sexta-feira, 30 de agosto de 2013

177 - O Que Aparece e/ou Realidade

1 - Olá, amigas e amigos! Olá Sérgio, Maria Filomena, João Paulo e Isabel Maia, atentos seguidores deste blog!
Em muitos dos livros de auto-ajuda que por aí pululam, ligados à consecução do bem-estar interior ou felicidade, os seus autores defendem que nós e o mundo não somos essencialmente as aparências que os nossos sentidos nos dão (texto 171). Somos, sim, dizem eles, algo de mais profundo, ou seja, somos Ser, somos Uno, somos Realidade, algo sempre mais profundo (e por isso assinalado com maiúscula) do que aqueles atributos que nos aparecem, os quais se situam e nos situam no tempo.
Porém, se defendem estes princípios, é porque estão a pensar e a escrever em termos emocionais! Com efeito, em termos emocionais, nós podemos navegar com toda a liberdade da imaginação e do desejo, presentificando tudo o que de bom e belo quisermos para nós.
Acontece é que, em termos de razão fria, as coisas não são bem assim! E para tentarmos explicar o assunto, falemos antes de mais, brevemente, de dois desses referidos livros.

         2 – Na sua obra intitulada O Livro do Ego, com o subtítulo Liberte-se da Ilusão, Osho começa por dizer: “O ego é um iceberg. Derreta-o. Derreta-o com amor profundo, para que desapareça e se torne parte do oceano”. E vai depois dizendo que nós somos, antes de mais e profundamente, Ser; depois, também coração; e ainda, por fim, mente. Dizendo ainda que esta, a mente, ou melhor, que o conteúdo da mente é apenas uma projecção ou um implante feito pela sociedade em nós; o coração é a fonte e o acúmulo das emoções, das paixões e dos desejos; mas o Ser, sim, o Ser é que constitui a nossa substância: ele é a parte de Deus que está em nós, parcela essa que “nos dá paz, serenidade, felicidade, sensação de imortalidade”.
         Por seu turno, Eckhart Tolle escreve um livro a que muito significativamente dá o título O Poder do Agora. Mas … o que é, afinal, o agora? Porque é que o agora tem assim um poder tão especial? Que poder é esse?
         Para o autor, o agora não é o presente, e muito menos o passado e o futuro. Não é porque, enquanto o presente e o passado e o futuro estão na cadeia superficial das aparências e do tempo, o agora mergulha e encontra abrigo na profundidade do Ser, onde as correntes ou a voragem do tempo se não sentem.
         Mas que poder tão especial será esse? Mergulhar no agora é alguém ligar-se, antes de mais, à minúcia do seu íntimo movimento vital; é libertar-se (a espaços) do seu eu mental ou psicológico que é só aparências, individualidade e tempo, com tal libertação se imaginando ligado a toda a vida do Universo; também se imaginando entrado e perdido no indistinto e real oceano do Ser, do Uno; acolhido acaso e enfim por um Deus que é tudo em todos e em tudo, que é o Universo. Por se alimentar desta profundidade, o agora estará sempre fora do tempo e será eterno.

         3 – Convidemos agora a nossa razão fria a olhar para todo este assunto. Segundo os dois autores em referência, nós somos habitualmente coração e eu mental, mas urge que troquemos esta ilusão do nosso superficial eu mental pelo Eu profundo. Nesta transformação, ainda os dois entendem que é o coração – esse centro de emoções e desejos - que assume o comando da mente a fim de ela imaginar a profunda Realidade universal, o Uno, o Ser, no qual devemos mergulhar e perder-nos. Mas, para que isto aconteça, continuam, para sermos constituídos desse Eu (com maiúscula), devemos, como já está dito, despir-nos deste nosso eu mental (com minúscula), ou seja, deste recheio mental que a sociedade vem impondo à nossa mente.
         Ora – dizemos agora nós –, o coração e também o eu mental são de facto entidades reais porque nós as experienciamos, ainda que o eu mental nada mais seja que um frágil feixe de percepções, umas às outras ligadas pela memória. Mas aquele Real profundo (ou Uno ou Ser), bem como as tais parcelinhas nele existentes que constituiriam o Eu profundo de cada um, tudo isto é produto da nossa imaginação, movida pelo coração.
         Aquela famosa substância que nós pensávamos existir nos seres é provavelmente uma falácia (ver texto 171 e outros). E sendo assim, nada de mais profundo há nos seres, pois se resumem aos atributos que deles podemos experienciar e que assim nos aparecem. Por isso, de facto, quanto ao caso do nosso eu, só existe o nosso eu mental, constituído pelas nossas percepções, muitas vezes, é certo, influenciadas pela sociedade envolvente.

