quinta-feira, 23 de junho de 2011

TEXTO 21

Cara Ângela,

Li há dias a sua Carta a Deus, e hoje li-a de novo. Bem sincera carta é ela, própria de quem nela quis abrir a alma, mas também repassada de um certo amargor e tristeza.
Dela transcrevo a passagem seguinte, por me parecer a mais significante: “Hoje, tenho saudades do que não fui: … uma criatura amante do seu Criador, fiel seguidora da sua palavra e reconfortada dos infortúnios da vida. Lamento profundamente não ser crente, não compreender os Teus desígnios, não ter fé em Ti, não Te ver nem sentir nas coisas. Porque isso me deixou tragicamente só”.
E como na passagem é a solidão que ressalta, permita-me dizer-lhe que a solidão é congénita ao ser humano, o qual, por sua vez, através das suas naturais possibilidades, é chamado a enchê-la de comunhão. Sem a comunhão, a solidão é trágica; com a comunhão, ela realiza o ser humano.
A primeira vez que o ser humano se sentiu em solidão foi quando aquela vida animal que estava evoluindo começou a existir como ser humano. Tomando consciência de si, ele conheceu-se como um ser diferente de todos os outros seres, e, com isso, de todos eles se sentiu desligado, separado, isolado. Conheceu-se, não como um ser que simplesmente era e estava ali, dado e feito pela Natureza como os outros, mas como um ser que existia e que tinha em suas mãos o projecto da sua vida.
Foi por isso que os primeiros seres humanos saíram do paraíso terrestre, porque aí já não era o lugar deles! Mas também, entre si, os primeiros seres humanos conheceram o isolamento, porque logo cada um se sentiu como sujeito dotado de subjectividade e intimidade irrepetíveis e únicas.
Aqui temos, cara Ângela, aqui temos como a solidão está na génese e é constitutiva da natureza humana. Mas, tal como o ser humano é naturalmente separado ou isolado, assim também ele é naturalmente dotado de competências para encher de comunhão essa natural solidão. Se se fechar no poço da sua solidão, ele encontra aí a sua destruição; mas, se fizer habitar essa solidão, estendendo laços em direcção aos outros seres, ele encontra nisso a salvação, que não é outra coisa a não ser a realização da sua vida, no amor e na alegria.
E assim aconteceu que os primeiros seres humanos, saídos do indistinto paraíso terreal – assim se desligando e isolando dos seres que o continuaram a constituir –, logo se prestaram, por um apelo íntimo, a religar-se consciente e espiritualmente às coisas, à palpitação da vida no planeta, e a religar-se entre si e até, segundo a narrativa, a esse Ser Outro que lhes aparecera no Éden, sem o procurarem, correndo a brisa da tarde. Antes, eram vidas informes e indistintas desse paraíso de inocência natural e neutra; agora são seres conscientes e capazes de porem o amor a comandá-los.
Mas muitos séculos e milénios rolaram sobre esse mítico alvor da humanidade, e hoje, para muitos seres humanos, a vida pode aparecer sem sentido, sobremaneira quando pensam que a morte é o definitivo fim das suas vidas, e que Deus não existe.
A Ângela sabe muito bem como estas poderosas convicções de uma vida pessoal depois da morte e da existência de um Deus Transcendente têm sido, através dos tempos, as colunas mestras do sentido da vida, profundamente mergulhadas no imaginário cultural e espiritual da humanidade. Se elas ruírem, como ruindo estão, muita gente perderá a bússola a norteá-la na vida.
Mas veja, cara Ângela, veja como nasce e se desenvolve essa convicção da imortalidade da alma. É facto o ser humano sentir uma grande fome de viver, a qual parece não poder saciar-se com esta limitada vida terrena. Por isso, já que Deus nos criou com esta expectativa de uma vida para além da morte, como dizem, conclui-se que nisso não seremos por Ele defraudados. Mas, quanto a essa ânsia de viver, não será ela simplesmente o suporte ou a força anímica para irmos vencendo as contrariedades da vida? Não será ela, afinal, o profundo apelo só da voz do coração?
