CARTA A MARCELO
Caro Marcelo,
Permita-me que lhe escreva e envie esta carta, sugerida por uma carta sua integrada no livro intitulado Cartas a Deus, livro às minhas mãos chegado e em segunda edição.
Escreveu e enviou portanto o professor uma carta a Deus. Mas terá mesmo escrito e enviado uma carta a Deus, ou simplesmente escrito e enviado uma carta a si mesmo, ao fundo espiritual da sua mente, o qual corresponde no cérebro àquilo que recentes cientistas chamam a “área de Deus”?
O professor imaginou e escreveu uma carta a Deus, e também podia ter imaginado e escrito, para si, uma carta vinda de Deus! Nestes dois casos, porém, não será só Marcelo o emissor e o receptor? Para que havemos de trazer o Deus Transcendente ao assunto? Porque é que havemos de explicar com o mais um determinado fenómeno, se o conseguimos explicar com o menos?
Saberá com certeza – a sua vastíssima erudição e cultura são palácio de rei, ao pé da minha toca de formiga – saberá certamente que aquela “área de Deus”, existente no nosso cérebro, não é de todo a prova da existência do Deus Transcendente. Mas sem dúvida que ela é o físico suporte para que todos os seres humanos sem excepção – sejam crentes ou não crentes em Deus - possam de facto, através da sua inteligência espiritual, cultivar uma dimensão espiritual na sua vida e transcender-se dentro das possibilidades físicas com que a mãe-natureza nos brindou.
Com tudo isto, de forma alguma se descarta a possibilidade de o Deus Transcendente existir e poder estar connosco! Longe disso! Só que não podemos resolver esse assunto à luz da nossa razão, pois que conhecer pela razão é de-limitar, e Deus é por essência o Ilimitado e o absolutamente Transcendente. Mas já podemos afirmar que é por virtude da sua herança genética, educação, meio social e cultura, é por tudo isto que umas pessoas o aceitam em suas vidas, e outras optam por rejeitá-lo.
Atentemos melhor nestas duas posições: a daqueles que aceitam Deus e a daqueles que o rejeitam. Antes de mais, como já vimos, eu não posso, pela razão, chegar à “real” existência de Deus nem à sua “real”não existência. Os que afirmam que ele existe é porque crêem na sua existência, e os que asseveram que ele não existe é também porque acreditam mas, neste caso, é porque acreditam na sua não existência. É sempre uma questão de fé, não é verdade? Sem o salto da fé, não se pode chegar, nem a uma nem a outra posição. E agora podemos perguntar: como posições de fé e não de razão, não são elas, uma e outra, simplesmente projecções mentais? Que portanto não garantem a “real” existência ou a “real” não existência de Deus? E se são projecções mentais – pois que até o imaginamos a ouvir e a falar e com um rosto e um vulto à nossa imagem e semelhança – não é a nós que escrevemos, embora pensando que é a Ele que estamos a escrever?
Ademais, o professor Marcelo já teve alguma hierofania? Mas, mesmo que tivesse, ela conceder-lhe-ia todo o tempo necessário para escrever a Deus tudo aquilo que escreveu? Veja, por exemplo, o caso da aparição do Jesus ressuscitado aos discípulos de Emaús, no qual o acto de Jesus se lhes revelar é justamente o mesmo de ele lhes desaparecer. Tinha tempo de escrever a sua carta? Além de que as teofanias não se dão no tempo: elas dão-se no agora, fora do tempo. É possível produzir um texto, seja oral ou escrito, fora do tempo?
Quer dizer: caminho para chegar ao verdadeiro Deus pela razão e pela fé, talvez não haja, mas caminho para ele vir a nós, sem o procurarmos, talvez sim! Talvez sim, se nos despirmos do nosso eu mental, que é feito de ideologias e de crenças, e só sabe usar o intelecto para tentar encontrar o real. Mas se nos despirmos do nosso eu mental, ficando nós portanto a nada sermos, então, pela compreensão global ou insight, apaixonadamente atentos, já o novo, a realidade e o próprio Deus poderão vir a nós, sem serem procurados.
Sem o barulho do eu mental, no meio do vazio e do silêncio, talvez possamos sentir Deus e acolhê-lo, em compreensão global, com a luz da inteligência e a paixão do coração. E então, como que fora do tempo, de forma certamente indefinida mas profunda e intensa, de preferência sem palavras nem lhe humanizarmos a figura, podemos em nossa casa estar e viver com Ele, não para lhe pedir mas para o louvar. Quando falarmos ou conversarmos com Deus, não haverá palavras de parte a parte para dizer, a não ser aquelas que o coração disser, sabendo nós que essas são palavras outras.
E pronto, caro professor, não abuso mais da sua paciência! Com votos de que a grande agitação da sua vida não lhe impeça nem perturbe assíduos e profundos encontros com o Transcendente Deus, com atenção me subscrevo
João.
