Olá, meninas e meninos!
Estou sentado à mesa onde faço as minhas leituras, das quais recolho e fruo espiritual prazer. Este prazer – que por vezes me inunda de alegria ou pena ou carinho ou repulsa e também comoção – é ele em mim motivado pelo espírito ou pela alma? Por certo que é pelo espírito (activo e impassível) e não pela alma (passiva e passível de todas as paixões), não é verdade? Motiva-o o espírito, mas a alma, vindo-lhe do espírito mas também de todo o corpo, é que o sente! É um prazer tão ou mais intenso como aquele que com a minha alma eu sinto quando, a outra mesa sentado, eu estou alimentando o meu corpo e o meu cérebro, ou deitado estou na cama, não dormindo mas depois ao acordar, sossegado, repousado, outra vez carregado de energia.
Na minha mesa de leituras, tenho hoje aqui à frente, de um José, um livro. Já por aqui passaram por este blog outros Josés. Um, com quem, calmamente, troquei brancas palavras sobre a morte; outro, também escritor, com quem estive numa gostosa e longa cavaqueira sobre um livro seu; e depois ainda um outro que, sendo embora Francisco, também podia chamar-se José, falando nós os dois, de uma forma sentida, sobre a actual descrença em Deus.
Tenho então agora à minha frente, nesta mesa de leituras … um livro de um José. Mas esta coisa assim indeterminada (de um livro e de um José) não pode estar aqui à minha frente! Digamos então que este (um livro de um José) é, bem determinadamente, o livro Livro do José Luís Peixoto: o livro que se intitula Livro.
Por meio de um primeiro narrador não personagem, o autor da narrativa começou por idealizar o livro, que fez passar de mão em mão. Quem primeiro apareceu com o livro foi uma mãe solteira, de má fama, que o depositou nas mãos do seu filho de seis anos. Mas depois, como ela tivesse de emigrar e o filho fosse ainda uma criança que pensava mais em pássaros do que em livros, ela entregou os dois ao cuidado de um pedreiro. Quando o rapaz se fez adolescente, o pedreiro pôs outra vez o livro nas mãos do rapaz, que, por sua vez, para firmar o namoro que tinha com uma menina, o passou para as mãos dela. Só que esta rapariga, tal como aquela outra mulher – mulher sem nome e de má fama – também teve de emigrar sozinha para França, levando o livro consigo. Aí, em Paris, por meio de um segundo nível de leitura do livro, conheceu um foragido português revolucionário e devorador de livros, e casou com ele. Nasceu então Livro, personagem e segundo narrador, o qual se identifica com o livro. Ele narra e também escreve o livro, ele é o livro, e o livro é ele, Livro.
Mas Livro, conversando com o leitor, sempre dentro da narrativa, diz-lhe que este nunca saberá tudo acerca dele. Ora, em princípio, um leitor pode saber tudo sobre um narrador personagem, sempre que ele ocorra, pois esse narrador esgota-se no próprio texto que vai narrando e neste caso também escrevendo, sendo só e tudo o que aí sobre ele se pode observar. Mas se Livro, personagem e narrador, diz ao leitor que nunca poderá saber tudo acerca dele, então é porque, neste caso, ele não se esgota na imaginada narrativa, tal é a sua quase-identificação com o autor. Não se esgotar na narrativa é a condição negativa para a existência da tal quase-identificação com o autor. Mas agora, positivamente, há pelo menos mais duas importantes semelhanças entre os dois, pois que ambos, autor e Livro, falam e escrevem em português e têm a mesma idade, já que ambos nasceram em 1974. Livro diz que tem 36 anos, e o autor – ficamos a sabê-lo por fora da narrativa e só pela orelha esquerda da capa do livro em papel – tem também a mesma idade!