Na verdade, como é possível salvar da morte o eu psicológico de cada um, se ele é feito de pensamentos que nascem de um cérebro que há-de, finalmente, repousar na mãe terra? Poderá haver vida depois da morte, sim, mas ela não será continuação mas renascimento, pois que quem morre não poderá continuar a viver.
Como muito bem sabe a Ângela, esta convicção de uma vida pessoal para além da morte, tradicionalmente tão presente na nossa cultura ocidental, radica especialmente em Platão e no Cristianismo. Para o filósofo, só tem valor aquilo que ele considerava como sendo as realidades do hiperurânio, sendo assim este nosso mundo e a nossa vida terrena simples sombras daquelas “realidades” celestes. Para ele, portanto, o que importa é sairmos desta caverna da vida terrena em que vivemos, e viajarmos para aquele mundo luminoso e imortal.
A Platão seguiu-se Aristóteles, que, por ter sido seu discípulo, se pensaria ir seguir e aprofundar a doutrina do mestre. Porém, aconteceu exactamente o contrário! Em vez de perfilhar o idealismo platónico, o Estagirita valorizou a observação e o concreto, e dirigiu o seu pensar para a realidade terrena que nós somos. Em razão disso, ele até pode ser considerado nosso mestre na aprendizagem que nos leva à felicidade. E de facto, se observarmos com atenção obras recentes sobre este assunto, verificaremos, aliás sem surpresa, que nelas muitas vezes é citado Aristóteles, e jamais Platão. Ou seja, para o pensamento grego e para actuais estudos sobre a felicidade, o idealismo platónico estaria definitivamente ultrapassado com o realismo aristotélico.
Mas não assim para a tradição cristã, que muitas vezes preteriu Aristóteles em favor de Platão, a quem até chamou divino. De facto, tão avassaladora foi a influência platónica, na tradição cristã, que até na evolução constitutiva do dogma de Cristo ela decisivamente se infiltrou. Com efeito, no primeiro século da nossa era, Cristo, visto especialmente pelos simples, era o homem que se tornara Deus, mas, nos dois seguintes - agora já visto pelas classes dominantes –, já era o Deus (o Logos) que se fizera homem!
E agora, cara Ângela, a par de estar ruindo para não poucos a convicção da imortalidade da alma, também a crença na existência de Deus está soçobrando para muitos. Tenhamos porém a certeza de que também quem se desprendeu destas convicções pode encontrar sentido para a vida e atingir a felicidade!
Mas digamos ainda algumas palavras sobre o problema da existência de Deus, e façamos depois algumas perguntas. Desde os princípios da humanidade, multidões de seres humanos tem havido a sonhar com um deus que lhes sare as feridas físicas e espirituais; que seja para eles um amigo e confidente nas horas amargas da vida; que lhes conceda enfim uma vida boa e infinda depois da morte. E no entanto, não será esse sonhado deus uma mera projecção dos seus desejos? Não será esse deus um ídolo, por o estarmos a imaginar segundo a nossa medida e ambições?
A Ângela lamenta não chegar a Deus, pela razão e pela fé. Mas será possível alguém encontrar o Deus real, se avançar pelo caminho da razão e da fé? Não obstante, talvez haja um caminho outro, não para irmos a Deus, mas vir Deus a nós. E se houver, só com a nossa mente vazia e limpa ele poderá vir a nós!
Mas a carta já vai longa, cara Ângela, e por isso tenho de terminar. Diz a Ângela que é sensível à imponência das montanhas, à tranquilidade dos desertos, à imensidão do mar… E então, não somos nós ondas de energia desse oceano quântico universal, onde a energia e o sentido mais perfeitos são o amor? Não é essa a transcendência a que podemos aceder, com as nossas limitadas forças naturais? Queríamos mais, não é? Poderá haver mais, sim, mas o caminho para lá é não haver caminho, a não ser o caminho da eliminação do desejo e a completa pacificação da alma! E então, a essa alma leve e limpa e também livre, que só terá relacionamentos de amor e que não ousa usar pensamentos nem palavras para chamar e muito menos para pedir, poderá vir, numa bela tarde, quem Amor só pode ser, o Transcendente Deus.
Com muita estima do
João.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