Caro Marcelo,
Permita-me que lhe escreva e envie esta carta, sugerida por uma carta sua integrada no livro intitulado Cartas a Deus, livro às minhas mãos chegado e em segunda edição.
Escreveu e enviou portanto o professor uma carta a Deus. Mas terá mesmo escrito e enviado uma carta a Deus, ou simplesmente escrito e enviado uma carta a si mesmo, ao fundo espiritual da sua mente, o qual corresponde no cérebro àquilo que recentes cientistas chamam a “área de Deus”?
O professor imaginou e escreveu uma carta a Deus, e também podia ter imaginado e escrito, para si, uma carta vinda de Deus! Nestes dois casos, porém, não será só Marcelo o emissor e o receptor? Para que havemos de trazer o Deus Transcendente ao assunto? Porque é que havemos de explicar com o mais um determinado fenómeno, se o conseguimos explicar com o menos?
Saberá com certeza – a sua vastíssima erudição e cultura são palácio de rei, ao pé da minha toca de formiga – saberá certamente que aquela “área de Deus”, existente no nosso cérebro, não é de todo a prova da existência do Deus Transcendente. Mas sem dúvida que ela é o físico suporte para que todos os seres humanos sem excepção – sejam crentes ou não crentes em Deus - possam de facto, através da sua inteligência espiritual, cultivar uma dimensão espiritual na sua vida e transcender-se dentro das possibilidades físicas com que a mãe-natureza nos brindou.
Com tudo isto, de forma alguma se descarta a possibilidade de o Deus Transcendente existir e poder estar connosco! Longe disso! Só que não podemos resolver esse assunto à luz da nossa razão, pois que conhecer pela razão é de-limitar, e Deus é por essência o Ilimitado e o absolutamente Transcendente. Mas já podemos afirmar que é por virtude da sua herança genética, educação, meio social e cultura, é por tudo isto que umas pessoas o aceitam em suas vidas, e outras optam por rejeitá-lo.
Atentemos melhor nestas duas posições: a daqueles que aceitam Deus e a daqueles que o rejeitam. Antes de mais, como já vimos, eu não posso, pela razão, chegar à “real” existência de Deus nem à sua “real”não existência. Os que afirmam que ele existe é porque crêem na sua existência, e os que asseveram que ele não existe é também porque acreditam mas, neste caso, é porque acreditam na sua não existência. É sempre uma questão de fé, não é verdade? Sem o salto da fé, não se pode chegar, nem a uma nem a outra posição. E agora podemos perguntar: como posições de fé e não de razão, não são elas, uma e outra, simplesmente projecções mentais? Que portanto não garantem a “real” existência ou a “real” não existência de Deus? E se são projecções mentais – pois que até o imaginamos a ouvir e a falar e com um rosto e um vulto à nossa imagem e semelhança – não é a nós que escrevemos, embora pensando que é a Ele que estamos a escrever?
Ademais, o professor Marcelo já teve alguma hierofania? Mas, mesmo que tivesse, ela conceder-lhe-ia todo o tempo necessário para escrever a Deus tudo aquilo que escreveu? Veja, por exemplo, o caso da aparição do Jesus ressuscitado aos discípulos de Emaús, no qual o acto de Jesus se lhes revelar é justamente o mesmo de ele lhes desaparecer. Tinha tempo de escrever a sua carta? Além de que as teofanias não se dão no tempo: elas dão-se no agora, fora do tempo. É possível produzir um texto, seja oral ou escrito, fora do tempo?
Quer dizer: caminho para chegar ao verdadeiro Deus pela razão e pela fé, talvez não haja, mas caminho para ele vir a nós, sem o procurarmos, talvez sim! Talvez sim, se nos despirmos do nosso eu mental, que é feito de ideologias e de crenças, e só sabe usar o intelecto para tentar encontrar o real. Mas se nos despirmos do nosso eu mental, ficando nós portanto a nada sermos, então, pela compreensão global ou insight, apaixonadamente atentos, já o novo, a realidade e o próprio Deus poderão vir a nós, sem serem procurados.
Sem o barulho do eu mental, no meio do vazio e do silêncio, talvez possamos sentir Deus e acolhê-lo, em compreensão global, com a luz da inteligência e a paixão do coração. E então, como que fora do tempo, de forma certamente indefinida mas profunda e intensa, de preferência sem palavras nem lhe humanizarmos a figura, podemos em nossa casa estar e viver com Ele, não para lhe pedir mas para o louvar. Quando falarmos ou conversarmos com Deus, não haverá palavras de parte a parte para dizer, a não ser aquelas que o coração disser, sabendo nós que essas são palavras outras.
E pronto, caro professor, não abuso mais da sua paciência! Com votos de que a grande agitação da sua vida não lhe impeça nem perturbe assíduos e profundos encontros com o Transcendente Deus, com atenção me subscrevo
João.
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