É claro que também existem diferenças entre os dois. A primeira e principal de que todas as outras derivam, é que o autor é um ser real, e Livro é só e simplesmente imaginado, literariamente imaginado pelo autor, que lhe dá por exemplo a ciência que deve possuir para fazer a exacta narração de tudo e só daquilo de que o autor o incumbe. Mas é também o autor que lhe quer imprimir essa profunda semelhança e quase-identificação com ele mesmo, de tal maneira José, o autor, se revê nessa figura narradora e naquilo que ela narra. Livro produto e Livro personagem narradora transformaram-se no autor, e o autor transformou-se neles.
Não adormeçam, meninas e meninos, não adormeçam nem virem os olhos e as mãos para outras leituras ou outras coisas a fazer! Vejam se conseguem levar esta tormentosa leitura até ao fim, porque podem colher algum prazer com ela. Olhem que o José autor de textos está ali a ouvir e a ler este outro texto com toda a atenção, vê-se muito bem!
Ao contrário dos romances tradicionais, que são claros e acabados, produtos prontos para o leitor consumir, esta narrativa nem é clara nem acabada. Ela convoca constantemente o leitor a ter o seu trabalho de interpretação do que vai lendo à superfície textual. À primeira vista, parece até que o texto está desfocado, assim exigindo redobrada atenção ao leitor, que só encontrará a sua nitidez e clareza, fora e acima da lógica e pensamento tradicionais. É certo que o discurso literário, pela sua linguagem figurada, está sempre acima e fora do discurso denotativo de um ensaio. Mas nesta obra as palavras, que não são muitas – os diálogos, por exemplo, são feitos mais de silêncios que de palavras -, elas assumem aqui um peso invulgar, pelo arrojo e riqueza imagística que comportam. E em virtude desta riqueza e densidade das palavras, o leitor é instado a parar para as acolher, as relacionar com outras, as entender e, finalmente, as saborear em toda essa sua amplitude significante. Porque nesta narrativa, se pararmos nas palavras e as olharmos com atenção e ternura, nós vamos encontrar uma fresca nitidez de significação e sentido, para a qual notoriamente contribui – não podemos esquecer – uma muito cuidada pontuação do texto.
Para que a aérea rede simbólica das actuais narrativas literárias possa, para nós, ser objecto de conhecimento e ter sentido, é sempre preciso que elas estejam agarradas à terra, ancoradas a pedra ou pedras não movediças. Ora, uma destas âncoras, no vertente caso desta narrativa, é precisamente a pontuação. Tão meticulosa e precisa e importante é ela que, daquele encontro secreto de uma mulher e de um homem por detrás da fonte nova, ao cair da noite de um arraial na vila, resultou que uma preciosa vírgula é que foi fazendo caminho para o ventre da mulher! Mas…a quem pertencerá de facto esta vírgula, da qual irá nascer o tal bebé denominado Livro? Virá mesmo do homem que se encontrou com aquela mulher?
Por outro lado, Livro narrador confessa estar possuído de muitas incertezas. E, quanto a saber o que é a verdade, “Sim, já sei. O que é a verdade? Sim, já sei, não sei”. Pois é, meu caro Livro, pois é, caríssimo José, também eu sei que não sei o que ela é, a não ser que ela seja a fiel e silenciosa companheira do que é muito provável, sempre tenteada e confirmada e outra vez posta em causa e sempre o mesmo por aí fora. Aquela personagem caída no barranco morreu ou não morreu? Aquela velha, morta no caixão e decompondo-se sob a terra está morta ou está viva?
