sábado, 17 de março de 2012

55 - Ainda sobre o Novo Acordo Ortográfico

No princípio era a palavra oral. Foi com ela que os humanos começaram a comunicar entre si e se constituíram como seres humanos. Mas depois, eles criaram o artefacto da palavra escrita, que é uma forma de comunicar mais elaborada e duradoura. A oralidade começou quando apareceu o ser humano, o qual é por natureza pensante e falante, enquanto que, da escrita, ele virá a ser só inventor.
E ao inventarem a escrita, que agora se junta à oralidade, os humanos iniciaram um perene e recíproco relacionamento entre a palavra escrita e a palavra oral, as duas sendo, muito embora com características diversas, a expressão ou a materialização do mesmo verbo mental. São duas irmãs com que nós linguisticamente nos entendemos uns aos outros, devendo nós também entender-nos com ambas, nessa relação de semelhança que também as distingue.
Se a linguagem oral é natural e espontânea e por isso tendencialmente descuidada, já a linguagem escrita, por ser um artefacto, é mais cuidada e duradoura. Ao ser produzida, a primeira é mais veloz, quase à velocidade do pensamento a expressar; enquanto que a segunda é sempre muito mais lenta, pois que mesmo o escrever “ao correr da pena” é geralmente mais lento que o pensar e o falar. Como a primeira é espontânea e produzida em sons, ela facilmente se evola e desaparece, são palavras que o vento leva; ao passo que a segunda, produzida em grafemas, deixa um produto mais elaborado e permanente.

Sem poder perder a sua relação com a oralidade, e sendo um artefacto duradouro que aí fica, a linguagem escrita, mesmo independentemente dos conteúdos que veicula, ela própria, por si mesma, é já um produto cultural onde se devem guardar memórias culturais. Este é, por exemplo, o caso de alguns vestígios de línguas anteriores que, muito embora já tenham caído em parcial desuso na oralidade, constituem um meio precioso para nos ajudar a reconhecer famílias de palavras na nossa língua, assim nos levando não só a escrevê-las correctamente, como ainda a captarmos de uma forma mais perfeita o seu significado.
Por isso, quanto às assim denominadas “consoantes mudas”, em vez de lhes chamarmos “consoantes mudas”, chamemos-lhes “consoantes etimológicas”. Seriam “consoantes mudas” se as olhássemos na perspectiva da oralidade, mas elas não são oralidade mas escrita. E a escrita não é papel químico para passar a oralidade para suporte estável. A lentidão e a ausência de circunstância viva com que habitualmente a escrita é produzida são prova disso mesmo. A escrita não é serva da oralidade, muito embora esta sua irmã seja muito mais velha, já que tem a idade do seu pai falante. Sendo irmãs, elas são também dois domínios diferentes. Não sendo para transcrever a oralidade, a escrita cumpre outras funções: ela serve sobretudo para dar perenidade a conteúdos verbais, transmiti-los à distância espacial e ainda para fazer obra de arte literária.

Por isso, como artefacto que é, a palavra escrita não é para andar a bater constantemente pelas praças e calçadas, sempre sujeita aos maus tratos das deficiências ou alterações de pronúncia, mas para estar aí a testemunhar sobre a sua origem, a evidenciar semelhanças com outras da mesma família etimológica na mesma língua, e com palavras parecidas de outras línguas, tudo em virtude de todas se fundarem no mesmo étimo. Num mundo globalizado em que precisamos de conhecer outras línguas que agora nos estão surpreendentemente tão próximas ou, pelo menos, ter delas alguns rudimentos, as consoantes etimológicas prestam-nos o seu serviço.
Conclui-se então que uma boa ortografia deve guiar-se por dois critérios, em compromisso um com o outro: o critério da pronúncia ou da oralidade, mas também o critério científico-etimológico. Assim, se é importante para uma correcta grafia o critério da pronúncia, não é menos relevante o critério científico-etimológico que pede para se escrever “fracção” e não “fração”, “faccioso” mas também “facção” e “factura”,”rubrica” e não “rúbrica”, assim até corrigindo neste último caso a pronúncia. Porque uma língua, tal como nós, precisa de memória.

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