Olá! Todos vocês conhecem o Fernando Nobre, não conhecem? Por ter um grande coração, ele fundou e preside à AMI, ele foi recentemente candidato a presidente da República, ele veste agora a cândida túnica de candidato a deputado da Nação. Muito bem. Mas foi também ele quem teve, há tempos, a feliz iniciativa de propor a várias figuras públicas escrevessem, cada uma delas, uma carta a Deus. Uma carta a Deus? Sim, a Deus! Ele mesmo escreveu logo a primeira. Depois, desse correio todo – que não levou estampilha postal para ficar mais em conta –, produziu-se um livrinho que dá pelo nome de “Cartas a Deus”, cujos direitos de autores revertem a favor da AMI.
Pude ler esse livrinho de “Cartas a Deus”. E então, agora, de forma inocente, isto é, sem nisto pôr ponta de desrespeito pelo que nelas se escreve, mas tão só para pormos interrogações e com elas eventualmente crescermos, resolvi eu escrever uma carta ou bilhete-postal, não a Deus mas a um ou outra desses beneméritos remetentes. Aqui vai então a primeira, dirigida a Maria João Cantinho.
Cara Maria João,
Gostei muito da sua carta enviada a Deus, a esse Deus que é a fonte e o sentido da sua vida, ainda que, como diz, não tenha nem talvez algum dia venha a ter a evidência da sua existência. Na verdade, nós não vamos a Deus pela razão ou intelecto do pensamento, mas dele nos podemos porventura aperceber com a inteligência e o coração, no meio dos vestígios que ele dispõe ante o nosso olhar.
Logo a abri-la, a Maria João escreve: “Chego a ti de mãos vazias”. De facto, só de mãos vazias podemos sentir Deus. Se as levássemos carregadas com as nossas solicitações, nós chegaríamos a um ídolo e não a Deus, feito aquele à medida dos conteúdos que carregamos nas mãos e na mente.
Mas a sua carta é uma carta muito bela, e a beleza não se comenta mas só se sente e frui. Ela constitui um verdadeiro poema, que é sempre a forma de escrever por palavras aquilo que não se pode dizer com palavras, mas só com a voz do coração.
Limito-me portanto a transcrever mais algumas passagens da carta, que considero mais relevantes: “Sei que nada devo pedir-te. (…) Prefiro, antes, sentar-me à sombra do teu silêncio… (…) Gosto de pensar que existes, ainda que nada o prove. Gosto de te sentir como o esplendor do sol…De saber que me basta apenas respirar e sentir, para suspeitar da tua presença. (…) Para te escutar, apenas preciso de suspender o curso do pensamento e seguir o curso do rio. Seguir a tua presença no rumorejar da água. (…) Talvez não tenha descoberto, ainda, o modo como se chega a ti. (…) Por vezes, arde-me nos lábios a agonia da solidão que é a de cada homem. (…) A beleza salva-me. Ela é o teu rosto mais perfeito, aquele que me aquece o coração…”
Destas passagens da carta, três palavras ressaltam: solidão, vazio e silêncio. E daquilo que estas palavras ressoam para mim, redigi dois pequenos textos a que chamei elogios, os quais lhe venho aqui oferecer. O primeiro é o elogio do estar só, e reza assim:
“Quando estamos sós, podemos ouvir as vozes do silêncio.
Estar só não é ser solitário nem estar em solidão.
Quando estamos sós, podemos estar em comunhão com tudo.
Só no vazio e no silêncio nos podem avultar as formas e o poder dos seres.
Para nós, estar só não é não ter outras pessoas à volta, mas ter vazia e limpa de pensamentos a nossa mente.
Para melhor podermos apreciar o saboroso gosto de estar só, é bom de quando em vez mergulharmos no ruído.
Só podemos extasiar-nos com a Beleza, se estivermos habituados a estar sós.
Do vazio e do silêncio se sustentam os seres, e é lá que os podemos encontrar.
No puro estar só, que é a anulação do “eu”, eu descubro ser pura relação. O amor é o fruto deste estado.
Não somos nós que vamos a Deus, mas é Deus que poderá vir a nós. E só virá quando estivermos sós.
Nós somos ondas de energia do grande Oceano do Universo. E é quando estamos sós que mais nos sentimos água e Oceano.”
