domingo, 6 de dezembro de 2015

347 - No Rio da Vida, Transcendendo o seu Curso


1 – Olá, amigas e amigos! É por volta dos três ou quatro anitos que as crianças chegam ao conhecimento do sentido da palavra eu, e logo, antes que a consigam utilizar, se aprestam a usar palavras mais fáceis de idêntico sentido, como são as palavras mim e meu. Ora, isto leva-nos a fazer muitas perguntas, e também a tentar responder-lhes.
Que sou eu? Não perguntamos aqui pelo eu social ou jurídico ou até tributário (!), mas pelo eu mental. O que é, então, o eu mental? Respondemos que, o mais provável, é ele ser um molho de desejos e temores e pensamentos e doutrinas, tudo mergulhado e vivenciado no tempo, e tudo ligado pela memória. Mas então, nós somos isso, isso tudo, ou somos só e simplesmente a luz que de fora o olha? Estamos a ver-nos a ser isso, ou, pelo contrário, somos só essa luz que vê? É que há muito quem diga – nomeadamente em livros de auto-ajuda – quem diga que, profundamente, nós não somos esse eu mental mergulhado em vivências temporais, sendo por isso preciso desfazermo-nos dele, para enfim sermos só aquela luz que até chamam eterna.

2 - O que parece mais acertado é que nós somos as duas coisas, isto é, o eu mental e a luz que de fora o olha, ou seja, somos o observado e o observador. São as duas faces da mesma realidade mental: a face vivida ou primária e a face reflexa, a qual até poderíamos designar de espiritual em segundo grau. Durante a vida, não parece poder existir só uma destas faces sem a outra, já que ambas dependem sobretudo do nosso cérebro, portanto do nosso corpo que, como todos experienciamos, é mortal.

3 - Não obstante, é muito saboroso sentarmo-nos na margem do rio da vida, olhando as águas do nosso eu mental passando, mais tumultuosas amiúde do que lisas, sem nos envolvermos sobretudo nesses tumultos. Estar na margem é não só vermos a uma certa distância os problemas para melhor depois os resolver, mas também – e bem mais que isso - é também aí o lugar (sem lugar) de onde vemos que não vamos com as águas, mas simplesmente estamos, simplesmente somos. Somos simplesmente presença.
Isto, porém, só pode acontecer-nos porque saímos temporariamente da corrente. E assim, isto não é desfazermo-nos do eu mental – coisa de todo impossível – mas sim, e sem constrangimentos, desocuparmo-nos dele temporariamente e até transcendê-lo. De facto, quando nos acontece esse estado de presença, que é o estado de quando somos nada, ou vazio, subitamente nos ligamos a tudo e nos surpreendemos repletos de uma indizível paz, de uma intensa alegria de estarmos vivos.


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