         Não obstante, é muito gostoso e salutar para a nossa saúde mental e física, esquecermo-nos (a espaços) do nosso eu mental e mergulharmos as nossas capacidades mentais na cósmica imensidão de onde vem a nossa origem, respirarmos ao seu ritmo, sentirmo-nos de algum modo parte dela, habitar o seu silêncio pelo tempo que vamos tendo disponível, no meio desta vida egoica e trepidante, ensopada de ruídos, de mudanças e de tempo.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

176 - A Música do Vento


Ladino e artista é o vento:
não sendo nada senão
o nosso ar em movimento,
pelas gargantas dos montes
e das cavernas do chão
desde o princípio do mundo
vem tocando o instrumento
sua antiquíssima flauta

Só muito tempo depois
se vão levantando os deuses
sonolentos a tocarem
as suas flautas de  vento:
Hermes inventor e Apolo,
até Atena tocando
- mas não muito, não deforme
a fina boca e o semblante -
e ainda o hirsuto Pã
trazendo pânico aos homens
por se esconder entre canas
por seduzir pela arte

Mas já antes destes deuses
e sobretudo com eles
- cúmplices e criaturas
serão eles, dos humanos –
estes notam e incrementam
essa antiga arte do vento:

Seu cantar no nosso rosto
na fronde dos aloendros
indomáveis assobios
no cordame dos navios
mas também a sublime arte
de Mozart em uma flauta
tendo em fundo o pizzicato
das cordas em um quarteto,
adagio que tem início
ao cessar destas palavras
neste agora sem tempo


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

175 - Entre o Sinai e o Olimpo

Hábeis somos e também livres para fazer o mal
a merecer castigo, até castigo eterno,
mas não somos capazes de fazer o bem
nem merecer a recompensa, sobretudo eterna.
Quem estas, pela graça, nos poderá merecer
é o Cristo, no qual portanto
- sempre pela graça, pois de bem nada podemos fazer –
teremos de confiar.
É como se só tivéssemos uma perna e um braço e um olho,
sempre tudo só do lado esquerdo,
e a natureza não conhecesse o que é a simetria,
o equilíbrio, alguma perfeição no que faz.
A menos que, sabendo ela muito bem e assim tivesse feito,
tivéssemos sido nós a amputar-nos, por um pecado de origem,
ainda se podendo agora ver as cicatrizes do lado direito,
se tirarmos os gratuitos suplementos que a graça nos concede.

A graça só poderá elevar aquilo que antes
se fez descer muito fundo:
perdidos e no fundo ficaram o homem e o mundo,
depois que aquele se afundou no pecado
no meio de um jardim de flores e de frutos,
e depois que o tonitruante Deus ordenou no deserto
lá do alto do Sinai, árido monte


Tão longe do acolhedor e luminoso Olimpo

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

174 - A Dança Breve de um Dia

Equilíbrio frágil e fugaz
é a vida
numa dança de desequilíbrios e reequilíbrios

Equilíbrio perene é a morte:
ou ela é o princípio
de uma renovada dança
pó de estrelas a incendiar novas estrelas
sempre imbuídas de tempo?

O que haverá para nós
para além do tempo
se nós somos consciência
de mudanças e de tempo?

Ainda assim,
nesta vida de um dia,
há já o bom sabor dos frutos:
o belo o bom e o verdadeiro

Vida de um só dia, sim, mas
mesmo assim é bom!

Não é assim, Lídia?

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

173 - O Rumor e o Olor das Tílias

Outrora, quando éramos miúdos, a esta escola aqui ao lado – “Conde de Ferreira”, de seu nome –, viemos todos em carros de cavalo fazer o exame da 4ª classe. Mas não viemos sozinhos, sem tripulações! Porque, além dos cavalos, evidentemente, havia os respectivos condutores, cada um com a sua verdasca, os nossos pais, e ainda os farnéis para almoçarmos aqui mesmo neste já então aprazível jardim.

