Outrora, quando éramos miúdos, a esta escola aqui ao lado – “Conde
de Ferreira”, de seu nome –, viemos todos em carros de cavalo fazer o exame da
4ª classe. Mas não viemos sozinhos, sem tripulações! Porque, além dos cavalos,
evidentemente, havia os respectivos condutores, cada um com a sua verdasca, os
nossos pais, e ainda os farnéis para almoçarmos aqui mesmo neste já então
aprazível jardim.
Fizemos então o exame da 4ª classe: exame de contas, de
história e geografia pátrias, de ciências, e exame sobretudo de língua. A nossa
língua seria água, se fôssemos peixes; seria ar, se aves fôssemos. Mas neste
nosso meio outro em que vivemos, a língua mãe continua a ser a água em que
nadamos e de que bebemos; a ser o ar para voarmos e respirarmos; a ser enfim o
nosso alimento mental, porque com ela comunicamos e pensamos.
Éramos um grupo para aí de uns 15 alunos e, como vínhamos
bem preparados, todos ficámos bem, e
mesmo 5 ou 6 distintos.
O exame deste então garotinho de 10 anos correu muito bem,
tanto na prova escrita como na oral. E lembra-se até de que, nesta última, com
examinadores à perna a fazerem-lhe perguntas e a ouvirem as respostas, ele pôde
sentir uma indefinível e por isso inefável emoção que, só dois ou três anos
mais tarde, ele vislumbrou um tanto, só um tanto, quando veio a conhecer o
passo bíblico em que o Menino esteve no templo entre os doutores da Lei.
“Mal acomparado” – digo agora eu como ainda se diz na
Gândara profunda –, os dois casos tinham de facto algumas, se bem que ténues,
semelhanças. Mas “mal acomparado” mesmo, por duas evidentes razões. A primeira
era que, embora as circunstâncias fossem semelhantes, nunca podemos comparar um
bichinho humano com um deus, muito embora cada um de nós seja um deus em ponto
pequenino, e aquele Menino, nessa altura entre os doutores, também fosse um deus
pequeno, um deus que ainda não tinha engrandecido. A segunda prende-se com o
facto de que o caso do exame do garotinho aconteceu realmente, enquanto que tal
caso do Menino entre os doutores talvez até nem tenha ocorrido!
De muitíssimas percepções – como esta(s) do exame da 4ª e as
da ténue semelhança com o caso do Menino – umas mais acentuadamente externas e
outras mais íntimas e todas elas ligadas pela memória ao longo de toda a vida,
de todas as nossas percepções se vai fazendo o nosso eu mental. Mas todas elas,
enquanto tais, não são físicas mas só mentais, e por isso não ocupam lugar!
Será então que eu, aqui neste banco do jardim, não estou ocupando o meu lugar?
Com certeza que sim, pois que o nosso eu só pode florescer e existir num corpo
vivo - do qual também tenho percepção -, e por isso bem posso dizer que, graças
ao meu corpo, eu estou aqui sentado num bom banco do jardim, e, por sinal,
muito bem sentado!
Perpassa agora pelo jardim uma brisa leve, e aqui, neste
ponto secreto do jardim, sente-se muito bem o rumor e o olor das tílias. Que
gostoso é o perfume destas antigas e abençoadas árvores, trazido por este múrmuro
ventinho morno! Perante eles, não há caso que não mereça mergulhar e
confundir-se neles. Uma delícia para gozar profundamente, demoradamente, nesta dulcíssima
hora da tarde. Se o paraíso fosse assim, e nós vivos como aqui e agora nesta
mesma Gândara de retocadas feições, já não era nada mau!
Nota: Este texto foi imaginado no “primeiro
verão” ou tempo das flores do ano que
ora escorre, e dedica-se a todas as gentes do concelho de “Pedra Branca”, vulgo
Cantanhede: gentes vivas, a haver e já havidas.
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