sábado, 6 de agosto de 2011

TEXTO 27

Olá!
Ando agora a passear por estas veredas campestres, terras ainda recentemente cultivadas aqui junto mas agora tristemente incultas, mato alto um pouco mais ao largo e sempre de um e do outro lado do caminho, e já distante a floresta densa, quase impenetrável.
Quantos seres vegetais e animais, entre espécies e indivíduos, haverá nesta ampla redondeza? Quem os ensina a crescer, a procurar comida, a digeri-la e a procriar? Quem é o mestre deste imenso coro, a todos levando a desempenhar o concerto da vida, cada um com a sua partitura diferente, e tudo sempre sem falhas? É claro que, entre os seres animais, ainda não estamos incluindo o ser humano! Porque este, no concerto da vida, é o único que pode dar as suas irritantes fífias, mas também só ele, embora de forma muito limitada, pode ser maestro de si próprio!
Como sente cada um desta imensíssima multidão de seres, o mundo em que vive? Como vê e ouve cada um deles – sendo seres animais dotados destes sentidos – o mundo em que circula? E já agora, sem excluirmos os anteriores, vamos também ao nosso caso de seres vivos e falantes e pensantes. Como é que cada um de nós vê e ouve e também cheira e saboreia e tacteia o mundo em que está? Quantos mundos existirão? Um só mundo, ou tantos quantos os indivíduos todos de todas e cada uma das espécies vegetais e animais? Cada um com o seu, sempre todos distintos uns dos outros?
No nosso caso, porém, terá simplesmente cada um, só um mundo, ou um mundo haverá para quando está desesperado, e outro para quando está eufórico de alegria, e mais outro de quando foi criança … e por aí fora até ao mundo com que iremos morrer? Existe “o” mundo, ou só existem os meus mundos e os teus e os dela … e por aí fora sem ter fim? Antes de eu nascer, o mundo já existia? E quando eu morrer, ele irá continuar?
Está ali uma menina a dizer que gramava ser melro, melro-menina, toda vestida de preto e com um biquinho amarelo, para fazer companhia aos melros que por aqui já existem, e todos correrem em rasantes voos por sobre esta várzea florida, e também para, metidos em pinheiros altos, todos me acordarem sempre de manhã e a hora certa, em delicioso concerto. Que música é essa, meus melros, música também do mundo mas tão diferente das nossas músicas e não menos agradável? Onde aprenderam vocês a executar esses trinados tão cristalinos e doces? Mas o que mais importa aqui é saber como vai aquela menina-agora-feita-melro, ver o mundo! Como será o mundo de melro? Um melro-macho verá o mundo como vê um melro-menina?
E agora levanta-se acolá um menino a dizer que lhe apetece ser coelho bravo, sim, ser coelho de um mundo solto, em campo aberto, onde possa apanhar sol e chuva e vento nos pêlos do focinho, e se delicie a tosar ervas agrestes e bravas, coisa bem diversa daquelas dietas de plástico a que estão habituados os de gaiola. E então, como será o mundo agora para aquele que passou a ser coelho, mas antes era menino? Não vai acontecer que tal coelhinho recente, bem como também aquela recente menina-melro não irão suportar a mudança e morrerão aterrados? É claro que um coelho e um melro verdadeiros, se virassem seres humanos, também aterrados morreriam, não é?
Mas há aqui mais uma coisa muito gira que se passa com esta menina e este menino que felizmente se não passaram para melro ou coelho pois ficariam perdidos, e a coisa gira é que a menina gosta muito de esculpir, e ele de escrever obra mesmo literária. E então, pensem lá: estas esculturas e obras literárias que eles vão produzindo não irão também elas compor o mundo, como suas partes integrantes? Mas que mundo, do objectivo mundo ou do mundo subjectivo de cada um?
Dizia-me há dias uma jovem, saudavelmente valorizando a auto-estima, que ela era “uma pessoa de cinco estrelas”! É claro que logo concordei, não sem que em pensamento – só em pensamento - pudesse acrescentar uma ligeira precisão: de cinco estrelas, não, mas de cinco e meia! Pois então, e aquela loira cabeleira, cabeleira de cometa, que num instante ondula leve ao vento, mas logo noutro lhe pende e descansa em sossegado molho no ombro?