Fizemos então o exame da 4ª classe: exame de contas, de história e geografia pátrias, de ciências, e exame sobretudo de língua. A nossa língua seria água, se fôssemos peixes; seria ar, se aves fôssemos. Mas neste nosso meio outro em que vivemos, a língua mãe continua a ser a água em que nadamos e de que bebemos; a ser o ar para voarmos e respirarmos; a ser enfim o nosso alimento mental, porque com ela comunicamos e pensamos.

Éramos um grupo para aí de uns 15 alunos e, como vínhamos bem preparados, todos ficámos bem, e mesmo 5 ou 6 distintos.
O exame deste então garotinho de 10 anos correu muito bem, tanto na prova escrita como na oral. E lembra-se até de que, nesta última, com examinadores à perna a fazerem-lhe perguntas e a ouvirem as respostas, ele pôde sentir uma indefinível e por isso inefável emoção que, só dois ou três anos mais tarde, ele vislumbrou um tanto, só um tanto, quando veio a conhecer o passo bíblico em que o Menino esteve no templo entre os doutores da Lei.

“Mal acomparado” – digo agora eu como ainda se diz na Gândara profunda –, os dois casos tinham de facto algumas, se bem que ténues, semelhanças. Mas “mal acomparado” mesmo, por duas evidentes razões. A primeira era que, embora as circunstâncias fossem semelhantes, nunca podemos comparar um bichinho humano com um deus, muito embora cada um de nós seja um deus em ponto pequenino, e aquele Menino, nessa altura entre os doutores, também fosse um deus pequeno, um deus que ainda não tinha engrandecido. A segunda prende-se com o facto de que o caso do exame do garotinho aconteceu realmente, enquanto que tal caso do Menino entre os doutores talvez até nem tenha ocorrido!

De muitíssimas percepções – como esta(s) do exame da 4ª e as da ténue semelhança com o caso do Menino – umas mais acentuadamente externas e outras mais íntimas e todas elas ligadas pela memória ao longo de toda a vida, de todas as nossas percepções se vai fazendo o nosso eu mental. Mas todas elas, enquanto tais, não são físicas mas só mentais, e por isso não ocupam lugar! Será então que eu, aqui neste banco do jardim, não estou ocupando o meu lugar? Com certeza que sim, pois que o nosso eu só pode florescer e existir num corpo vivo - do qual também tenho percepção -, e por isso bem posso dizer que, graças ao meu corpo, eu estou aqui sentado num bom banco do jardim, e, por sinal, muito bem sentado!

Perpassa agora pelo jardim uma brisa leve, e aqui, neste ponto secreto do jardim, sente-se muito bem o rumor e o olor das tílias. Que gostoso é o perfume destas antigas e abençoadas árvores, trazido por este múrmuro ventinho morno! Perante eles, não há caso que não mereça mergulhar e confundir-se neles. Uma delícia para gozar profundamente, demoradamente, nesta dulcíssima hora da tarde. Se o paraíso fosse assim, e nós vivos como aqui e agora nesta mesma Gândara de retocadas feições, já não era nada mau!

Nota: Este texto foi imaginado no “primeiro verão” ou tempo das flores do ano que ora escorre, e dedica-se a todas as gentes do concelho de “Pedra Branca”, vulgo Cantanhede: gentes vivas, a haver e já havidas.


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

172 - Símbolos

Com materiais do sensível mundo
criamos o mundo simbólico
esse manto com que revestimos
 ou transformamos
as sensíveis realidades do mundo

Há a fonte dos sons
intensidade altura timbre
domados sons da música

Há o telúrico veio das pedras
em que moldamos a afeiçoada estátua
os volumes altivos de um monumento

Há as cores de uma pintura
as cores e os volumes deformantes
das figuras de Botero

Há ainda as palavras
sensíveis por fora espirituais por dentro
palavras batidas nas ruas
nas praças e jornais
também palavras gastas e não gastas
meu amor
olhos peixes verdes
olhos apenas olhos
quantas obras com as palavras
 criando vamos
umas boas outras más
tenebrosas ou luminosas
na oficina do mundo