domingo, 8 de fevereiro de 2015

273 - Abençoada Cunha


1 - Olá, amigas e amigos! Depois do texto 265, este agora é o segundo de uma tríade de textos inspirados em Hannah Arendt. Como já dissemos no primeiro, somos feitos de corpo e de mente. Lá diziam os romanos “mens sana in corpore sano”, o mesmo nós dizendo na nossa doce língua com “mente sã em corpo são”.
Na mente há a alma, que é passiva, e há também o espírito, que é activo, sendo a sua principal actividade o pensar. A alma é passiva e também passível, pois que pode ser incendiada pelas paixões que do corpo a ela sobem. O espírito, ou razão, por seu lado, é impassível porque, estando fora e acima delas, não se apaixona por qualquer das referidas paixões. Quando muito, não se ouvirá por vezes a sua voz, em virtude da turbulência na alma.
Somos seres que pensam e que falam. Mas nós pensamos porque falamos, ou falamos porque pensamos? Resolvamos este assunto, da maneira seguinte: o pensar precisa sempre da palavra para poder existir, e sobretudo para se mostrar. Mesmo o pensar que se não exterioriza precisa do “verbo mental” para que possa existir. E a palavra precisará do pensar para poder existir? Claro que sim! Precisa porque qualquer palavra é portadora de um significado, que é sempre espiritual, assim derivando sempre da actividade de pensar do nosso espírito.
De modo que o produto desta actividade de pensar do nosso espírito - o qual é florescência ou luz que se acende ou floresce do nosso corpo - entra ou aparece neste mundo material em que vivemos, sobretudo através da nossa palavra falada. Por isto é que não devemos ser grafonolas falantes, produzindo para os outros palavras vazias de recheio espiritual!

2 - Diz-se que é pela metáfora que o produto da actividade de pensar do nosso espírito entra neste concreto mundo que nos aparece. O que é uma metáfora, mesmo em texto não literário? Não é sempre uma forma concreta e vívida para apresentar o que queremos dizer?
Há pouco tempo, uma mamã dizia-me que a sua filha mais nova, que já há muito namora, agora é que vai casar. E dizia-o com alegria, sim, mas também com um grãozinho de tristeza, pois que deixará de ter a sua companhia, à qual muito está afeiçoada. Irá casar agora porque … uma abençoada “cunha” acaba de fazer com que o namorado vire funcionário efectivo da empresa onde trabalha, assegurando assim o seu posto de trabalho. Mas quanto àquele grãozinho de tristeza que a mamã sente por a filha a deixar, eu disse: “Deixe-a “voar”, senhora! Quanto mais livremente ela voar, - nunca presa mas sempre junto ao companheiro - mais ela terá vontade de voltar ao pé de si. Se lhe dificultar o voar livre, nunca mais ela terá grande prazer em estar consigo.
Presentes estão, nesta história, duas interessantes metáforas – uma de linguagem comum (meter uma cunha), outra de linguagem poética (o voar) – com as quais o nosso pensar pode sair do seu recôndito sacrário e vividamente mergulhar no mundo concreto em que estamos.
Mas as próprias palavras todas que usamos, quando falamos, não são todas elas realidades concretas para significar algo de abstracto ou espiritual? Mesmo as palavras de estrita e exclusiva significação gramatical, como as palavras “de” ou “como” ou “para” ou a própria palavra “ou” e outras? Neste sentido, pois, todas elas são metáforas para presencializar o nosso pensar!
E nós, seres humanos, não somos também metáforas? Não são o nosso corpo e olhos e também palavras, as janelas da alma e do espírito? Mas, se é assim, e deve ser, também é pelas palavras e olhos e corpo que a nossa alma e o nosso espírito se desvelam e aparecem no mundo! Nem haverá outras maneiras por que apareçam.

3 - Tem o nosso espírito a actividade de pensar, mas também de conhecer. Por tal actividade, nós vamo-nos conhecendo a nós mesmos, mas também à circunstância objectiva do mundo em que vivemos.
Quem somos nós? Quando neste ser vivo, em razão do seu pensar, surge a subjectividade, quando portanto ele começa a voltar-se também para dentro de si próprio e assim a conhecer-se, então aí está a surgir o “eu”, que é próprio do ser humano. O ser humano é um “eu”.
Que somos nós? Conhecer é amar e amar é conhecer, como já vimos (texto 14). Será que o conhecer pertencerá exclusivamente ao espírito? E o amar será somente próprio do corpo, começando pelo coração? Ou, de forma diversa, o conhecer começa no espírito, mas envolvendo depois consigo todo o corpo começando pelo coração, enquanto que o amor nasce no coração e no corpo, mas incendiando logo a alma e subindo até e envolvendo o impassível espírito? Não somos nós conhecer-amar e conhecimento-amor? Não há aí ninguém que queira dar a sua opinião?


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