectividade do poeta demiurgicamente as transfigura e recria através das palavras que habitualmente as nomeiam, assim lhes impondo novos e mais belos sentidos.
E então, o Eu poético desvenda-se-nos num retratado Tu que já só foi e não será, através da matéria verbal que remete para realidades significadas e agora transfiguradas, tudo constituindo um muito belo e saudoso canto de amor.