1 - Olá, amigas e
amigos! Depois do texto 265, este agora é o segundo de uma tríade de textos
inspirados em Hannah Arendt. Como já dissemos no primeiro, somos feitos de
corpo e de mente. Lá diziam os romanos “mens sana in corpore sano”, o mesmo nós
dizendo na nossa doce língua com “mente sã em corpo são”.
Na mente há a alma,
que é passiva, e há também o espírito, que é activo, sendo a sua principal
actividade o pensar. A alma é passiva e também passível, pois que pode ser
incendiada pelas paixões que do corpo a ela sobem. O espírito, ou razão, por
seu lado, é impassível porque, estando fora e acima delas, não se apaixona por
qualquer das referidas paixões. Quando muito, não se ouvirá por vezes a sua
voz, em virtude da turbulência na alma.
Somos seres que
pensam e que falam. Mas nós pensamos porque falamos, ou falamos porque
pensamos? Resolvamos este assunto, da maneira seguinte: o pensar precisa sempre
da palavra para poder existir, e sobretudo para se mostrar. Mesmo o pensar que
se não exterioriza precisa do “verbo mental” para que possa existir. E a
palavra precisará do pensar para poder existir? Claro que sim! Precisa porque
qualquer palavra é portadora de um significado, que é sempre espiritual, assim
derivando sempre da actividade de pensar do nosso espírito.
De modo que o
produto desta actividade de pensar do nosso espírito - o qual é florescência ou
luz que se acende ou floresce do nosso corpo - entra ou aparece neste mundo
material em que vivemos, sobretudo através da nossa palavra falada. Por isto é
que não devemos ser grafonolas falantes, produzindo para os outros palavras
vazias de recheio espiritual!
2 - Diz-se que é
pela metáfora que o produto da actividade de pensar do nosso espírito entra
neste concreto mundo que nos aparece. O que é uma metáfora, mesmo em texto não
literário? Não é sempre uma forma concreta e vívida para apresentar o que
queremos dizer?
Há pouco tempo, uma
mamã dizia-me que a sua filha mais nova, que já há muito namora, agora é que
vai casar. E dizia-o com alegria, sim, mas também com um grãozinho de tristeza,
pois que deixará de ter a sua companhia, à qual muito está afeiçoada. Irá casar
agora porque … uma abençoada “cunha” acaba de fazer com que o namorado vire funcionário
efectivo da empresa onde trabalha, assegurando assim o seu posto de trabalho.
Mas quanto àquele grãozinho de tristeza que a mamã sente por a filha a deixar,
eu disse: “Deixe-a “voar”, senhora! Quanto mais livremente ela voar, - nunca
presa mas sempre junto ao companheiro - mais ela terá vontade de voltar ao pé
de si. Se lhe dificultar o voar livre, nunca mais ela terá grande prazer em
estar consigo.
Presentes estão,
nesta história, duas interessantes metáforas – uma de linguagem comum (meter
uma cunha), outra de linguagem poética (o voar) – com as quais o nosso pensar
pode sair do seu recôndito sacrário e vividamente mergulhar no mundo concreto
em que estamos.
Mas as próprias
palavras todas que usamos, quando falamos, não são todas elas realidades
concretas para significar algo de abstracto ou espiritual? Mesmo as palavras de
estrita e exclusiva significação gramatical, como as palavras “de” ou “como” ou
“para” ou a própria palavra “ou” e outras? Neste sentido, pois, todas elas são
metáforas para presencializar o nosso pensar!
E nós, seres humanos,
não somos também metáforas? Não são o nosso corpo e olhos e também palavras, as
janelas da alma e do espírito? Mas, se é assim, e deve ser, também é pelas
palavras e olhos e corpo que a nossa alma e o nosso espírito se desvelam e
aparecem no mundo! Nem haverá outras maneiras por que apareçam.
3 - Tem o nosso
espírito a actividade de pensar, mas também de conhecer. Por tal actividade,
nós vamo-nos conhecendo a nós mesmos, mas também à circunstância objectiva do
mundo em que vivemos.
Quem somos nós? Quando neste ser vivo, em razão
do seu pensar, surge a subjectividade, quando portanto ele começa a voltar-se
também para dentro de si próprio e assim a conhecer-se, então aí está a surgir o
“eu”, que é próprio do ser humano. O ser humano é um “eu”.
Que somos nós? Conhecer é amar e amar é conhecer, como já
vimos (texto 14). Será que o conhecer pertencerá exclusivamente ao espírito? E
o amar será somente próprio do corpo, começando pelo coração? Ou, de forma
diversa, o conhecer começa no espírito, mas envolvendo depois consigo todo o
corpo começando pelo coração, enquanto que o amor nasce no coração e no corpo, mas
incendiando logo a alma e subindo até e envolvendo o impassível espírito? Não
somos nós conhecer-amar e conhecimento-amor? Não há aí ninguém que queira dar a
sua opinião?