O segundo elogio é o elogio do vazio e do silêncio:
“Por várias razões, a nossa cultura ocidental tem tido horror ao vazio e ao silêncio, mas para a tradicional cultura do Oriente e para a actual Física quântica não é assim.
Quando se está só, habita-se o vazio e o silêncio.
No vazio e no silêncio está a fonte da vida. Todo o pensamento, começando pelos conceitos, já é ocupação e barulho.
Por um lado, eu posso descer ao meu Eu profundo, ao vazio quântico. Por outro, em sentido oposto, eu posso sentir-me a renascer desse vazio, em cada agora da minha vida.
No Universo, tudo e todos, a cada instante, estamos saindo do vazio quântico. Estamos saindo, mas também regressando. Além de forma ou ser individualizado, eu sou vazio quântico, a ele me podendo acolher em cada agora em que estou.
O eu psicológico é todo o pensamento (ideias, ideologias, crenças…) que se guarda na concha da memória. Mas se, a espaços, abstrairmos desse eu mental, facilmente poderemos desaguar no Eu profundo, ou também, entrar no estado de estar só, de mente vazia e limpa.
Se lhe for gostoso e der proveito, experimente por momentos alimentar-se de vazio e de silêncio, quando tiver a sua mente limpa! Ou também perder-se nesse Oceano, quase se esquecendo que é onda desse mar!...
Entrarmos no santuário do vazio e do silêncio não é perdermos tempo, mas ir para além dele. Também não é ficarmos ociosos ou fugirmos à vida, porque, aí, nesse esquecimento do “eu”, há a fecundidade da invenção e do amor e do mais profundo conhecimento que nos pode acontecer.
O vazio e o silêncio mais saborosos e fecundos são os que podem estar dentro de nós… Quando a mente deixar de ser egocêntrica, e portanto estiver vazia e limpa, o impulso criador, a verdade, o amor e porventura até o próprio Deus virão a nós. E então, não em pensamentos do intelecto mas pela inteligência e pelo coração, nós vemos que tudo isso é bom.
O vazio e o silêncio são a morada do ser. De lá deriva tudo o que somos, mesmo a nossa divindade, do deus imanente partilhada. Mas lá pode estar também o Deus Outro, se acaso o pudermos sentir, por ele ter vindo ter connosco. O Absoluto será a face transcendente do deus imanente.”
Com a pobreza mas também a sinceridade destes dois singelos elogios lhe agradeço a sua carta, e subscrevo-me com atenção.
João
Pude ler esse livrinho de “Cartas a Deus”. E então, agora, de forma inocente, isto é, sem nisto pôr ponta de desrespeito pelo que nelas se escreve, mas tão só para pormos interrogações e com elas eventualmente crescermos, resolvi eu escrever uma carta ou bilhete-postal, não a Deus mas a um ou outra desses beneméritos remetentes. Aqui vai então a primeira, dirigida a Maria João Cantinho.
Cara Maria João,
Gostei muito da sua carta enviada a Deus, a esse Deus que é a fonte e o sentido da sua vida, ainda que, como diz, não tenha nem talvez algum dia venha a ter a evidência da sua existência. Na verdade, nós não vamos a Deus pela razão ou intelecto do pensamento, mas dele nos podemos porventura aperceber com a inteligência e o coração, no meio dos vestígios que ele dispõe ante o nosso olhar.
Logo a abri-la, a Maria João escreve: “Chego a ti de mãos vazias”. De facto, só de mãos vazias podemos sentir Deus. Se as levássemos carregadas com as nossas solicitações, nós chegaríamos a um ídolo e não a Deus, feito aquele à medida dos conteúdos que carregamos nas mãos e na mente.
Mas a sua carta é uma carta muito bela, e a beleza não se comenta mas só se sente e frui. Ela constitui um verdadeiro poema, que é sempre a forma de escrever por palavras aquilo que não se pode dizer com palavras, mas só com a voz do coração.
