1 - Olá, amigas e amigos! Olá
Sérgio, Maria Filomena, João Paulo e Isabel Maia, atentos seguidores deste
blog!
Em muitos dos livros de auto-ajuda
que por aí pululam, ligados à consecução do bem-estar interior ou felicidade, os
seus autores defendem que nós e o mundo não somos essencialmente as aparências que os nossos sentidos nos
dão (texto 171). Somos, sim, dizem eles, algo de mais profundo, ou seja, somos Ser, somos Uno, somos Realidade,
algo sempre mais profundo (e por isso assinalado com maiúscula) do que aqueles atributos que nos aparecem, os quais se situam e nos
situam no tempo.
Porém, se defendem estes princípios,
é porque estão a pensar e a escrever em termos emocionais! Com efeito, em
termos emocionais, nós podemos navegar com toda a liberdade da imaginação e do
desejo, presentificando tudo o que de bom e belo quisermos para nós.
Acontece é que, em termos de razão
fria, as coisas não são bem assim! E para tentarmos explicar o assunto, falemos
antes de mais, brevemente, de dois desses referidos livros.
2 – Na sua
obra intitulada O Livro do Ego, com o subtítulo Liberte-se da Ilusão, Osho começa por
dizer: “O ego é um iceberg. Derreta-o. Derreta-o com amor profundo, para que
desapareça e se torne parte do oceano”. E vai depois dizendo que nós somos,
antes de mais e profundamente, Ser;
depois, também coração; e ainda, por
fim, mente. Dizendo ainda que esta, a
mente, ou melhor, que o conteúdo da mente é apenas uma projecção ou um implante
feito pela sociedade em nós; o coração é a fonte e o acúmulo das emoções, das
paixões e dos desejos; mas o Ser, sim, o Ser é que constitui a nossa
substância: ele é a parte de Deus que está em nós, parcela essa que “nos dá
paz, serenidade, felicidade, sensação de imortalidade”.
Por seu turno,
Eckhart Tolle escreve um livro a que muito significativamente dá o título O Poder do Agora. Mas … o que é, afinal,
o agora? Porque é que o agora tem
assim um poder tão especial? Que poder é esse?
Para o autor,
o agora não é o presente, e muito menos o passado e o futuro. Não é porque,
enquanto o presente e o passado e o futuro estão na cadeia superficial das
aparências e do tempo, o agora mergulha e encontra abrigo na profundidade do
Ser, onde as correntes ou a voragem do tempo se não sentem.
Mas que poder tão
especial será esse? Mergulhar no agora é alguém ligar-se, antes de mais, à
minúcia do seu íntimo movimento vital; é libertar-se (a espaços) do seu eu
mental ou psicológico que é só aparências, individualidade e tempo, com tal
libertação se imaginando ligado a toda a vida do Universo; também se imaginando
entrado e perdido no indistinto e real oceano do Ser, do Uno; acolhido acaso e
enfim por um Deus que é tudo em todos e em tudo, que é o Universo. Por se
alimentar desta profundidade, o agora estará sempre fora do tempo e será
eterno.
3 – Convidemos
agora a nossa razão fria a olhar para todo este assunto. Segundo os dois
autores em referência, nós somos habitualmente coração e eu mental, mas urge
que troquemos esta ilusão do nosso superficial eu mental pelo Eu profundo.
Nesta transformação, ainda os dois entendem que é o coração – esse centro de
emoções e desejos - que assume o comando da mente a fim de ela imaginar a
profunda Realidade universal, o Uno, o Ser, no qual devemos mergulhar e
perder-nos. Mas, para que isto aconteça, continuam, para sermos constituídos
desse Eu (com maiúscula), devemos, como já está dito, despir-nos deste nosso eu
mental (com minúscula), ou seja, deste recheio mental que a sociedade vem
impondo à nossa mente.
Ora – dizemos
agora nós –, o coração e também o eu mental são de facto entidades reais porque
nós as experienciamos, ainda que o eu mental nada mais seja que um frágil feixe
de percepções, umas às outras ligadas pela memória. Mas aquele Real profundo
(ou Uno ou Ser), bem como as tais parcelinhas nele existentes que constituiriam
o Eu profundo de cada um, tudo isto é produto da nossa imaginação, movida pelo
coração.
Aquela famosa
substância que nós pensávamos existir nos seres é provavelmente uma falácia
(ver texto 171 e outros). E sendo assim, nada
de mais profundo há nos seres, pois se resumem
aos atributos que deles podemos experienciar e que assim
nos aparecem. Por isso, de facto, quanto ao caso do nosso eu, só existe
o nosso eu mental, constituído pelas nossas percepções, muitas vezes, é certo,
influenciadas pela sociedade envolvente.
Não obstante,
é muito gostoso e salutar para a nossa saúde mental e física, esquecermo-nos (a
espaços) do nosso eu mental e mergulharmos as nossas capacidades mentais na cósmica
imensidão de onde vem a nossa origem, respirarmos ao seu ritmo, sentirmo-nos de
algum modo parte dela, habitar o seu silêncio pelo tempo que vamos tendo
disponível, no meio desta vida egoica e trepidante, ensopada de ruídos, de
mudanças e de tempo.
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