Há um costume entre nós, seres humanos, que me parece certo: é impormos nome às coisas e às pessoas. Elas aparecem-nos, e nós impomos-lhes nome. Com ele, elas saem do anonimato da inexistência e entram a existir. Em relação a nós, com isso, nós desalienamos o mundo. No caso de um texto literário, o autor pensa-as e, com pensá-las, nomeia-as primeiro com o verbo mental, mas depois, habitualmente, também lhes atribui um nome de palavra(s). Nesta narrativa, porém, três personagens existem, pelo menos, que não têm nome de palavras. A primeira é aquela mulher em cujas mãos o livro nos aparece pela primeira vez; a segunda é aquele homem portador do pesado malote, esquecido na estação de Austerlitz; a terceira é de novo uma mulher, uma portuguesa velhinha de oitenta e muitos anos, que morreu na estrada, abalroada pelo carro conduzido por Livro. Ou serão estas duas mulheres, uma só mulher? Se só uma são, então a mulher que introduziu o livro na narrativa, o qual depois foi personificado em Livro, é quem cessa de existir por via do acidente causado por Livro com o seu carro, quase no fim da narrativa. Certamente que, para o autor, elas têm um nome mental, embora não o tenham de palavras. E se o autor as quis deixar assim, será porventura para que cada um dos leitores lhes possa atribuir, só com seu verbo mental, um nome ou nomes para cada uma das duas, ou três!
Ao longo da narrativa, uma branca onda de ternura envolve muitas personagens, entre as quais os simples e diminuídos mentais e também o povo anónimo deserdado do bem-estar económico e social; mas também se levanta uma vaga negra que repele uma religião instalada e mancomunada com uma política prepotente e ensimesmada, paradas no tempo, quistos sebáceos e parasitas de um povo pobre e esquecido, negra vaga que afasta também revolucionários de pacotilha que fogem do país, também parasitas das famílias, intratáveis intelectualóides que passam uma vida indolente e inútil a remoer inutilidades ideológicas e ressentimentos por dores não sofridas e com desprezo por quem as sofre.
Não esquecer também aquelas quase inexcedíveis arte de narrar e beleza de escrita: o encadeamento dos diálogos na narração, quase todos feitos só de silêncios ou pouco mais; o pitoresco de um passo em que os pides prendem um bêbedo; a contenção e o peso das palavras; a riqueza vocabular; as formas inusitadas e muito belas de dizer; as figuras literárias e muitos outros passos da narrativa a ressumarem de ironia, tudo isto a exigir-nos demora, para de tudo colhermos prazer e podermos usufruir.
De facto, uma fina e profunda ironia alastra e corrói enraizadas ideias e ideologias e também instituições nelas inspiradas e construídas e depois quase eternizadas. A ideia do romance certinho, linear, acabado, pronto a consumir; as ideias de uma lógica e de uma ontologia com as suas verdades inconcussas; as ideias e ideologias de uma política e de uma religião conluiadas uma com a outra e manipulando o povo, como foi o caso da construção do posto da guarda na vila, que depois nunca teve agentes mas foi antro de prostituição. Há também a não comparência do presidente do conselho na inauguração da nova fonte porque cada uma das duas pessoas a quem competia fazer o convite à referida figura pensou que a outra já o tinha feito e por isso não o fez, ninguém depois explicando ao povo o motivo dessa ausência. Há ainda o caso de o Sermão do Encontro, na procissão dos Passos, não ser atendido por qualquer dos fiéis presentes, e outrossim, como já se referiu, a presença de um intratável e fanático revolucionário encalhado em ideias mortas, que de todo não podia ser o pai de Livro.
Mas, se este intratável rato de biblioteca não podia ser o pai de Livro, e também já acima se duvidou que tivesse sido uma outra figura masculina que se encontrou secretamente com uma mulher atrás do fontenário da vila ao cerrar de uma noite festiva, quem terá sido então o seu pai? E, já agora, quem terá sido a sua verdadeira mamã? Nós sabemos que uma vírgula, a qual é sempre um elemento literário, aqui se fez sémen para gerar nova vida no ventre de uma mulher. Será então esta mulher a verdadeira mãe de Livro? Quem são verdadeiramente os pais de Livro? Não pensem os meninos e as meninas que eu vou desvendar aqui e agora este delicioso imbróglio! Tão-somente lhes deixarei três chaves para poderem decifrar o enigma. É a primeira a “verosimilhança”: numa narrativa, é natural que qualquer personagem nasça de um pai e de uma mãe, por forma e por meios semelhantes àqueles que acontecem na vida real entre os seres humanos; a segunda, de alguma forma relacionada com a primeira, é aquela que se encontra na expressão “barriga de aluguer”; a terceira, última e decisiva chave, é a própria “inspiração literária do autor”, a qual nos indicará quem são os verdadeiros pais de Livro! Nada mais agora sobre este assunto se adianta, mas quem quiser fazer perguntas faça favor de comentar este texto, que talvez … que talvez se consiga responder!