Limito-me portanto a transcrever mais algumas passagens da carta, que considero mais relevantes: “Sei que nada devo pedir-te. (…) Prefiro, antes, sentar-me à sombra do teu silêncio… (…) Gosto de pensar que existes, ainda que nada o prove. Gosto de te sentir como o esplendor do sol…De saber que me basta apenas respirar e sentir, para suspeitar da tua presença. (…) Para te escutar, apenas preciso de suspender o curso do pensamento e seguir o curso do rio. Seguir a tua presença no rumorejar da água. (…) Talvez não tenha descoberto, ainda, o modo como se chega a ti. (…) Por vezes, arde-me nos lábios a agonia da solidão que é a de cada homem. (…) A beleza salva-me. Ela é o teu rosto mais perfeito, aquele que me aquece o coração…”
Destas passagens da carta, três palavras ressaltam: solidão, vazio e silêncio. E daquilo que estas palavras ressoam para mim, redigi dois pequenos textos a que chamei elogios, os quais lhe venho aqui oferecer. O primeiro é o elogio do estar só, e reza assim:
“Quando estamos sós, podemos ouvir as vozes do silêncio.
Estar só não é ser solitário nem estar em solidão.
Quando estamos sós, podemos estar em comunhão com tudo.
Só no vazio e no silêncio nos podem avultar as formas e o poder dos seres.
Para nós, estar só não é não ter outras pessoas à volta, mas ter vazia e limpa de pensamentos a nossa mente.
Para melhor podermos apreciar o saboroso gosto de estar só, é bom de quando em vez mergulharmos no ruído.
Só podemos extasiar-nos com a Beleza, se estivermos habituados a estar sós.
Do vazio e do silêncio se sustentam os seres, e é lá que os podemos encontrar.
No puro estar só, que é a anulação do “eu”, eu descubro ser pura relação. O amor é o fruto deste estado.
Não somos nós que vamos a Deus, mas é Deus que poderá vir a nós. E só virá quando estivermos sós.
Nós somos ondas de energia do grande Oceano do Universo. E é quando estamos sós que mais nos sentimos água e Oceano.”
O segundo elogio é o elogio do vazio e do silêncio:
“Por várias razões, a nossa cultura ocidental tem tido horror ao vazio e ao silêncio, mas para a tradicional cultura do Oriente e para a actual Física quântica não é assim.
Quando se está só, habita-se o vazio e o silêncio.
No vazio e no silêncio está a fonte da vida. Todo o pensamento, começando pelos conceitos, já é ocupação e barulho.
Por um lado, eu posso descer ao meu Eu profundo, ao vazio quântico. Por outro, em sentido oposto, eu posso sentir-me a renascer desse vazio, em cada agora da minha vida.
No Universo, tudo e todos, a cada instante, estamos saindo do vazio quântico. Estamos saindo, mas também regressando. Além de forma ou ser individualizado, eu sou vazio quântico, a ele me podendo acolher em cada agora em que estou.
O eu psicológico é todo o pensamento (ideias, ideologias, crenças…) que se guarda na concha da memória. Mas se, a espaços, abstrairmos desse eu mental, facilmente poderemos desaguar no Eu profundo, ou também, entrar no estado de estar só, de mente vazia e limpa.
Se lhe for gostoso e der proveito, experimente por momentos alimentar-se de vazio e de silêncio, quando tiver a sua mente limpa! Ou também perder-se nesse Oceano, quase se esquecendo que é onda desse mar!...
Entrarmos no santuário do vazio e do silêncio não é perdermos tempo, mas ir para além dele. Também não é ficarmos ociosos ou fugirmos à vida, porque, aí, nesse esquecimento do “eu”, há a fecundidade da invenção e do amor e do mais profundo conhecimento que nos pode acontecer.
O vazio e o silêncio mais saborosos e fecundos são os que podem estar dentro de nós… Quando a mente deixar de ser egocêntrica, e portanto estiver vazia e limpa, o impulso criador, a verdade, o amor e porventura até o próprio Deus virão a nós. E então, não em pensamentos do intelecto mas pela inteligência e pelo coração, nós vemos que tudo isso é bom.
O vazio e o silêncio são a morada do ser. De lá deriva tudo o que somos, mesmo a nossa divindade, do deus imanente partilhada. Mas lá pode estar também o Deus Outro, se acaso o pudermos sentir, por ele ter vindo ter connosco. O Absoluto será a face transcendente do deus imanente.”
Com a pobreza mas também a sinceridade destes dois singelos elogios lhe agradeço a sua carta, e subscrevo-me com atenção.
João
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