sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

117 - Celebração da Palavra



         Olá! Ocorre hoje, aqui em Carapelhos (Mira), na sede da Confraria Nabos e Companhia, uma laica celebração da palavra. Houve a feliz iniciativa de organizar e publicar uma antologia de textos produzidos por ficcionistas gandareses, e agora leva-se a efeito o lançamento dessa obra ao público, o qual acorreu em grande número, sublinhando assim a importância que para si tem o evento.

         1 - Está ali, no meio da assembleia, uma mamã recente com o seu bebé ao colo, aconchegado ao lado esquerdo do seu peito. Ele ainda sentirá desse lado a fala antiga do coração materno, uma fala que ele conhece e reconhece muito bem, que sempre lhe fez companhia e lhe deu a necessária segurança, e ainda agora o põe mais sossegado do que em qualquer outro lugar.
         Mas não é dessa fala que ora vamos falar. O bebé terá de se integrar na comunidade dos seres humanos, e só geralmente através das palavras, que tem uma face significante e sensível e outra significada e abstracta, ele se poderá ir constituindo como pleno ser humano. A primeira face das palavras, seja no texto oral ou no escrito, pertence ao domínio do sensível, é objecto material para estimular os sentidos, mas a segunda face é abstracta, é conceptual, e portanto cada um de nós tem de a ir concebendo e moldando na sua mente, embora confrontando sempre com os seus iguais o produto desse íntimo labor.
         Por isto é que aquela querida mamã poderia estar ansiosa em relação ao futuro mais ou menos próximo do rebento que tem reclinado ao seu peito. Começará ele, já por estes dias, a articular os sons da palavra “mamã”, e a associá-los àquele imenso mundo de afecto que tão bem sente e conhece, agora já concretizado no vulto que ora o estreita ao coração ora está perante si ou o embala nos seus braços? Irá ele sabendo ligar, a cada palavra concreta que vai ouvindo, o significado ou significados que os seus familiares e outros lhe atribuem, e depois ligá-los ás suas correspondentes realidades? Que se irá passar quando ele descobrir os sons da palavrinha “Eu”, tão pequenina mas também tão prenhe de possíveis significados? Será que, como acontece com quase todas as crianças, ele a irá descobrir por volta dos três anitos, e depois nunca mais, pelo menos nos primeiros tempos após a descoberta, a deixará de proferir insistentemente? Que amplitude de significados irá dando ele a essa correspondente abstracção, aplicada a si próprio ao longo da sua vida? Os sons da palavra “Liberdade” remetê-lo-ão, através da abstracção que é o respectivo conceito, para algo de realmente concreto na sua vida, ou a liberdade permanecerá para ele só puro conceito, fumo leve que a aragem logo leva, e portanto sem consistência de realidade? Como ressoarão no seu íntimo os sons da palavra “Morte”? Será a significada realidade cruelmente vivenciada pelo precoce passamento de algum dos seus familiares, ou será ela uma realidade branca, a aceitar em todo o caso sem ressentimentos nem temores, como expressão última da ordenada harmonia do Universo?
         Poderia estar ansiosa a mamã, em relação ao futuro do seu bebé, mas não está! Ela só teria razões de sobra para estar ansiosa, se não confiasse na Natureza; se não tivesse fé nas capacidades da criança para aprender (ver textos 17.3 e 25); se não contasse com o espanto que há-de vir e a curiosidade dela face ao novo, que ela irá receber tão avidamente como pano seco em contacto com a água. Curiosidade e espanto pelas incontáveis realidades do mundo que a envolvem e constituem, logo querendo associar a cada uma delas a palavra que a sua falante comunidade usa para a nomear.

         2 - Quando o Sócrates de Atenas descobriu os conceitos, que estavam do lado de lá dos sons das palavras, muita gente mofou dele! Houve até um malandreco comediógrafo seu contemporâneo que injustamente o figurou em palco no ar, no braço levantado de uma grua, como se estivesse dizendo à assembleia que o filósofo andava na lua, ou melhor, nas “Nuvens”, em vez de trazer os pés bem assentes na terra.
         Injustamente acusado, sim, porque, se os conceitos nada são de real e terreno a não serem conceitos, e portanto algo só mental ou abstracto e de alguma forma aéreo, eles são abstracções que fazemos a partir de realidades mundanas, mas para depois os fazermos descer e aplicar a realidades do mundo. São como papagaios de papel que adejam no ar, mas fabricados na terra e presos às realidades da terra, e por isso também terrenos.
         Ao contrário desse Sócrates, quem pôs os conceitos no ar e no céu e lhes deu consistência de realidades do hiperurânio foi o seu discípulo Platão, que os tornou ideias arquétipo, mesmo reais, de todas as entidades que nos aparecem, que são as realidades mundanas. Para este, as verdadeiras realidades são as luminosas ideias ou conceitos, porque o resto, o mundano, é só sombras e aparências.
         Felizmente, Aristóteles, por sua vez discípulo de Platão, não seguiu a esteira do seu mestre, pois voltou às verdadeiras realidades mundanas, ao nosso mundo das coisas (ver texto 21).
         Veio muito mais tarde Abelardo, de novo protestando que os conceitos eram puras abstracções e não tinham consistência real, fora do nosso mundo. Foi um protesto que ele chegou mesmo a fazer à frente de um convento, cujo prior-mor tinha opinião contrária, e que depois foi santo (texto 1). É tudo isto uma questão que ainda não está definitivamente resolvida. Porém, o mais provável será que haja simplesmente esta nossa realidade mundana, sendo todas as abstracções, que são os conceitos ou significados das palavras, parte desta nossa mundana realidade, mas só enquanto abstracções que são.

         3 - Celebramos então a festa das palavras. Palavras feitas de significantes e significados; de sons ou letras a anunciar conceitos; palavras feitas de terra mas também etéreas; agarradas à pedra do chão mas também esvoaçando ao vento no diáfano ar, como papagaios de criança. Afinal, palavras por nós fabricadas de barro e espírito, à nossa imagem e semelhança.
         Ouve-se o repousante rumor do vento nas cristas dos pinheiros da Gândara; a sonante brisa nos canaviais de Pan, sobre os cabeços dos córregos; ouve-se ainda o domado vento na linguagem das aves e de outros animais; enfim ouve-se o artefacto da palavra humana, pelo Homem inventada e produzida, feita símbolo não só para comunicarmos entre nós no dia-a-dia, mas também para fazermos arte, como é o caso da obra literária, com seus mundos imaginários e belos.
         Palavras frágeis, é certo, como frágeis nós somos! Mas, ainda assim, palavras com as quais podemos crescer e nos irmos humanizando, tomando posse delas e usufruindo do seu recheio. Palavras também que, ao contrário, nos podem distrair e até pôr receosos pelo enorme séquito de pensamentos e ideologias que arrastam consigo e nos entulham e perturbam a alma … Porque o melhor de tudo para nós …ainda é o silêncio!
         Laica celebração é esta, ou ela é a celebração realmente mais sagrada que todos os humanos podem fazer?

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