Há ainda na narrativa, bem evidente, um profundo e longo sulco de sagrado, que é o sagrado que se encontra no ser humano. Ele nota-se logo nas firmes e consistentes palavras escolhidas e na correspondente filigrana de sentidos que delas irradiam: lembremos de passagem que o ser humano, além de congenitamente ser húmus e terra, é também ser de palavras e de intemporais pensamentos. Patente ainda está o sagrado nos ternos traços com que são desenhadas muitas das personagens, sobremaneira aquelas que vão sendo as portadoras do livro, até chegar e incluir o Livro mesmo. Patente nessa ternura e naquilo que nas personagens a solicita. Claro que tal sagrado é um sagrado intra-mundano, já que o que vem da religião instituída, por intermédio do padre, o sagrado de fora do mundo, é sempre e liminarmente rechaçado.
Caro autor de Livro, caros meninos e meninas desde jovens a maduras e maduros e a todos os velhinhos que ainda têm a cabeça com luz, (já que as crianças, essas, estão muito atentas é a ver os seus bonecos, deixá-las estar, e os adolescentes elas e eles andam aos pardais, deixá-los andar também)! Como leitores, com um pé, pelo espírito que somos, nós somos circulares e eternos como Livro. Mas com o outro pé, que assenta na objectiva realidade mundana, também somos húmus, também somos esterco, também somos morte. Lembras-te, José, lembras-te daquele pesado malote que uma das personagens por ti criadas deixou abandonado na estação de Austerlitz? Mas como foste tu que inventaste essa personagem, também foste tu que, de alguma forma, o abandonaste! Em contraponto com a morte, a realíssima morte, estarmos dentro da obra literária e estarmos dentro da vida – vida mortal, já se vê -, podem mesmo quase identificar-se: “Por enquanto, aproveitemos, ainda estamos aqui”, diz-nos Livro terminando a narrativa.
Já sentiste com certeza, caro José, sentiste que, quando temos viva consciência de que somos mortais, isto é, quando notamos que a morte é nossa inseparável companheira, então, a nossa vida, vida mortal, assume uma outra densidade, tem mais sumo e brilho! E então, porque não partes daquele abandonado malote em Austerlitz para um novo e também muito belo voo literário? Transformada essa nova obra em nós, e nós transformados nessa obra nova, a nossa real vida mortal não será ela também transformada? Digo isto, autor José: Só seremos radicalmente felizes nesta nossa vida mortal se, continuadamente, fizermos contraponto da nossa vida … com a nossa morte. E o texto literário pode ajudar muito nisso. Não se trata de produzir um texto de psicologia positiva, não, mas de nos centrarmos literariamente naquilo que somos e como somos, e de literariamente se desenhar uma luz racional e emocional que oriente o ser humano, na limitada e aberta vida que o possui. Não poderemos, quanto a esta negra realidade da morte, transformá-la em realidade branca?
Que bom é estar vivo para poder usufruir do prazer da leitura e releituras deste livro Livro – com prazer começámos e com prazer terminamos -, sempre descobrindo novos e gostosos pormenores. Estar, como leitor, com um pé dentro do imaginário mundo da narrativa, e o outro pé assente na sua realidade mundana, o leitor se transformando nela, e ela nele se transformando! Um abraço muito sentido para o José.