TEXTO 20

CARTA A MARCELO

Caro Marcelo,

Permita-me que lhe escreva e envie esta carta, sugerida por uma carta sua integrada no livro intitulado Cartas a Deus, livro às minhas mãos chegado e em segunda edição.
Escreveu e enviou portanto o professor uma carta a Deus. Mas terá mesmo escrito e enviado uma carta a Deus, ou simplesmente escrito e enviado uma carta a si mesmo, ao fundo espiritual da sua mente, o qual corresponde no cérebro àquilo que recentes cientistas chamam a “área de Deus”?
O professor imaginou e escreveu uma carta a Deus, e também podia ter imaginado e escrito, para si, uma carta vinda de Deus! Nestes dois casos, porém, não será só Marcelo o emissor e o receptor? Para que havemos de trazer o Deus Transcendente ao assunto? Porque é que havemos de explicar com o mais um determinado fenómeno, se o conseguimos explicar com o menos?
Saberá com certeza – a sua vastíssima erudição e cultura são palácio de rei, ao pé da minha toca de formiga – saberá certamente que aquela “área de Deus”, existente no nosso cérebro, não é de todo a prova da existência do Deus Transcendente. Mas sem dúvida que ela é o físico suporte para que todos os seres humanos sem excepção – sejam crentes ou não crentes em Deus - possam de facto, através da sua inteligência espiritual, cultivar uma dimensão espiritual na sua vida e transcender-se dentro das possibilidades físicas com que a mãe-natureza nos brindou.
Com tudo isto, de forma alguma se descarta a possibilidade de o Deus Transcendente existir e poder estar connosco! Longe disso! Só que não podemos resolver esse assunto à luz da nossa razão, pois que conhecer pela razão é de-limitar, e Deus é por essência o Ilimitado e o absolutamente Transcendente. Mas já podemos afirmar que é por virtude da sua herança genética, educação, meio social e cultura, é por tudo isto que umas pessoas o aceitam em suas vidas, e outras optam por rejeitá-lo.
Atentemos melhor nestas duas posições: a daqueles que aceitam Deus e a daqueles que o rejeitam. Antes de mais, como já vimos, eu não posso, pela razão, chegar à “real” existência de Deus nem à sua “real”não existência. Os que afirmam que ele existe é porque crêem na sua existência, e os que asseveram que ele não existe é também porque acreditam mas, neste caso, é porque acreditam na sua não existência. É sempre uma questão de fé, não é verdade? Sem o salto da fé, não se pode chegar, nem a uma nem a outra posição. E agora podemos perguntar: como posições de fé e não de razão, não são elas, uma e outra, simplesmente projecções mentais? Que portanto não garantem a “real” existência ou a “real” não existência de Deus? E se são projecções mentais – pois que até o imaginamos a ouvir e a falar e com um rosto e um vulto à nossa imagem e semelhança – não é a nós que escrevemos, embora pensando que é a Ele que estamos a escrever?
Ademais, o professor Marcelo já teve alguma hierofania? Mas, mesmo que tivesse, ela conceder-lhe-ia todo o tempo necessário para escrever a Deus tudo aquilo que escreveu? Veja, por exemplo, o caso da aparição do Jesus ressuscitado aos discípulos de Emaús, no qual o acto de Jesus se lhes revelar é justamente o mesmo de ele lhes desaparecer. Tinha tempo de escrever a sua carta? Além de que as teofanias não se dão no tempo: elas dão-se no agora, fora do tempo. É possível produzir um texto, seja oral ou escrito, fora do tempo?
Quer dizer: caminho para chegar ao verdadeiro Deus pela razão e pela fé, talvez não haja, mas caminho para ele vir a nós, sem o procurarmos, talvez sim! Talvez sim, se nos despirmos do nosso eu mental, que é feito de ideologias e de crenças, e só sabe usar o intelecto para tentar encontrar o real. Mas se nos despirmos do nosso eu mental, ficando nós portanto a nada sermos, então, pela compreensão global ou insight, apaixonadamente atentos, já o novo, a realidade e o próprio Deus poderão vir a nós, sem serem procurados.
Sem o barulho do eu mental, no meio do vazio e do silêncio, talvez possamos sentir Deus e acolhê-lo, em compreensão global, com a luz da inteligência e a paixão do coração. E então, como que fora do tempo, de forma certamente indefinida mas profunda e intensa, de preferência sem palavras nem lhe humanizarmos a figura, podemos em nossa casa estar e viver com Ele, não para lhe pedir mas para o louvar. Quando falarmos ou conversarmos com Deus, não haverá palavras de parte a parte para dizer, a não ser aquelas que o coração disser, sabendo nós que essas são palavras outras.
E pronto, caro professor, não abuso mais da sua paciência! Com votos de que a grande agitação da sua vida não lhe impeça nem perturbe assíduos e profundos encontros com o Transcendente Deus, com atenção me subscrevo
João.

