quarta-feira, 7 de agosto de 2013

173 - O Rumor e o Olor das Tílias

Outrora, quando éramos miúdos, a esta escola aqui ao lado – “Conde de Ferreira”, de seu nome –, viemos todos em carros de cavalo fazer o exame da 4ª classe. Mas não viemos sozinhos, sem tripulações! Porque, além dos cavalos, evidentemente, havia os respectivos condutores, cada um com a sua verdasca, os nossos pais, e ainda os farnéis para almoçarmos aqui mesmo neste já então aprazível jardim.

Fizemos então o exame da 4ª classe: exame de contas, de história e geografia pátrias, de ciências, e exame sobretudo de língua. A nossa língua seria água, se fôssemos peixes; seria ar, se aves fôssemos. Mas neste nosso meio outro em que vivemos, a língua mãe continua a ser a água em que nadamos e de que bebemos; a ser o ar para voarmos e respirarmos; a ser enfim o nosso alimento mental, porque com ela comunicamos e pensamos.

Éramos um grupo para aí de uns 15 alunos e, como vínhamos bem preparados, todos ficámos bem, e mesmo 5 ou 6 distintos.
O exame deste então garotinho de 10 anos correu muito bem, tanto na prova escrita como na oral. E lembra-se até de que, nesta última, com examinadores à perna a fazerem-lhe perguntas e a ouvirem as respostas, ele pôde sentir uma indefinível e por isso inefável emoção que, só dois ou três anos mais tarde, ele vislumbrou um tanto, só um tanto, quando veio a conhecer o passo bíblico em que o Menino esteve no templo entre os doutores da Lei.

“Mal acomparado” – digo agora eu como ainda se diz na Gândara profunda –, os dois casos tinham de facto algumas, se bem que ténues, semelhanças. Mas “mal acomparado” mesmo, por duas evidentes razões. A primeira era que, embora as circunstâncias fossem semelhantes, nunca podemos comparar um bichinho humano com um deus, muito embora cada um de nós seja um deus em ponto pequenino, e aquele Menino, nessa altura entre os doutores, também fosse um deus pequeno, um deus que ainda não tinha engrandecido. A segunda prende-se com o facto de que o caso do exame do garotinho aconteceu realmente, enquanto que tal caso do Menino entre os doutores talvez até nem tenha ocorrido!

De muitíssimas percepções – como esta(s) do exame da 4ª e as da ténue semelhança com o caso do Menino – umas mais acentuadamente externas e outras mais íntimas e todas elas ligadas pela memória ao longo de toda a vida, de todas as nossas percepções se vai fazendo o nosso eu mental. Mas todas elas, enquanto tais, não são físicas mas só mentais, e por isso não ocupam lugar! Será então que eu, aqui neste banco do jardim, não estou ocupando o meu lugar? Com certeza que sim, pois que o nosso eu só pode florescer e existir num corpo vivo - do qual também tenho percepção -, e por isso bem posso dizer que, graças ao meu corpo, eu estou aqui sentado num bom banco do jardim, e, por sinal, muito bem sentado!

Perpassa agora pelo jardim uma brisa leve, e aqui, neste ponto secreto do jardim, sente-se muito bem o rumor e o olor das tílias. Que gostoso é o perfume destas antigas e abençoadas árvores, trazido por este múrmuro ventinho morno! Perante eles, não há caso que não mereça mergulhar e confundir-se neles. Uma delícia para gozar profundamente, demoradamente, nesta dulcíssima hora da tarde. Se o paraíso fosse assim, e nós vivos como aqui e agora nesta mesma Gândara de retocadas feições, já não era nada mau!

Nota: Este texto foi imaginado no “primeiro verão” ou tempo das flores do ano que ora escorre, e dedica-se a todas as gentes do concelho de “Pedra Branca”, vulgo Cantanhede: gentes vivas, a haver e já havidas.


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