Estou sentado à mesa onde faço as minhas leituras, das quais recolho e fruo espiritual prazer. Este prazer – que por vezes me inunda de alegria ou pena ou carinho ou repulsa e também comoção – é ele em mim motivado pelo espírito ou pela alma? Por certo que é pelo espírito (activo e impassível) e não pela alma (passiva e passível de todas as paixões), não é verdade? Motiva-o o espírito, mas a alma, vindo-lhe do espírito mas também de todo o corpo, é que o sente! É um prazer tão ou mais intenso como aquele que com a minha alma eu sinto quando, a outra mesa sentado, eu estou alimentando o meu corpo e o meu cérebro, ou deitado estou na cama, não dormindo mas depois ao acordar, sossegado, repousado, outra vez carregado de energia.
Na minha mesa de leituras, tenho hoje aqui à frente, de um José, um livro. Já por aqui passaram por este blog outros Josés. Um, com quem, calmamente, troquei brancas palavras sobre a morte; outro, também escritor, com quem estive numa gostosa e longa cavaqueira sobre um livro seu; e depois ainda um outro que, sendo embora Francisco, também podia chamar-se José, falando nós os dois, de uma forma sentida, sobre a actual descrença em Deus.
Tenho então agora à minha frente, nesta mesa de leituras … um livro de um José. Mas esta coisa assim indeterminada (de um livro e de um José) não pode estar aqui à minha frente! Digamos então que este (um livro de um José) é, bem determinadamente, o livro Livro do José Luís Peixoto: o livro que se intitula Livro.
Por meio de um primeiro narrador não personagem, o autor da narrativa começou por idealizar o livro, que fez passar de mão em mão. Quem primeiro apareceu com o livro foi uma mãe solteira, de má fama, que o depositou nas mãos do seu filho de seis anos. Mas depois, como ela tivesse de emigrar e o filho fosse ainda uma criança que pensava mais em pássaros do que em livros, ela entregou os dois ao cuidado de um pedreiro. Quando o rapaz se fez adolescente, o pedreiro pôs outra vez o livro nas mãos do rapaz, que, por sua vez, para firmar o namoro que tinha com uma menina, o passou para as mãos dela. Só que esta rapariga, tal como aquela outra mulher – mulher sem nome e de má fama – também teve de emigrar sozinha para França, levando o livro consigo. Aí, em Paris, por meio de um segundo nível de leitura do livro, conheceu um foragido português revolucionário e devorador de livros, e casou com ele. Nasceu então Livro, personagem e segundo narrador, o qual se identifica com o livro. Ele narra e também escreve o livro, ele é o livro, e o livro é ele, Livro.
Mas Livro, conversando com o leitor, sempre dentro da narrativa, diz-lhe que este nunca saberá tudo acerca dele. Ora, em princípio, um leitor pode saber tudo sobre um narrador personagem, sempre que ele ocorra, pois esse narrador esgota-se no próprio texto que vai narrando e neste caso também escrevendo, sendo só e tudo o que aí sobre ele se pode observar. Mas se Livro, personagem e narrador, diz ao leitor que nunca poderá saber tudo acerca dele, então é porque, neste caso, ele não se esgota na imaginada narrativa, tal é a sua quase-identificação com o autor. Não se esgotar na narrativa é a condição negativa para a existência da tal quase-identificação com o autor. Mas agora, positivamente, há pelo menos mais duas importantes semelhanças entre os dois, pois que ambos, autor e Livro, falam e escrevem em português e têm a mesma idade, já que ambos nasceram em 1974. Livro diz que tem 36 anos, e o autor – ficamos a sabê-lo por fora da narrativa e só pela orelha esquerda da capa do livro em papel – tem também a mesma idade!