NOTA SOLTA

Uma boa regra de vida parece ser eu querer tanto o bem dos outros como quero o meu. Por isso – falo agora para o Passos Coelho e Companhia, mas também para todos os gestores de empresas públicas e mesmo privadas que todas elas têm uma dimensão comum -, vocês têm agora uma soberana oportunidade para tratarem o bem comum como tratam o vosso. Não pode haver bagunça de qualquer espécie nesse exercício. Até porque o bem comum também é vosso.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

TEXTO 19

Olá! Todos vocês conhecem o Fernando Nobre, não conhecem? Por ter um grande coração, ele fundou e preside à AMI, ele foi recentemente candidato a presidente da República, ele veste agora a cândida túnica de candidato a deputado da Nação. Muito bem. Mas foi também ele quem teve, há tempos, a feliz iniciativa de propor a várias figuras públicas escrevessem, cada uma delas, uma carta a Deus. Uma carta a Deus? Sim, a Deus! Ele mesmo escreveu logo a primeira. Depois, desse correio todo – que não levou estampilha postal para ficar mais em conta –, produziu-se um livrinho que dá pelo nome de “Cartas a Deus”, cujos direitos de autores revertem a favor da AMI.
Pude ler esse livrinho de “Cartas a Deus”. E então, agora, de forma inocente, isto é, sem nisto pôr ponta de desrespeito pelo que nelas se escreve, mas tão só para pormos interrogações e com elas eventualmente crescermos, resolvi eu escrever uma carta ou bilhete-postal, não a Deus mas a um ou outra desses beneméritos remetentes. Aqui vai então a primeira, dirigida a Maria João Cantinho.