São desta menina e do seu mundo as estrelas e agora também a cauda do cometa, ou, pelo contrário, tudo isso pertence ao objectivo mundo, que tem estrelas e cometas? Que estranha mas quão bendita é também tal promiscuidade, entre nós e o mundo!
Embora a menina de facto seja mundo, é do espírito florescendo do corpo que nasce a subjectividade que faz com que ela diga que é e seja mesmo um “eu”, em alteridade com o resto do mundo! E tal centro de subjectividade é tão poderoso que leva a que o mundo seja mesmo o seu mundo, ou o mundo de cada um, consoante as diversas subjectividades!
Quanto àquela história das esculturas e dos livros, como eu vejo que as esculturas são de pedra, pedra-mármore, e também posso tocar-lhes e até comprar uma ou duas, e como também posso pegar naqueles livros feitos de papel e folheá-los e lê-los e cheirá-los e emprestá-los, então elas e eles integram o mundo objectivo, não é? Mas elas são esculturas e esculturas muito belas pelo menos para mim, podendo até integrá-las num estilo de escultura moderna, que me agrada muito; enquanto que, quanto aos livros, além de serem livros e os achar também muito belos, eles fazem-me sonhar e até relaciono lances da sua acção com passos da minha vida! E então, por estas e muitas outras razões que só no foro íntimo cada um sabe encontrar para si, esculturas e livros pertencem também ao mundo subjectivo de cada um!
Mas o mundo, de facto, existe em termos objectivos. Antes de mais, nós temos imensos testemunhos do passado, a provarem a sua existência antes de nós. E futuro, ele terá, depois da nossa morte? Tudo leva a pensar que sim, pois que, se cada ponto do passado do qual temos notícia teve o seu futuro, porque há-de então o mundo acabar depois da nossa morte? Para o momento presente, eu sei que o objectivo mundo existe, porque eu vejo e ouço além um cãozito a ladrar, e eu não sou cão nem ladro.
Existe de facto o mundo, em termos objectivos, mas vejam lá, meninos e meninas, vejam todos este estupendo mundo polimórfico e polifónico em que estamos metidos, um só mundo, sim, mas assumindo uma diversidade imensa, tanta quanta o incontável número de seres vivos que o compõem, cada um com a sua peculiar maneira de o sentir, diversidade sobretudo para os humanos, de tal forma nós o colorimos ou contaminamos, a diversos níveis, com a subjectividade de cada um!
Porque o mundo, esse, é que é realmente objectivo. O resto são subjectividades, como é também o caso do “eu” de cada um. E por causa destas e deste é que aquele mundo objectivamente real só nos aparece como o meu mundo, o teu mundo, o mundo dela, e assim por diante. Portanto, o mundo objectivo não é um mundo só de aparências, mas de realidades. Dessas realidades, porém, que mais podemos saber para além do que vai aparecendo a mim, a ti, a ela, sempre diversamente como já vimos? Mas uma coisa talvez todos tenhamos por certa. E é ela que há coisas muito boas no mundo, sim senhor, mas a melhor coisa de todas é alguém poder dizer “não há nada melhor no mundo que o regaço da minha mãe”. Cada “alguém” à sua maneira, naturalmente. Para as meninas e meninos núbeis, mas sobretudo para as meninas que já sonham vir a ser mamãs, aqui está o grande desafio da sua vida!
E agora, aqui chegados às derradeiras linhas deste estranho texto, fica uma pergunta: as meninas e os meninos que leram o texto todo até ao fim, superando todos os escolhos desta tormentosa viagem, esses ficaram tontos com a leitura deste texto sobre o mundo, ou mudou o mundo deles, e também eles com seu mundo? É claro que quando se fala de mundo, também se está a falar de universo! Então, assim, não ganhará este assunto uma infinita amplidão?

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