É claro que também existem diferenças entre os dois. A primeira e principal de que todas as outras derivam, é que o autor é um ser real, e Livro é só e simplesmente imaginado, literariamente imaginado pelo autor, que lhe dá por exemplo a ciência que deve possuir para fazer a exacta narração de tudo e só daquilo de que o autor o incumbe. Mas é também o autor que lhe quer imprimir essa profunda semelhança e quase-identificação com ele mesmo, de tal maneira José, o autor, se revê nessa figura narradora e naquilo que ela narra. Livro produto e Livro personagem narradora transformaram-se no autor, e o autor transformou-se neles.
Não adormeçam, meninas e meninos, não adormeçam nem virem os olhos e as mãos para outras leituras ou outras coisas a fazer! Vejam se conseguem levar esta tormentosa leitura até ao fim, porque podem colher algum prazer com ela. Olhem que o José autor de textos está ali a ouvir e a ler este outro texto com toda a atenção, vê-se muito bem!
Ao contrário dos romances tradicionais, que são claros e acabados, produtos prontos para o leitor consumir, esta narrativa nem é clara nem acabada. Ela convoca constantemente o leitor a ter o seu trabalho de interpretação do que vai lendo à superfície textual. À primeira vista, parece até que o texto está desfocado, assim exigindo redobrada atenção ao leitor, que só encontrará a sua nitidez e clareza, fora e acima da lógica e pensamento tradicionais. É certo que o discurso literário, pela sua linguagem figurada, está sempre acima e fora do discurso denotativo de um ensaio. Mas nesta obra as palavras, que não são muitas – os diálogos, por exemplo, são feitos mais de silêncios que de palavras -, elas assumem aqui um peso invulgar, pelo arrojo e riqueza imagística que comportam. E em virtude desta riqueza e densidade das palavras, o leitor é instado a parar para as acolher, as relacionar com outras, as entender e, finalmente, as saborear em toda essa sua amplitude significante. Porque nesta narrativa, se pararmos nas palavras e as olharmos com atenção e ternura, nós vamos encontrar uma fresca nitidez de significação e sentido, para a qual notoriamente contribui – não podemos esquecer – uma muito cuidada pontuação do texto.
Para que a aérea rede simbólica das actuais narrativas literárias possa, para nós, ser objecto de conhecimento e ter sentido, é sempre preciso que elas estejam agarradas à terra, ancoradas a pedra ou pedras não movediças. Ora, uma destas âncoras, no vertente caso desta narrativa, é precisamente a pontuação. Tão meticulosa e precisa e importante é ela que, daquele encontro secreto de uma mulher e de um homem por detrás da fonte nova, ao cair da noite de um arraial na vila, resultou que uma preciosa vírgula é que foi fazendo caminho para o ventre da mulher! Mas…a quem pertencerá de facto esta vírgula, da qual irá nascer o tal bebé denominado Livro? Virá mesmo do homem que se encontrou com aquela mulher?
Por outro lado, Livro narrador confessa estar possuído de muitas incertezas. E, quanto a saber o que é a verdade, “Sim, já sei. O que é a verdade? Sim, já sei, não sei”. Pois é, meu caro Livro, pois é, caríssimo José, também eu sei que não sei o que ela é, a não ser que ela seja a fiel e silenciosa companheira do que é muito provável, sempre tenteada e confirmada e outra vez posta em causa e sempre o mesmo por aí fora. Aquela personagem caída no barranco morreu ou não morreu? Aquela velha, morta no caixão e decompondo-se sob a terra está morta ou está viva?
