sábado, 30 de abril de 2016

385 - Era uma Ferida

Quando o chilreio das aves fere o silêncio
das manhãs, nada mais há nas manhãs de oiro:
as aves podem esvoaçar ou poisar, podem
aparar o bico batendo com ele nos ramos, podem
 juntar pauzinhos e barro para fazerem o ninho,
podem gritar as crianças na rua, e o ferreiro
bater com o martelo na bigorna, podem,
mas só o chilreio das aves  é que fere o silêncio.


A ferida só começa a sarar quando, sentadas,
 no ninho, as aves procedem à postura dos ovos,
e depois, dormitando, os chocam no bafo quente
das suas penas, e só quando os ovos eclodem e
de lá surgem novas vidas, então é que a ferida
do silêncio se dá por completamente extinta:
para se extasiar com a nova vida aparecida,
o silêncio não pode distrair-se

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