Cara Maria João,

Gostei muito da sua carta enviada a Deus, a esse Deus que é a fonte e o sentido da sua vida, ainda que, como diz, não tenha nem talvez algum dia venha a ter a evidência da sua existência. Na verdade, nós não vamos a Deus pela razão ou intelecto do pensamento, mas dele nos podemos porventura aperceber com a inteligência e o coração, no meio dos vestígios que ele dispõe ante o nosso olhar.
Logo a abri-la, a Maria João escreve: “Chego a ti de mãos vazias”. De facto, só de mãos vazias podemos sentir Deus. Se as levássemos carregadas com as nossas solicitações, nós chegaríamos a um ídolo e não a Deus, feito aquele à medida dos conteúdos que carregamos nas mãos e na mente.
Mas a sua carta é uma carta muito bela, e a beleza não se comenta mas só se sente e frui. Ela constitui um verdadeiro poema, que é sempre a forma de escrever por palavras aquilo que não se pode dizer com palavras, mas só com a voz do coração.
Limito-me portanto a transcrever mais algumas passagens da carta, que considero mais relevantes: “Sei que nada devo pedir-te. (…) Prefiro, antes, sentar-me à sombra do teu silêncio… (…) Gosto de pensar que existes, ainda que nada o prove. Gosto de te sentir como o esplendor do sol…De saber que me basta apenas respirar e sentir, para suspeitar da tua presença. (…) Para te escutar, apenas preciso de suspender o curso do pensamento e seguir o curso do rio. Seguir a tua presença no rumorejar da água. (…) Talvez não tenha descoberto, ainda, o modo como se chega a ti. (…) Por vezes, arde-me nos lábios a agonia da solidão que é a de cada homem. (…) A beleza salva-me. Ela é o teu rosto mais perfeito, aquele que me aquece o coração…”
Destas passagens da carta, três palavras ressaltam: solidão, vazio e silêncio. E daquilo que estas palavras ressoam para mim, redigi dois pequenos textos a que chamei elogios, os quais lhe venho aqui oferecer. O primeiro é o elogio do estar só, e reza assim:
“Quando estamos sós, podemos ouvir as vozes do silêncio.
Estar só não é ser solitário nem estar em solidão.
Quando estamos sós, podemos estar em comunhão com tudo.
Só no vazio e no silêncio nos podem avultar as formas e o poder dos seres.
Para nós, estar só não é não ter outras pessoas à volta, mas ter vazia e limpa de pensamentos a nossa mente.
Para melhor podermos apreciar o saboroso gosto de estar só, é bom de quando em vez mergulharmos no ruído.
Só podemos extasiar-nos com a Beleza, se estivermos habituados a estar sós.
Do vazio e do silêncio se sustentam os seres, e é lá que os podemos encontrar.
No puro estar só, que é a anulação do “eu”, eu descubro ser pura relação. O amor é o fruto deste estado.
Não somos nós que vamos a Deus, mas é Deus que poderá vir a nós. E só virá quando estivermos sós.
Nós somos ondas de energia do grande Oceano do Universo. E é quando estamos sós que mais nos sentimos água e Oceano.”
O segundo elogio é o elogio do vazio e do silêncio:
“Por várias razões, a nossa cultura ocidental tem tido horror ao vazio e ao silêncio, mas para a tradicional cultura do Oriente e para a actual Física quântica não é assim.
Quando se está só, habita-se o vazio e o silêncio.
No vazio e no silêncio está a fonte da vida. Todo o pensamento, começando pelos conceitos, já é ocupação e barulho.
Por um lado, eu posso descer ao meu Eu profundo, ao vazio quântico. Por outro, em sentido oposto, eu posso sentir-me a renascer desse vazio, em cada agora da minha vida.
No Universo, tudo e todos, a cada instante, estamos saindo do vazio quântico. Estamos saindo, mas também regressando. Além de forma ou ser individualizado, eu sou vazio quântico, a ele me podendo acolher em cada agora em que estou.
O eu psicológico é todo o pensamento (ideias, ideologias, crenças…) que se guarda na concha da memória. Mas se, a espaços, abstrairmos desse eu mental, facilmente poderemos desaguar no Eu profundo, ou também, entrar no estado de estar só, de mente vazia e limpa.
Se lhe for gostoso e der proveito, experimente por momentos alimentar-se de vazio e de silêncio, quando tiver a sua mente limpa! Ou também perder-se nesse Oceano, quase se esquecendo que é onda desse mar!...
Entrarmos no santuário do vazio e do silêncio não é perdermos tempo, mas ir para além dele. Também não é ficarmos ociosos ou fugirmos à vida, porque, aí, nesse esquecimento do “eu”, há a fecundidade da invenção e do amor e do mais profundo conhecimento que nos pode acontecer.
O vazio e o silêncio mais saborosos e fecundos são os que podem estar dentro de nós… Quando a mente deixar de ser egocêntrica, e portanto estiver vazia e limpa, o impulso criador, a verdade, o amor e porventura até o próprio Deus virão a nós. E então, não em pensamentos do intelecto mas pela inteligência e pelo coração, nós vemos que tudo isso é bom.
O vazio e o silêncio são a morada do ser. De lá deriva tudo o que somos, mesmo a nossa divindade, do deus imanente partilhada. Mas lá pode estar também o Deus Outro, se acaso o pudermos sentir, por ele ter vindo ter connosco. O Absoluto será a face transcendente do deus imanente.”
Com a pobreza mas também a sinceridade destes dois singelos elogios lhe agradeço a sua carta, e subscrevo-me com atenção.
João