Há um costume entre nós, seres humanos, que me parece certo: é impormos nome às coisas e às pessoas. Elas aparecem-nos, e nós impomos-lhes nome. Com ele, elas saem do anonimato da inexistência e entram a existir. Em relação a nós, com isso, nós desalienamos o mundo. No caso de um texto literário, o autor pensa-as e, com pensá-las, nomeia-as primeiro com o verbo mental, mas depois, habitualmente, também lhes atribui um nome de palavra(s). Nesta narrativa, porém, três personagens existem, pelo menos, que não têm nome de palavras. A primeira é aquela mulher em cujas mãos o livro nos aparece pela primeira vez; a segunda é aquele homem portador do pesado malote, esquecido na estação de Austerlitz; a terceira é de novo uma mulher, uma portuguesa velhinha de oitenta e muitos anos, que morreu na estrada, abalroada pelo carro conduzido por Livro. Ou serão estas duas mulheres, uma só mulher? Se só uma são, então a mulher que introduziu o livro na narrativa, o qual depois foi personificado em Livro, é quem cessa de existir por via do acidente causado por Livro com o seu carro, quase no fim da narrativa. Certamente que, para o autor, elas têm um nome mental, embora não o tenham de palavras. E se o autor as quis deixar assim, será porventura para que cada um dos leitores lhes possa atribuir, só com seu verbo mental, um nome ou nomes para cada uma das duas, ou três!
Ao longo da narrativa, uma branca onda de ternura envolve muitas personagens, entre as quais os simples e diminuídos mentais e também o povo anónimo deserdado do bem-estar económico e social; mas também se levanta uma vaga negra que repele uma religião instalada e mancomunada com uma política prepotente e ensimesmada, paradas no tempo, quistos sebáceos e parasitas de um povo pobre e esquecido, negra vaga que afasta também revolucionários de pacotilha que fogem do país, também parasitas das famílias, intratáveis intelectualóides que passam uma vida indolente e inútil a remoer inutilidades ideológicas e ressentimentos por dores não sofridas e com desprezo por quem as sofre.
Não esquecer também aquelas quase inexcedíveis arte de narrar e beleza de escrita: o encadeamento dos diálogos na narração, quase todos feitos só de silêncios ou pouco mais; o pitoresco de um passo em que os pides prendem um bêbedo; a contenção e o peso das palavras; a riqueza vocabular; as formas inusitadas e muito belas de dizer; as figuras literárias e muitos outros passos da narrativa a ressumarem de ironia, tudo isto a exigir-nos demora, para de tudo colhermos prazer e podermos usufruir.
De facto, uma fina e profunda ironia alastra e corrói enraizadas ideias e ideologias e também instituições nelas inspiradas e construídas e depois quase eternizadas. A ideia do romance certinho, linear, acabado, pronto a consumir; as ideias de uma lógica e de uma ontologia com as suas verdades inconcussas; as ideias e ideologias de uma política e de uma religião conluiadas uma com a outra e manipulando o povo, como foi o caso da construção do posto da guarda na vila, que depois nunca teve agentes mas foi antro de prostituição. Há também a não comparência do presidente do conselho na inauguração da nova fonte porque cada uma das duas pessoas a quem competia fazer o convite à referida figura pensou que a outra já o tinha feito e por isso não o fez, ninguém depois explicando ao povo o motivo dessa ausência. Há ainda o caso de o Sermão do Encontro, na procissão dos Passos, não ser atendido por qualquer dos fiéis presentes, e outrossim, como já se referiu, a presença de um intratável e fanático revolucionário encalhado em ideias mortas, que de todo não podia ser o pai de Livro.
Mas, se este intratável rato de biblioteca não podia ser o pai de Livro, e também já acima se duvidou que tivesse sido uma outra figura masculina que se encontrou secretamente com uma mulher atrás do fontenário da vila ao cerrar de uma noite festiva, quem terá sido então o seu pai? E, já agora, quem terá sido a sua verdadeira mamã? Nós sabemos que uma vírgula, a qual é sempre um elemento literário, aqui se fez sémen para gerar nova vida no ventre de uma mulher. Será então esta mulher a verdadeira mãe de Livro? Quem são verdadeiramente os pais de Livro? Não pensem os meninos e as meninas que eu vou desvendar aqui e agora este delicioso imbróglio! Tão-somente lhes deixarei três chaves para poderem decifrar o enigma. É a primeira a “verosimilhança”: numa narrativa, é natural que qualquer personagem nasça de um pai e de uma mãe, por forma e por meios semelhantes àqueles que acontecem na vida real entre os seres humanos; a segunda, de alguma forma relacionada com a primeira, é aquela que se encontra na expressão “barriga de aluguer”; a terceira, última e decisiva chave, é a própria “inspiração literária do autor”, a qual nos indicará quem são os verdadeiros pais de Livro! Nada mais agora sobre este assunto se adianta, mas quem quiser fazer perguntas faça favor de comentar este texto, que talvez … que talvez se consiga responder!
Há ainda na narrativa, bem evidente, um profundo e longo sulco de sagrado, que é o sagrado que se encontra no ser humano. Ele nota-se logo nas firmes e consistentes palavras escolhidas e na correspondente filigrana de sentidos que delas irradiam: lembremos de passagem que o ser humano, além de congenitamente ser húmus e terra, é também ser de palavras e de intemporais pensamentos. Patente ainda está o sagrado nos ternos traços com que são desenhadas muitas das personagens, sobremaneira aquelas que vão sendo as portadoras do livro, até chegar e incluir o Livro mesmo. Patente nessa ternura e naquilo que nas personagens a solicita. Claro que tal sagrado é um sagrado intra-mundano, já que o que vem da religião instituída, por intermédio do padre, o sagrado de fora do mundo, é sempre e liminarmente rechaçado.
Caro autor de Livro, caros meninos e meninas desde jovens a maduras e maduros e a todos os velhinhos que ainda têm a cabeça com luz, (já que as crianças, essas, estão muito atentas é a ver os seus bonecos, deixá-las estar, e os adolescentes elas e eles andam aos pardais, deixá-los andar também)! Como leitores, com um pé, pelo espírito que somos, nós somos circulares e eternos como Livro. Mas com o outro pé, que assenta na objectiva realidade mundana, também somos húmus, também somos esterco, também somos morte. Lembras-te, José, lembras-te daquele pesado malote que uma das personagens por ti criadas deixou abandonado na estação de Austerlitz? Mas como foste tu que inventaste essa personagem, também foste tu que, de alguma forma, o abandonaste! Em contraponto com a morte, a realíssima morte, estarmos dentro da obra literária e estarmos dentro da vida – vida mortal, já se vê -, podem mesmo quase identificar-se: “Por enquanto, aproveitemos, ainda estamos aqui”, diz-nos Livro terminando a narrativa.
Já sentiste com certeza, caro José, sentiste que, quando temos viva consciência de que somos mortais, isto é, quando notamos que a morte é nossa inseparável companheira, então, a nossa vida, vida mortal, assume uma outra densidade, tem mais sumo e brilho! E então, porque não partes daquele abandonado malote em Austerlitz para um novo e também muito belo voo literário? Transformada essa nova obra em nós, e nós transformados nessa obra nova, a nossa real vida mortal não será ela também transformada? Digo isto, autor José: Só seremos radicalmente felizes nesta nossa vida mortal se, continuadamente, fizermos contraponto da nossa vida … com a nossa morte. E o texto literário pode ajudar muito nisso. Não se trata de produzir um texto de psicologia positiva, não, mas de nos centrarmos literariamente naquilo que somos e como somos, e de literariamente se desenhar uma luz racional e emocional que oriente o ser humano, na limitada e aberta vida que o possui. Não poderemos, quanto a esta negra realidade da morte, transformá-la em realidade branca?
Que bom é estar vivo para poder usufruir do prazer da leitura e releituras deste livro Livro – com prazer começámos e com prazer terminamos -, sempre descobrindo novos e gostosos pormenores. Estar, como leitor, com um pé dentro do imaginário mundo da narrativa, e o outro pé assente na sua realidade mundana, o leitor se transformando nela, e ela nele se transformando! Um abraço muito sentido para o José.
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